O programa presente em mais de 25 Unidades de Conservação destaca proteção de polinizadores e alia conservação da biodiversidade dos biomas presentes nas áreas protegidas à geração de renda
As áreas protegidas geridas pela Fundação
Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística
do Estado de São Paulo (Semil), abrigam 32 espécies de abelhas nativas sem
ferrão, o equivalente a 51% das espécies desse grupo registradas no Estado de
São Paulo. O levantamento é resultado do Programa Abelhas Nativas da Fundação
Florestal (PAN-FF), que atua em mais de 25 Unidades de Conservação e transforma
o conhecimento sobre esses importantes polinizadores em ações de conservação,
educação ambiental e apoio a políticas de bioeconomia.
A estratégia da Fundação Florestal é ampliar o
alcance desse conhecimento para além dos limites das Unidades de Conservação.
Ao conservar populações de polinizadores, estruturar meliponários (local
destinado à criação racional e ao manejo de abelhas sem ferrão), capacitar
comunidades e integrar o PAN-FF a programas de restauração e Pagamento por
Serviços Ambientais (PSA), a instituição busca fortalecer uma rede capaz de
conectar biodiversidade, recuperação da vegetação nativa, produção sustentável
e geração de renda.
Criado em 2020, o programa mantém atualmente cerca
de 192 caixas racionais destinadas ao estudo, reprodução e manejo sustentável
das espécies e prevê 30 meliponários educativos. Além das abelhas nativas sem
ferrão, os levantamentos já registraram 41 espécies de abelhas solitárias nas
áreas protegidas.
O trabalho permite ampliar o conhecimento sobre a
distribuição das espécies nos diferentes ambientes protegidos pela Fundação
Florestal, identificar populações ameaçadas e desenvolver estratégias para sua
conservação. Os polinizadores exercem papel fundamental na reprodução das
plantas e, consequentemente, na regeneração e manutenção da diversidade das
florestas.
“Conhecer onde estão essas espécies e como elas se
relacionam com os diferentes ambientes é fundamental para orientar as ações de
conservação. As Unidades de Conservação têm um papel estratégico porque
protegem não apenas a vegetação, mas também os polinizadores responsáveis pela
manutenção e regeneração desses ecossistemas”, explica Gustavo Feliciano Alexandre,
gestor da APA do Carmo e coordenador do PAN-FF.
A importância dessa integração também é apontada
pela ciência. Estudo desenvolvido no âmbito do BIOTA Síntese – Núcleo de
Análise e Síntese de Soluções Baseadas na Natureza, em parceria entre a Semil,
a Universidade de São Paulo (USP) e outras instituições, mapeou a oferta e a
demanda pelo serviço de polinização no território paulista e estimou que a
redução do déficit desse serviço ecossistêmico pode representar ganhos de até
R$ 4,2 bilhões por ano para a economia do Estado. Vencedora na categoria lugar
geral do Prêmio MapBiomas 2025, a pesquisa aponta a conservação e a recuperação
da vegetação nativa próxima às áreas agrícolas como estratégias para ampliar o
fluxo de polinizadores e favorecer a produção.
Unidades de Conservação como refúgio
Entre as espécies acompanhadas pelo programa estão abelhas consideradas
ameaçadas de extinção, como a uruçu-amarela-do-cerrado (Melipona rufiventris) ,
a uruçu-amarela da Mata Atlântica (Melipona mondury) , a manduri (Melipona
marginata) e a guaraipo-amarela (Melipona bicolor) .
A conservação de áreas naturais é especialmente
importante para espécies do gênero Melipona, que utilizam buracos existentes em
troncos de árvores para estabelecer seus ninhos. A manutenção da vegetação
nativa e de árvores de grande porte nas Unidades de Conservação favorece a
disponibilidade desses locais e a permanência das populações. Além da proteção
direta das espécies, o PAN-FF trabalha com estruturas destinadas à reprodução,
pesquisa e manejo sustentável e promove atividades de educação ambiental para
aproximar visitantes, estudantes e comunidades do conhecimento sobre as abelhas
nativas e sua importância para os ecossistemas.
Das Unidades de Conservação à bioeconomia
O conhecimento acumulado pelo PAN-FF também passou a apoiar políticas de
bioeconomia desenvolvidas pela Fundação Florestal, conectando a conservação dos
polinizadores à restauração da Mata Atlântica e do Cerrado à geração de renda
para comunidades tradicionais e pequenos produtores. Um dos principais exemplos
dessa integração ocorre no PSA Juçara, voltado à conservação, ao manejo
sustentável e ao repovoamento da palmeira-juçara (Euterpe edulis). As abelhas
participam da polinização da espécie, favorecendo a formação de frutos e
sementes, enquanto a criação racional de abelhas nativas abre uma atividade
complementar de bioeconomia para as famílias participantes.
Atualmente, 61 famílias participantes das ações
integradas já possuem caixas de abelhas nativas. São 225 colônias implantadas,
450 ninhos-isca instalados e 42 ninhos naturais identificados e protegidos.
Considerando as ações previstas nas duas edições do PSA Juçara, o potencial é
chegar a cerca de 3.400 colônias de abelhas nativas até 2030.
A integração cria um ciclo em que a conservação das
abelhas favorece a polinização e a regeneração da vegetação, enquanto a
meliponicultura pode gerar produtos como mel e própolis e complementar a renda
das famílias. A estratégia permite associar conservação da biodiversidade,
restauração ecológica e desenvolvimento de cadeias produtivas sustentáveis.
A Fundação Florestal também promove capacitações
voltadas ao manejo e à regularização da criação de abelhas nativas. Já foram
realizadas mais de dez rodadas de oficinas e treinamentos, além de formações
específicas para participantes do PSA Juçara.
Conservação realizada pelos povos originários
O PAN-FF também oferece suporte técnico a ações desenvolvidas com comunidades
indígenas no âmbito do PSA Guardiões das Florestas, com oficinas, capacitações
e atividades relacionadas à identificação e ao monitoramento de ninhos
naturais. A iniciativa contribui para ampliar o conhecimento sobre os
polinizadores nos territórios e fortalecer práticas locais de conservação da
biodiversidade.
Nas Unidades de Conservação, outra frente é a
educação ambiental. O programa desenvolve materiais didáticos e atividades para
estudantes e visitantes, utilizando os meliponários como espaços de
conhecimento sobre a diversidade das espécies, a polinização e sua relação com
a conservação das florestas.
“A conservação ganha escala quando conseguimos
transformar o conhecimento produzido nas Unidades de Conservação em políticas
públicas que também geram oportunidades para as comunidades. Com o Programa
Abelhas Nativas, conectamos proteção da biodiversidade, restauração e
bioeconomia, fazendo com que a conservação produza benefícios dentro e fora das
áreas protegidas”, afirma o diretor-executivo da Fundação Florestal, Rodrigo
Levkovicz.

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