Especialista
orienta como lidar com reajustes, portabilidade e coparticipação
As despesas com
assistência médica voltaram ao centro das decisões financeiras das famílias. A
Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) estabeleceu em 5,11% o teto de
reajuste para contratos individuais e familiares com aniversário entre maio de
2026 e abril de 2027. A medida, no entanto, contempla uma parcela minoritária
do mercado.
Dos 52,97
milhões de beneficiários de assistência médica no país, 44,49 milhões estão
vinculados a planos coletivos, que não seguem um limite de aumento definido
pela agência. A modalidade individual ou familiar reúne 8,45 milhões de
pessoas, equivalentes a 15,96% do total.
Para Amanda
Sacramento, planejadora financeira CFP® pela Planejar (Associação Brasileira de
Planejamento Financeiro), um dos principais erros ao avaliar um plano de saúde
é olhar apenas para o preço atual. “Uma mensalidade que cabe no bolso hoje pode
deixar de ser sustentável após aumentos anuais, mudanças de faixa etária ou
alterações na rotina. A análise precisa considerar o desembolso ao longo do
ano, a modalidade contratada, a frequência de utilização e os objetivos de
médio e longo prazo”, afirma.
1.
Calcule todas as despesas com saúde
O primeiro passo
é somar mensalidades, coparticipações, medicamentos, consultas particulares e tratamentos
recorrentes. Sacramento recomenda atenção quando esse conjunto se aproxima de
15% a 20% da renda e começa a reduzir a capacidade de poupança.
O percentual não
representa uma média nacional nem deve ser tratado como um limite rígido.
Trata-se de uma referência para reavaliar as finanças conforme os rendimentos,
a composição familiar e as necessidades médicas. “O problema aparece antes da
inadimplência. Se a pessoa interrompe investimentos, consome a reserva de
emergência ou assume dívidas para manter a proteção, o valor já deixou de ser
sustentável. O foco deixa de ser apenas ‘como economizar’ e passa a ser ‘como
tornar esse custo sustentável ao longo da vida’”, explica.
2.
Identifique a modalidade antes de analisar o aumento
Nos contratos
individuais e familiares regulamentados, a correção anual obedece ao teto
estabelecido pela ANS, de 5,11%. Nos coletivos, essa limitação não existe.
Quando há 30 ou mais beneficiários, o percentual é negociado entre a pessoa
jurídica contratante e a operadora ou administradora de benefícios.
A cobrança
também pode variar por mudança de faixa etária, conforme as condições previstas
no documento. Por isso, comparar qualquer aumento com o índice determinado pode
levar a uma conclusão equivocada. Antes de questionar ou aceitar o novo valor,
o consumidor deve identificar o tipo de contratação, conferir a data de
aniversário e entender os critérios utilizados.
3.
Considere a portabilidade quando a relação custo-benefício piorar
A portabilidade
pode ser avaliada quando a rede credenciada deixa de atender às necessidades do
beneficiário, o preço perde compatibilidade com a renda ou surgem alternativas
mais adequadas ao perfil de utilização. Pelas regras da ANS, o mecanismo
permite a troca sem o cumprimento de novas carências ou cobertura parcial
temporária, desde que os requisitos aplicáveis sejam atendidos.
A escolha não
deve se limitar à economia imediata. Abrangência geográfica, hospitais,
laboratórios, acomodação, reembolso, histórico de correções e continuidade de
tratamentos também precisam entrar na comparação. Outro cuidado é não cancelar
o vínculo anterior antes da conclusão do processo, o que pode deixar o
consumidor temporariamente desprotegido.
4.
Compare a coparticipação com a frequência de uso
Na coparticipação,
o beneficiário paga uma quantia adicional quando utiliza determinados serviços,
além da cobrança fixa mensal. O modelo pode ser vantajoso para quem recorre
pouco à rede e mantém uma reserva para eventuais consultas ou exames.
Para pessoas que
realizam terapias, acompanhamentos ou procedimentos frequentes, porém, a soma
anual pode superar a economia obtida. Sacramento recomenda analisar os últimos
12 meses de utilização e simular cenários de baixa, média e alta demanda. “Uma
mensalidade menor não significa necessariamente uma despesa total mais baixa. A
escolha deve considerar a rotina de uso e a oscilação que as finanças conseguem
absorver”, observa.
5.
Antecipe o impacto financeiro do envelhecimento
A projeção deve
contemplar tanto as correções anuais quanto as mudanças de faixa etária
indicadas no contrato. Para planos firmados a partir de 2004, por exemplo, a
última faixa começa aos 59 anos, e o preço definido para ela não pode superar
seis vezes aquele cobrado na primeira.
Mesmo com essa
regra, a combinação entre valores mais altos, maior frequência de utilização e
despesas com medicamentos pode ampliar significativamente o desembolso
destinado à saúde. A recomendação é fazer projeções para cinco, dez e vinte
anos, formar reservas específicas e reexaminar a cobertura após acontecimentos
relevantes, como casamento, nascimento de filhos, saída de dependentes,
aposentadoria ou diagnóstico que altere a necessidade de atendimento.
Para Sacramento,
uma análise consistente deve responder a três perguntas: a proteção contínua
adequada, a despesa cabe na renda sem sacrificar outros objetivos e a
modalidade escolhida corresponde ao perfil de utilização? “Não existe uma
solução universalmente barata ou cara, mas aquela que entrega a assistência
necessária de forma sustentável. Planejar a saúde é evitar decisões apressadas
justamente nos momentos de maior vulnerabilidade. Por isso, o plano deve ser
revisto periodicamente para acompanhar as mudanças da realidade financeira e
familiar”, conclui.
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