Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica Mãe, explica como o ambiente uterino molda o desenvolvimento do bebê na ovodoação, e por que o procedimento é tão seguro quanto qualquer outra gestação
Entre os
tratamentos de reprodução assistida, poucos carregam tanto tabu quanto a
ovodoação, técnica em que a paciente engravida com óvulos doados por outra
mulher. Uma das dúvidas mais recorrentes entre pacientes é sobre o vínculo
entre mãe e bebê quando não há herança genética direta pelo lado materno. A
resposta da ciência, no entanto, é clara: a gestação por ovodoação é tão segura
quanto qualquer outra, e o vínculo entre mãe e filho começa muito antes do
nascimento, moldado pelo próprio corpo da mãe gestante.
O ambiente
uterino também escreve a biologia do bebê
Diferentemente do
que muitos imaginam, a carga genética do óvulo doado não é a única influência
sobre quem aquele bebê será. Estudos recentes em epigenética mostram que o
ambiente intrauterino exerce um papel decisivo sobre a expressão dos genes do
feto ao longo de toda a gestação, um processo conhecido como programação fetal.
Ou seja, a alimentação da mãe, seus hormônios, seu sistema imunológico e até
seu estado emocional durante a gravidez influenciam diretamente como os genes
daquele bebê vão se expressar, para além do que está escrito no DNA herdado da
doadora.
Para o Dr. Alfonso
Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica
Mãe, esse é o ponto central que precisa ser esclarecido às pacientes que consideram
a ovodoação.
"A genética é
só uma parte da história. O corpo da mãe gestante participa ativamente da
formação daquele bebê, do primeiro dia de gravidez até o parto. É o organismo
dela que nutre, que protege, que regula a temperatura, os hormônios e até a
forma como os genes daquele bebê vão se expressar ao longo da vida. Isso é
maternidade sendo construída biologicamente, dia após dia, mesmo quando o óvulo
não é da própria paciente", afirma Dr. Massaguer.
Um
comparativo que ajuda a entender: adoção e ovodoação
Uma forma didática
de explicar essa diferença às pacientes é comparar a ovodoação com o processo
de adoção, guardadas as devidas proporções. Na adoção, a criança já nasceu e
foi formada dentro de outro corpo, sem qualquer participação biológica dos pais
adotivos durante a gestação. Já na ovodoação, embora a carga genética do óvulo
pertença à doadora, é o corpo da mãe receptora que conduz toda a gestação: é o
útero dela que abriga o embrião desde os primeiros dias, é o sistema
circulatório dela que nutre o feto através da placenta, e é o ambiente hormonal
dela que sustenta a gravidez do início ao fim.
A mãe que recorre
à ovodoação sente os primeiros movimentos do bebê, vive as alterações do próprio
corpo ao longo dos meses, participa de cada consulta de pré-natal e é ela quem
protagoniza o parto. O vínculo afetivo, que em qualquer gestação começa a se
formar ainda dentro do útero, segue o mesmo curso biológico e emocional de uma
gravidez com óvulos próprios.
Segurança do
procedimento para o bebê
Do ponto de vista
médico, a ovodoação é considerada um procedimento seguro, regulamentado no
Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que estabelece normas rigorosas
de segurança sanitária tanto para a doadora quanto para a receptora. Os óvulos
utilizados geralmente vêm de doadoras jovens e saudáveis, o que costuma
resultar em taxas de sucesso superiores às observadas em tratamentos com óvulos
próprios em idades mais avançadas, especialmente em casos de reserva ovariana
diminuída, falência ovariana prematura, doenças genéticas hereditárias ou
histórico de múltiplas tentativas de fertilização in vitro sem sucesso.
O desenvolvimento
do bebê ao longo da gestação segue as mesmas etapas biológicas de qualquer
gravidez, independentemente da origem do óvulo. Praticamente todos os órgãos do
feto se formam por volta da 12ª semana de gestação, com exceção do cérebro e da
medula espinhal, que continuam se desenvolvendo ao longo de toda a gravidez. É
justamente esse ambiente intrauterino, oferecido e regulado pelo corpo da mãe
gestante, que sustenta cada etapa dessa formação, do primeiro trimestre até o
parto.
"Não existe
diferença biológica relevante no desenvolvimento de um bebê gerado por
ovodoação. O que muda é a origem do óvulo, não a forma como aquele bebê é
gerado, nutrido e protegido durante os nove meses de gestação. Por isso, é
fundamental que as pacientes entendam que estão gerando seus filhos com todo o
cuidado e toda a segurança que qualquer gravidez exige, e não abrindo mão de
nenhuma parte da experiência da maternidade", completa o especialista.
O apoio
emocional faz parte do tratamento
Além da segurança
médica, o suporte psicológico é parte importante do processo de ovodoação,
ajudando as pacientes a lidar com expectativas, inseguranças e o impacto
emocional de aceitar a necessidade de um óvulo doado. O acompanhamento familiar
e do parceiro também é essencial nesse processo, contribuindo para uma
experiência de gestação mais leve, seguindo o mesmo cuidado dedicado a qualquer
gravidez.
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