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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Ovodoação: por que o vínculo biológico entre mãe e bebê começa muito antes da genética

Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica Mãe, explica como o ambiente uterino molda o desenvolvimento do bebê na ovodoação, e por que o procedimento é tão seguro quanto qualquer outra gestação

 

Entre os tratamentos de reprodução assistida, poucos carregam tanto tabu quanto a ovodoação, técnica em que a paciente engravida com óvulos doados por outra mulher. Uma das dúvidas mais recorrentes entre pacientes é sobre o vínculo entre mãe e bebê quando não há herança genética direta pelo lado materno. A resposta da ciência, no entanto, é clara: a gestação por ovodoação é tão segura quanto qualquer outra, e o vínculo entre mãe e filho começa muito antes do nascimento, moldado pelo próprio corpo da mãe gestante.
 

O ambiente uterino também escreve a biologia do bebê 

Diferentemente do que muitos imaginam, a carga genética do óvulo doado não é a única influência sobre quem aquele bebê será. Estudos recentes em epigenética mostram que o ambiente intrauterino exerce um papel decisivo sobre a expressão dos genes do feto ao longo de toda a gestação, um processo conhecido como programação fetal. Ou seja, a alimentação da mãe, seus hormônios, seu sistema imunológico e até seu estado emocional durante a gravidez influenciam diretamente como os genes daquele bebê vão se expressar, para além do que está escrito no DNA herdado da doadora. 

Para o Dr. Alfonso Massaguer, especialista em Reprodução Humana Assistida e fundador da Clínica Mãe, esse é o ponto central que precisa ser esclarecido às pacientes que consideram a ovodoação. 

"A genética é só uma parte da história. O corpo da mãe gestante participa ativamente da formação daquele bebê, do primeiro dia de gravidez até o parto. É o organismo dela que nutre, que protege, que regula a temperatura, os hormônios e até a forma como os genes daquele bebê vão se expressar ao longo da vida. Isso é maternidade sendo construída biologicamente, dia após dia, mesmo quando o óvulo não é da própria paciente", afirma Dr. Massaguer.
 

Um comparativo que ajuda a entender: adoção e ovodoação 

Uma forma didática de explicar essa diferença às pacientes é comparar a ovodoação com o processo de adoção, guardadas as devidas proporções. Na adoção, a criança já nasceu e foi formada dentro de outro corpo, sem qualquer participação biológica dos pais adotivos durante a gestação. Já na ovodoação, embora a carga genética do óvulo pertença à doadora, é o corpo da mãe receptora que conduz toda a gestação: é o útero dela que abriga o embrião desde os primeiros dias, é o sistema circulatório dela que nutre o feto através da placenta, e é o ambiente hormonal dela que sustenta a gravidez do início ao fim. 

A mãe que recorre à ovodoação sente os primeiros movimentos do bebê, vive as alterações do próprio corpo ao longo dos meses, participa de cada consulta de pré-natal e é ela quem protagoniza o parto. O vínculo afetivo, que em qualquer gestação começa a se formar ainda dentro do útero, segue o mesmo curso biológico e emocional de uma gravidez com óvulos próprios.
 

Segurança do procedimento para o bebê 

Do ponto de vista médico, a ovodoação é considerada um procedimento seguro, regulamentado no Brasil pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), que estabelece normas rigorosas de segurança sanitária tanto para a doadora quanto para a receptora. Os óvulos utilizados geralmente vêm de doadoras jovens e saudáveis, o que costuma resultar em taxas de sucesso superiores às observadas em tratamentos com óvulos próprios em idades mais avançadas, especialmente em casos de reserva ovariana diminuída, falência ovariana prematura, doenças genéticas hereditárias ou histórico de múltiplas tentativas de fertilização in vitro sem sucesso. 

O desenvolvimento do bebê ao longo da gestação segue as mesmas etapas biológicas de qualquer gravidez, independentemente da origem do óvulo. Praticamente todos os órgãos do feto se formam por volta da 12ª semana de gestação, com exceção do cérebro e da medula espinhal, que continuam se desenvolvendo ao longo de toda a gravidez. É justamente esse ambiente intrauterino, oferecido e regulado pelo corpo da mãe gestante, que sustenta cada etapa dessa formação, do primeiro trimestre até o parto. 

"Não existe diferença biológica relevante no desenvolvimento de um bebê gerado por ovodoação. O que muda é a origem do óvulo, não a forma como aquele bebê é gerado, nutrido e protegido durante os nove meses de gestação. Por isso, é fundamental que as pacientes entendam que estão gerando seus filhos com todo o cuidado e toda a segurança que qualquer gravidez exige, e não abrindo mão de nenhuma parte da experiência da maternidade", completa o especialista.
 

O apoio emocional faz parte do tratamento

Além da segurança médica, o suporte psicológico é parte importante do processo de ovodoação, ajudando as pacientes a lidar com expectativas, inseguranças e o impacto emocional de aceitar a necessidade de um óvulo doado. O acompanhamento familiar e do parceiro também é essencial nesse processo, contribuindo para uma experiência de gestação mais leve, seguindo o mesmo cuidado dedicado a qualquer gravidez.


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