Nova individual do artista reúne esculturas de grande porte e cerca de 90 obras gráficas
O conceito da exposição Beijo de Língua, de Nelson Felix (1954), nasceu há 48 anos, em Lima, Peru, durante sua segunda viagem pela América Latina, em uma conversa com um grande amigo, sobre um dos idiomas locais, Aemara (Aymara, em espanhol) e sua reflexão sobre a formação de um palíndromo com a língua Aramea (Aramaico, na versão em espanhol). Os dois idiomas primordiais têm identidade marcante, história, memória e religiosidade de povos originários, americanos e médio-orientais. Esta conversa ficou em suspensão, convivendo com o artista durante todos esses anos e sem o trabalho ser realizado.
Segundo Nelson, em três ou quatro tentativas, ele se debruçou sobre este trabalho, mas percebeu algo menor na proposta a ser realizada. Em 2022, ele definiu o trabalho, e após uma viagem ao Vaticano, em 2023, Felix começou a produção das peças desta mostra, que será aberta ao público a partir do dia 30 de maio, no anexo expositivo (térreo e primeiro andar) do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC-USP). Beijo de Língua, com curadoria de Fernanda Pitta, é uma de suas grandes exposições institucionais, com cerca de 90 obras gráficas, oito trabalhos escultóricos (realizados em diversas partes e que se entrelaçam), seis fotografias e um vídeo.
"É uma exposição de esculturas, principalmente", diz Nelson. O eixo central da obra, é construído a partir de textos de três autores: Bertrand Russel, Homero e Santa Teresa D’Ávila, que geram três esculturas homônimas à exposição. São três peças em mármore Carrara, cada uma composta por duas chapas com um texto, escolhido pelo artista e traduzido para as duas línguas (Aramaico e Aymara) e escrito em letras vazadas.
“Colo estas duas chapas com os textos, aliás, é a primeira vez que uso cola em meu trabalho. Aqui a cola é material tão importante como o próprio mármore, ou o bronze ou mesmo os elementos vegetais que uso. Assim, nos caracteres, surgem vazamentos mútuos, as línguas se tocam, e para mim, um beijo”, afirma o artista.
Estes três autores escolhidos por Felix são homenageados em outros trabalhos: Escultura para Homero, onde seus versos para Hermes em folhas de bronze percorrem o espaço. Em Escultura para Bertrand, várias peças de mármore e bronze dialogam e criam formas, e de tantas partes, o limite da própria escultura se esvai. Na obra Escultura para Santa Teresa, uma longa e fragmentada “mesa” traz gravado sobre ela o texto escolhido pelo artista. Já em Carta de amor (2022, Galeria Millan, São Paulo), trabalho apresentado em forma contínua, como um projeto, agora ganha duas novas versões, escultóricas: Pétala e Caule. As obras apresentam diversos materiais: mármore, bronze, ferro, cabo de aço, cacto e fio de seda.
As obras gráficas trazem também elementos escultóricos,
como nos cinco Desenhos índice, onde um vaso de bronze é adicionado à moldura.
Nesta série de desenhos, como o título anuncia, Felix “apresenta” a mostra. Em Desenho
sem chão, um tríptico com cinco metros de extensão, a presença do chumbo e do
grafite criam uma linha horizontal por toda a obra. A característica do metal
pesado contrasta com a delicadeza de textos de Santa Teresa D’Ávila, bordados
em um tecido de linho branco.
Homero retorna em outro trabalho, na obra Tartaruga de Homero, onde o artista faz menção ao poema para Hermes. Nos versos, o poeta relata o sacrifício do animal pelo deus e assim, do seu casco cria a cítara, um instrumento musical, e com ela, conscientemente, a música, ou no sentido mais amplo, a própria arte. A fotografia ganhou interferências de desenhos, palavras escritas e objetos, unindo assim a imagem gráfica ao trabalho escultórico. Em uma série de desenhos impactantes, o artista volta a aludir esta parte do poema de Hermes, em 7 noites vazias e 21 dias como 21 anos. São 22 desenhos, onde Felix resgata um gesto gráfico primitivo (até, primal) e repetitivo. Porém, sua forma gráfica se realiza de forma diversa, e nunca é idêntica. A exposição também apresenta uma releitura de Vazio Coração, trabalho concebido em 1999 e que recebe agora outra versão, 27 anos depois.
Ao todo, são 13 títulos de obras em Beijo de Língua. O emaranhamento das obras é uma característica corrente no trabalho de Felix, e aqui são três movimentos. O artista nos diz e compara este processo de entrelaçamento de ações e exposições: "São como árias de uma ópera. Blocos de música, com início e fim, melhor, individuais..., mas que se juntam, ou se relacionam, formando um movimento de uma sinfonia, por exemplo. Deste modo, relaciono ações, trabalhos, exposições, e possibilito uma maior e mais rica rede de interações, não só visuais”.
Assim, a exposição que Nelson abrirá no MAC-USP, é o ápice de uma série de três movimentos: Nó a nó, Pedra de Rumo e Beijo de Língua. Iniciado no solstício de inverno de 2025, em São Paulo, Nó a nó foi uma ação realizada no ponto de encontro do prolongamento das linhas de comprimento das plantas arquitetônicas do museu e da galeria Almeida & Dale, que representa o artista. Pedra de rumo foi a exposição nesta galeria, em março deste ano, e Beijo de Língua, no museu.
Felix alinha e monta os trabalhos, de um jeito
particular: ora as peças que estão na galeria se alinham como se estivessem no
museu e vice-versa, articulando uma relação espacial quase que contínua, entre
os dois espaços arquitetônicos. Ao longo dos anos, o artista tem desenvolvido
obras que não se encerram em si mesmas, mas se desdobram, conectam e se
relacionam com outras, criando, assim, camadas simbólicas em sua linguagem artística.
“A apresentação desse conjunto em um museu universitário é particularmente significativa.
Ela reafirma o papel dessas instituições como espaços de pesquisa,
experimentação e formação crítica, capazes de acolher práticas que investigam a
própria arte. Ao longo da exposição, uma série de conversas, encontros e
ativações mediadas será realizada como parte das atividades extensionistas da
universidade, ampliando o contato do público com os processos e questões que
estruturam o trabalho de Nelson Felix”, finaliza a curadora Fernanda Pitta.
Sobre Nelson Felix
Escultor e desenhista, Nelson Felix iniciou sua formação com Ivan Serpa, em 1971. Em 1980, realizou a sua primeira exposição individual, na qual expôs uma série de aquarelas. Seu trabalho se define em 1986, quando produziu a peça intitulada Grafite, que se posiciona por uma relação cósmica – o eixo do sol. Já no espaço arquitetônico expositivo, se mostra evidentemente torta, ou seja, é o espaço imediato que se encontra desalinhado. Esta peça o levou a pensar e criar amálgamas de espaços, desenvolvendo uma série de relações de linhas pelo globo terrestre. Como um único trabalho desenvolvido durante três décadas, intitulado Berceuse. Para expor as inter-relações da sua obra, Nelson Felix escolheu desenhar um livro homônimo publicado em 2021 pela editora Martina Fontes.
Entre as individuais que realizou, destacam-se: Carta de amor, Millan, São Paulo, Brasil (2022); Trilha para 2 lugares, MAM Rio, Rio de Janeiro, Brasil (2017); OOCO, Pinacoteca de São Paulo, Brasil (2015); Cavalariças, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (2011); Camiri, Museu da Vale, Vitória, Brasil (2006). Fez parte da 33 e da 23 Bienal de São Paulo, Brasil (2018 e 1996). Participou também de diversas exposições coletivas, entre elas: Fullgás - artes visuais e anos 1980 no Brasil, CCBB (2025); Osso, Instituto Tomie Ohtake, São Paulo, Brasil (2017); 6ª Bienal de Curitiba, Brasil (2011) Paper Trail: 15 Brasilian Artists, Allsopp Contemporary, Londres, Inglaterra (2008); além das realizadas no Museu de Arte Contemporânea de Niterói, Brasil (2005); e no MAM São Paulo, Brasil (2004).
Seu trabalho integra importantes coleções institucionais,
incluindo: Pinacoteca de São Paulo, Brasil; MAM São Paulo, Brasil; MAM Rio, Rio
de Janeiro, Brasil Museu de Arte Contemporânea de Niteról, Brasil; Nynex
Corporation, Nova York, Estados Unidos; Coleção Banco Itaú, Brasil, Recebeu
prêmios ao longo de sua carreira, como Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio
Vilaça pelo conjunto da obra, Ministério da Cultura/Funarte (2006); residência
artística, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Brasil (2002); residência
artística, Curtin University, Perth, Austrália (1994); e Prêmio Sol de Prata
pelo video OOCO, 22º Festival Internacional de Cinema, TV e Video de
Clermond-Ferrand, França (1994).
Serviço
Nelson Felix: Beijo de Lingua
30 de maio a 20 de setembro de 2026
Abertura: 30 de maio às 11h
Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo
– MAC USP
Av. Pedro Álvares Cabral,1301, Vila Mariana - São Paulo -
SP, Brasil

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