“Esse processo favorece o autoconhecimento, ajudando a pessoa a compreender melhor seu modo de funcionar e reduzindo sentimentos de culpa, inadequação ou autocrítica”.
Ser uma pessoa neurodivergente significa: apresentar um
funcionamento neurológico e/ou psíquico que processa informações, aprende,
percebe e interage com o mundo de maneira diferente daquela considerada mais
frequente na população. Em contraponto, o termo neuroatípico refere-se às
pessoas cujo desenvolvimento e funcionamento supracitado seguem os padrões
esperados para a maioria, sem características associadas a condições
específicas do neurodesenvolvimento.
As pessoas neurodivergentes podem apresentar formas singulares de
pensar, aprender, resolver problemas e se relacionar com o meio que está
inserido. Essas características frequentemente estão associadas a habilidades e
perspectivas únicas, que são valiosos em variados contexto, mas ao mesmo tempo,
também podem enfrentar fragilidades em determinadas situações, especialmente
quando os ambientes não oferecem acessibilidade, compreensão ou adaptações as
suas necessidades. Por isso, reconhecer e valorizar a neurodiversidade é um
passo importante para promover inclusão, equidade e participação plena na
sociedade.
De acordo com a neuropsicóloga Anna Rúbia Pirôpo, coordenadora do
curso de Psicologia da Faculdade Unime Anhanguera, é importante ressaltar, que
o termo neurodivergente não corresponde a um diagnóstico clínico. Ele faz parte
de um conceito que compreende as diferenças no funcionamento neurológico como
uma variação natural da espécie humana. Dentro desse grupo podem estar pessoas
com condições como Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit
de Atenção e Hiperatividade (TDAH), Dislexia, entre outros.
“Esses grupos são caracterizados por apresentarem diferenças no
funcionamento cerebral que afetam áreas como percepção, processamento de
informações, comportamento e interação com o ambiente. Essas diferenças podem
incluir fragilidades nos processos atencionais, memória, linguagem,
funcionamento adaptativo ou interação social, assim como apresentar relevantes
habilidades", destaca.
Em apenas um ano, o número de alunos com autismo matriculados nas
escolas brasileiras aumentou 48%, de acordo com o último Censo Escolar (2023).
O crescimento dos diagnósticos dessa condição é uma tendência global, conforme
aponta o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos. Na
década de 1970, o autismo, por exemplo, era identificado em cerca de 1 em cada
10 mil crianças. Em 1995, essa proporção subiu para 1 em cada 1.000 e, em 2023,
alcançou 1 em 36, evidenciando uma evolução significativa nos índices.
Sobre a importância do diagnóstico, Anna destaca alguns pontos:
“Receber um diagnóstico pode promover conforto ao oferecer uma explicação para
experiências, dificuldades e diferenças percebidas ao longo da vida. Esse
processo favorece o autoconhecimento, ajudando a pessoa a compreender melhor
seu modo de funcionar e reduzindo sentimentos de culpa, inadequação ou
autocrítica. Além disso, possibilita o acesso a intervenções e apoios mais
adequados às suas necessidades. Com um diagnóstico formal, torna-se viável
acessar serviços especializados, terapias, adaptações e recursos educacionais
ou profissionais que promovam maior participação, autonomia e qualidade de
vida”, enfatiza.
A neuropsicóloga pontua ainda que um diagnóstico realizado de
forma ética contribui para evitar tratamentos, intervenções ou expectativas inadequadas,
que podem ser ineficazes ou até prejudiciais. “Uma avaliação abrangente permite
compreender as características individuais da pessoa e direcionar estratégias
terapêuticas e educacionais baseadas nas melhores evidências científicas
disponíveis”, acrescenta.
Por fim, considerando os aspectos éticos e pessoais envolvidos,
Anna ressalta que buscar um diagnóstico é uma decisão individual e que a
escolha de não realizar essa investigação também deve ser respeitada. “O
processo deve ser conduzido com sensibilidade, informação qualificada e
respeito a autonomia da paciente. O diagnóstico não se caracteriza um rótulo,
longe disso, ele deve servir como uma ferramenta para ampliar a compreensão
sobre o funcionamento individual, orientar intervenções quando necessárias e
garantir o acesso a direitos e apoios”, finaliza.

Nenhum comentário:
Postar um comentário