No Outubro Rosa, ressecamento vaginal e dor nas relações sexuais chamam atenção para efeitos que podem acompanhar o tratamento oncológico. A fisioterapia pélvica pode integrar esse cuidado, conforme avaliação individual e orientação da equipe médica.
Ressecamento
vaginal, desconforto e dor durante as relações sexuais podem fazer parte das
mudanças enfrentadas por mulheres em tratamento contra o câncer de mama. Alguns
tratamentos podem alterar a função dos ovários ou reduzir a ação do estrogênio,
com repercussões na lubrificação e no conforto íntimo. Esses efeitos variam
entre pacientes e merecem espaço nas consultas, mesmo quando a prioridade é o
controle da doença.
No Outubro
Rosa, ampliar essa conversa ajuda a reconhecer necessidades que muitas mulheres
têm dificuldade de relatar. Vergonha, receio de parecer uma preocupação
secundária ou a ideia de que o desconforto é inevitável podem levar ao
silêncio. A saúde sexual, porém, também faz parte da qualidade de vida durante
e após o tratamento.
Segundo
Jullia Mello, fisioterapeuta pélvica, especialista em Uroginecologia e
Obstetrícia e mentora do grupo Pelve Conecta, o cuidado começa pela escuta. “A
mulher precisa encontrar espaço para contar o que mudou, sem sentir que está
trazendo uma questão menos importante. Dor, ressecamento e insegurança merecem
avaliação, respeitando o momento do tratamento e aquilo que ela deseja
trabalhar”, explica.
A dor nas
relações não deve ser atribuída automaticamente a uma única causa. Além das
alterações dos tecidos, podem existir tensão muscular, dificuldade de
relaxamento do assoalho pélvico e medo de sentir dor novamente. A avaliação
ajuda a identificar quais fatores estão presentes e quais profissionais precisam
participar do cuidado.
A
fisioterapia pélvica pode integrar esse acompanhamento quando há indicação. O
trabalho pode envolver percepção corporal, coordenação e relaxamento muscular,
além de outros recursos selecionados conforme os sintomas e as condições
clínicas. A Sociedade Americana de Câncer inclui a fisioterapia pélvica entre
as possibilidades para mulheres com dor relacionada à dificuldade de relaxar a
musculatura vaginal.
“Não é
simplesmente orientar contrações. Se existe uma musculatura tensa ou
dificuldade para relaxar, a conduta precisa considerar isso. Também não podemos
atribuir à fisioterapia a solução de todas as alterações hormonais. O cuidado
deve ser construído em conjunto”, ressalta Jullia.
Lubrificantes
e hidratantes vaginais podem ser discutidos com a equipe responsável, assim
como outras alternativas para os sintomas. Produtos e tratamentos hormonais
exigem avaliação médica individualizada, especialmente diante do histórico de
câncer de mama. A escolha não deve ser feita por indicação informal ou pela
repetição de uma receita utilizada antes do diagnóstico.
O
acompanhamento também precisa respeitar os limites e as preferências da
paciente. Técnicas de avaliação e tratamento devem ser explicadas e realizadas
com consentimento, considerando a fase do cuidado oncológico e eventuais
restrições.
“A
reabilitação não tem como objetivo fazer a mulher retomar relações em um prazo
determinado. Precisamos cuidar do conforto, da autonomia e das necessidades que
ela apresenta. A intimidade pode ser vivida de diferentes formas, sem pressão
para corresponder a uma expectativa”, afirma a fisioterapeuta.
Conversar
com a equipe de saúde permite avaliar os sintomas e definir possibilidades de
cuidado. Quando necessário, o acompanhamento psicológico ou em terapia sexual
também pode ajudar a trabalhar questões relacionadas à imagem corporal, ao medo
e às mudanças na relação.
Para Jullia,
a mensagem é que essas queixas não precisam permanecer escondidas. “A mulher
não deve sentir que precisa escolher entre cuidar do câncer e falar sobre sua
saúde íntima. São necessidades que podem ser acolhidas dentro de um
acompanhamento integrado, com respeito à sua história e ao seu tempo”, conclui.
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