Com dados do Anuário Brasileiro de
Segurança Pública 2026 apontando quase 800 mil registros de ameaças e alta nos
descumprimentos de medidas protetivas, especialista em Crimes de Gênero orienta
como proteger a integridade da mulher e da família.
O mês de agosto marca a campanha nacional do Agosto Lilás, período
dedicado à conscientização e ao combate à violência contra a mulher. No
ambiente doméstico, a convivência familiar muitas vezes esconde sinais de
abusos que começam de forma silenciosa e gradual. Dados do 20º Anuário Brasileiro
de Segurança Pública (2026) revelam que, em 2025, o Brasil registrou 788.531
casos de ameaças contra mulheres e 60.830 ocorrências de violência psicológica.
Apenas no ano passado, foram contabilizados 132.025 registros de descumprimento
de Medidas Protetivas de Urgência no país, um crescimento de 16,7% em relação
ao período anterior.
Diante desses indicadores nacionais, a advogada
criminalista e especialista em Direito da Mulher Mariana Rieping analisa que o
conhecimento dos direitos e a identificação precoce das agressões verbais ou
psicológicas são passos decisivos para interromper ciclos de abusos dentro do
lar. "A violência raramente começa com uma agressão física evidente. Na
maioria das vezes, ela se manifesta primeiro pelo controle, pelas humilhações
no dia a dia, pelas ameaças veladas e pelo isolamento da mulher de seus amigos
e familiares. Compreender que o desrespeito constante e a chantagem emocional
constituem violações de direitos é o primeiro passo para que a vítima consiga
buscar ajuda e reestruturar sua vida com segurança",
explica Rieping.
Ainda segundo a especialista, o ambiente familiar deve ser um
espaço de segurança, e a percepção dos primeiros comportamentos abusivos é
fundamental para resguardar a vida da mulher e o bem-estar dos filhos.
Como identificar os sinais de risco e as formas de violência
Para que a mulher consiga romper o ciclo de abusos, é
fundamental saber reconhecer que a violência doméstica vai muito além da
agressão física. A violência psicológica, prevista como crime desde 2021,
manifesta-se por meio de ameaças, xingamentos, humilhações, manipulações,
isolamento e chantagens emocionais que minam a autoestima e a saúde mental da
vítima.
“Quando falamos de violência patrimonial, estamos nos referindo
a quando o companheiro controla ou esconde o dinheiro da mulher, destrói seus
bens, objetos de trabalho ou documentos pessoais para impedir sua
independência. Há também a violência moral, caracterizada por calúnias e
ofensas à reputação, e a violência sexual, quando a mulher é impedida de usar
métodos contraceptivos ou é forçada a atos íntimos indesejados, por exemplo”, aponta Rieping. De acordo com a advogada, identificar
esses comportamentos no cotidiano é a chave para perceber o escalonamento do risco
antes que o conflito atinja proporções mais graves.
A importância das Medidas Protetivas e o apoio à família
A legislação brasileira garante mecanismos
específicos de salvaguarda, como as Medidas Protetivas de Urgência previstas na
Lei Maria da Penha. Esses instrumentos jurídicos podem determinar o afastamento
imediato do agressor do lar, a proibição de contato ou aproximação da vítima e
de seus familiares, além de fixar a prestação de alimentos provisórios para os
filhos.
Para Mariana Rieping, a busca por orientação técnica qualificada
desde os primeiros episódios de conflito permite que os pedidos de proteção
sejam encaminhados de forma ágil e precisa ao Poder Judiciário, oferecendo
respaldo jurídico seguro para a mãe e para as crianças. "As
medidas protetivas foram criadas para impedir que o conflito se agrave. Quando
a mulher conta com uma orientação jurídica atenta e humanizada, ela compreende
que a lei existe para amparar a família e que denunciar não significa
desestruturar o lar, mas sim proteger aquela família",
destaca a criminalista.
Onde buscar apoio e orientação
Para garantir a segurança no cotidiano doméstico, a
sociedade civil e os órgãos públicos mantêm canais de atendimento gratuitos,
sigilosos e de funcionamento contínuo em todo o Brasi. Entre eles está a
Central de Atendimento à Mulher, acessível pelo número 180, que presta
orientação jurídica e encaminhamento à rede de proteção, além do 190 da Polícia
Militar, canal indicado para situações de emergência ou risco iminente. As
Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), a Defensoria Pública
e o suporte de advogados especializados constituem estruturas fundamentais para
requerer medidas de urgência ao Poder Judiciário.
"Buscar ajuda nos primeiros sinais não é um sinal de
fraqueza, mas um ato de coragem capaz de salvar vidas. Nenhuma mulher precisa
enfrentar o medo ou a incerteza sozinha, pois a rede de apoio e os instrumentos
legais estão à disposição para garantir dignidade e proteção à vítima de
violência doméstica e à sua família", reforça a especialista.
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