Durante o 28º Congresso da Sociedade Brasileira de Radioterapia, especialistas brasileiros e internacionais discutiram estudos que reforçam a integração da radioterapia com imunoterapia e terapias-alvo no tratamento do câncer de pulmão e destacaram a necessidade de ampliar o acesso dos pacientes brasileiros a essas estratégias
O Agosto Branco, campanha dedicada à
conscientização sobre o câncer de pulmão, também é um momento para discutir os
avanços que vêm transformando o tratamento da doença e os desafios para que eles cheguem aos
pacientes brasileiros. Entre os temas destacados por especialistas da Sociedade
Brasileira de Radioterapia (SBRT) estão a combinação da radioteapia com
terapias-alvo e imunoterapia, estratégias que vêm ampliando as perspectivas de
controle da doença em grupos específicos de pacientes e que estiveram entre os
principais debates do 28º Congresso da entidade, realizado de 29 de julho a 1
de agosto, em Brasília.
De acordo com o radio-oncologista e presidente da
Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT), Wilson Almeida Jr., a radioterapia
deixou de ser uma modalidade utilizada de forma isolada e passou a integrar
abordagens cada vez mais personalizadas. "O debate hoje é sobre como
combinar a radioterapia de forma mais eficiente com quimioterapia,
imunoterapia, terapias-alvo, cirurgia e biomarcadores, para oferecer o
tratamento mais adequado a cada paciente. O conhecimento científico avançou de
maneira expressiva nos últimos anos. O desafio é garantir que esses avanços
estejam disponíveis para todos os brasileiros, inclusive para aqueles atendidos
pelo Sistema Único de Saúde", afirma.
Um dos exemplos dessa evolução é o estudo LAURA, que foi um
dos temas de maior repercussão do Congresso da Sociedade Americana de Oncologia
Clínica (ASCO) em 2024. A pesquisa avaliou o uso do osimertinibe após
quimiorradioterapia em pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células
localmente avançado, irressecável e com mutação no gene EGFR. Os resultados
levaram à aprovação desta indicação terapêutica pela Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa) em maio de 2025. Apesar do avanço regulatório, o
medicamento ainda não teve sua incorporação ao Sistema Único de Saúde (SUS)
concluída, impedindo sua oferta universal aos pacientes da rede pública.
No estudo, o osimertinibe reduziu em
aproximadamente 84% o risco de progressão da doença ou morte. Um ano após o
início do tratamento, 74% dos pacientes tratados permaneciam vivos e sem
progressão da doença, contra 22% daqueles que receberam placebo. Após três anos
de acompanhamento, a taxa de sobrevida global foi de 84% entre os pacientes que
utilizaram a terapia-alvo, em comparação com 74% no grupo controle.
Na avaliação de Almeida Jr., o estudo ilustra como
a incorporação de terapias sistêmicas à radioterapia vem redefinindo o
tratamento do câncer de pulmão. "O tratamento está cada vez mais
direcionado às características biológicas do tumor e do paciente. A
radioterapia faz parte dessa transformação e, quando integrada a outras
modalidades terapêuticas nos pacientes adequados, pode contribuir para
resultados cada vez melhores."
A integração da radioterapia com tratamentos
sistêmicos também tem sido reforçada por estudos envolvendo imunoterapia. Uma pesquisa
publicada em 2025 na revista Frontiers
in Oncology, realizada com 302 pacientes em um cenário de
prática clínica real, mostrou que aqueles tratados com a combinação de
radioterapia torácica e imunoterapia apresentaram sobrevida global mediana de
34,7 meses, enquanto entre os pacientes que receberam apenas imunoterapia a
mediana foi de 27,1 meses. Além do ganho em sobrevida, os pesquisadores
observaram que os benefícios variaram conforme características clínicas e
biológicas dos pacientes, reforçando a importância da medicina personalizada e
da definição individualizada das estratégias terapêuticas.
Embora os avanços científicos tenham ampliado as
opções terapêuticas para o câncer de pulmão, especialistas alertam que muitos
pacientes brasileiros ainda enfrentam dificuldades para acessar essas
inovações, especialmente no Sistema Único de Saúde. "A aprovação
regulatória representa um passo importante, mas não significa que o tratamento
esteja disponível para todos os pacientes. É fundamental avançar também na
incorporação das tecnologias e na organização da assistência para que a inovação
realmente chegue à população", afirma Almeida Jr.
CENÁRIO DO CÂNCER DE PULMÃO
Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer
(INCA) para o triênio 2026-2028, o Brasil deverá registrar cerca de 35.380
novos casos de câncer de pulmão por ano. A doença é o terceiro tipo de câncer
mais frequente entre os homens e o quarto entre as mulheres. Dados do Sistema
de Informações sobre Mortalidade (SIM) mostram que, somente em 2025, o câncer
de pulmão foi responsável por 32.113 mortes no país. Em todo o mundo, estima-se
que a doença provoque cerca de 1,8 milhão de óbitos anuais, permanecendo como a
principal causa de morte por câncer.
O tabagismo continua sendo o principal fator de
risco para o desenvolvimento da doença, respondendo pela maioria dos casos.
Especialistas também alertam para o aumento do consumo de dispositivos
eletrônicos para fumar, como cigarros eletrônicos e vapes, que expõem os
usuários à nicotina e a diversas substâncias potencialmente tóxicas e
cancerígenas. O câncer de pulmão também pode acometer pessoas que nunca
fumaram. Exposição ao tabagismo passivo, poluição atmosférica e fatores
genéticos estão entre os fatores associados ao desenvolvimento da doença.
O USO DE RADIOTERAPIA EM
CÂNCER DE PULMÃO
A radioterapia desempenha papel fundamental em
diferentes fases do tratamento do câncer de pulmão. Ela pode ser utilizada como
tratamento principal quando a cirurgia não é indicada, antes da cirurgia para
reduzir o tumor (neoadjuvante), após o cirurgia, para diminuir o risco de
recidiva (adjuvante), no tratamento de metástases ( especialmente no cérebro e
nos ossos) e com finalidade paliativa, para aliviar sintomas como dor, tosse,
sangramento e dificuldade para respirar ou engolir.
Entre as principais técnicas estão a radioterapia estereotáxica corpórea (SBRT), indicada principalmente para tumores em estágio inicial e capaz de administrar altas doses de radiação com elevada precisão; a radioterapia conformada tridimensional (3D-CRT), que adapta os campos de tratamento ao formato do tumor; e a radioterapia de intensidade modulada (IMRT), que permite distribuir a radiação de maneira ainda mais precisa, preservando estruturas saudáveis próximas ao tumor.
Sociedade Brasileira de Radioterapia – SBRT
https://sbradioterapia.com.br/

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