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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Quando a resposta vem pronta, a universidade precisa mudar a pergunt

Avanço da inteligência artificial expõe os limites de um modelo de ensino baseado na transmissão de informações e coloca a aprendizagem diante de uma nova exigência

 

A inteligência artificial não está apenas mudando a forma como os estudantes pesquisam. Ela está colocando em xeque uma das funções históricas da universidade: ser o lugar onde o conhecimento é transmitido.  

Se uma ferramenta consegue pesquisar, resumir, organizar conceitos e apresentar uma resposta em segundos, insistir em uma aula baseada apenas na entrega de conteúdo significa disputar com a tecnologia justamente naquilo em que ela é mais rápida. A questão passa a ser outra: o que a universidade deve fazer quando a informação deixa de ser o principal desafio? 

A mudança já chegou à rotina acadêmica. Pesquisa do Higher Education Policy Institute (HEPI), realizada com 1.054 universitários britânicos, mostra que 95% usam inteligência artificial e 94% recorrem à IA generativa para apoiar trabalhos avaliativos. O dado ajuda a deslocar o debate de “usar ou não usar” para uma questão mais relevante: o que o estudante faz com aquilo que a máquina encontrou? 

Para Pedro Smolka, reitor do Centro Universitário ESAMC Santos, a resposta está na compreensão que vem depois da pesquisa. “A diferença está justamente no que acontece entre a informação encontrada e a conclusão construída”, afirma. 

Uma IA pode localizar em segundos conceitos, teorias e argumentos, mas não elimina a necessidade de compreender esses elementos para tomar uma decisão, resolver um problema ou sustentar uma posição. 

“Se eu não entender de onde vem o conceito, se eu não entender aquilo que a Inteligência Artificial está falando, eu estou passando por cima de fases. Eu preciso entender conceitos, teoria, doutrina, para chegar a uma conclusão sobre o assunto”, explica Smolka. Nesse cenário, pesquisar deixa de ser o ponto de chegada e passa a ser matéria-prima para o aprendizado. 

Essa mudança atinge diretamente a sala de aula. Se a tecnologia já entrega parte da informação, o encontro entre professor e estudante precisa fazer aquilo que uma resposta pronta não consegue: colocar o conhecimento à prova. Explicar uma ideia, confrontar argumentos, aplicar uma teoria a uma situação concreta e defender uma conclusão passam a ser experiências mais relevantes do que simplesmente reproduzir conteúdo. 

É justamente nessa aplicação que, para Smolka, permanece uma diferença fundamental da experiência acadêmica: “O ambiente acadêmico, essa troca do corpo discente, a troca com colega em sala de aula, a troca com o professor, o modo como o professor também transmite aquele conhecimento, o modo como ele conecta com a aula, isso é diferente.” 

A IA, portanto, não tornou a sala de aula desnecessária. Tornou desnecessária a sala de aula dedicada apenas a transmitir informações. O desafio da universidade passa a ser redesenhar a aprendizagem: deixar para a tecnologia aquilo que ela faz melhor - pesquisar, organizar e acelerar - e usar o ambiente acadêmico para aquilo que exige pensamento, interação e aplicação. 

É uma mudança que não pede apenas que o estudante aprenda a usar inteligência artificial. Pede que a universidade decida, diante dela, o que realmente significa ensinar.



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