A
concordância verbal é um dos pilares da clareza textual, mas um elemento em
particular costuma desafiar até os redatores mais experientes: o verbo “haver”.
É comum ouvirmos e lermos expressões como “houveram muitos inscritos” ou
“haverão mudanças”, contudo, sob a óptica da norma culta, essas construções são
equivocadas.
Ana
Paula Ferreira Chinelato, professora de Língua Portuguesa do Colégio Visconde
de Porto Seguro, em São Paulo, esclarece que o uso inadequado nasce da
tendência natural de pluralizar o verbo para concordar com o objeto, ignorando
uma regra fundamental da gramática: a impessoalidade.
De
acordo com a especialista, a chave para o uso adequado depende do sentido que o
verbo apresenta na frase. Quando “haver” é usado com o sentido de
existir, ocorrer ou acontecer, o verbo é classificado como impessoal. “Isso
significa que ele não possui sujeito. Se não há sujeito, o verbo não tem com
quem concordar e deve permanecer, obrigatoriamente, na 3ª pessoa do singular”,
explica Ana. Como exemplo, a professora cita: “Houve muitos
imprevistos na reunião” (e não “houveram”). E também: “Havia
centenas de alunos no auditório do colégio”.
Já
o verbo “existir” é diferente. A confusão ocorre porque o verbo
“existir” é pessoal. Ou seja, ele deve concordar com o sujeito. A professora
faz uma comparação: “Houve problemas” (haver = impessoal) versus
“Existiram problemas” (existir = pessoal).
E
quando o verbo “haver” indica tempo decorrido, também é considerado
impessoal. É o que ocorre em: “Não visitamos aquela cidade há
dez anos”.
Para
a professora, compreender esse tópico pode fazer a diferença em contextos de
avaliação escrita, especialmente em vestibulares e concursos. “O uso de
‘houveram’ no sentido de ‘existiram’ é uma inadequação recorrente em redações e
costuma ser apontado pelas bancas corretoras, já que o verbo ‘haver’, nesse
caso, é impessoal”, afirma a docente.

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