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sexta-feira, 22 de maio de 2026

Entre memória e afeto, mostra “Para falar de amor” ocupa quatro andares de prédio histórico na capital paulista



Exposição propõe experiências sensoriais no edifício que abriga o Espaço Kura com visitação até 7 de junho

 

O público que atravessa as portas do Edifício Cotonifício, no Largo do Paissandu, agora sede do Espaço Kura, encontra uma exposição que se desdobra em quatro andares e se organiza como um campo de experiências. Aberta de sexta a domingo, das 13h às 19h, até 7 de junho, a segunda edição da mostra “Para falar de amor” articula obras, instalações e intervenções em um prédio em transformação. A classificação é livre, com ingressos disponíveis online e entrada gratuita às sextas-feiras, das 13h às 15h, conforme a capacidade.

Com curadoria de Saulo di Tarso e Kauê Fuoco, idealizador da plataforma Kura, a exposição reúne cerca de 50 artistas, com trabalhos desenvolvidos especialmente para o espaço, e apresenta um recorte da arte urbana contemporânea. A proposta se estrutura a partir de um eixo que atravessa tanto a memória da arte urbana quanto a construção de novas formas de relação. “O cerne da exposição encontra duas vertentes. Número um, um abraço histórico, dado pelo Jaime Prades e pelo Guto Lacaz”, afirma Saulo.

Artista brasileiro nascido na Espanha em 1958, Jaime Prades integrou, nos anos 1980, o coletivo Tupinãodá, referência nas ações artísticas em espaços públicos urbanos. Já Guto Lacaz é um artista multimídia cuja produção atravessa desenho, ilustração, design, cenografia e projetos gráficos. “O Guto se destaca como um artista pioneiro da cidade lúdica e da questão do Arte Cidade, que é um evento que a cidade esqueceu”, completa o curador.

A retomada proposta pela mostra não se baseia na nostalgia, mas no deslocamento. “Assim como eu tento fazer uma conexão para memória dos artistas, aqui eu estou entregando uma conexão para quem passa”, diz. “O que tem de diferente do passado para agora é que aqui a gente está ressignificando relações, e não só a relação das pessoas com a cidade, mas as relações entre si”, explica Saulo.

Ao longo dos andares, essa dimensão relacional se afirma como matéria da exposição. O curador explica que “Para falar de amor” foi concebida inicialmente para vencer a polaridade política, mas que agora enfrenta um novo desafio. “Uma vez que a polaridade começa a ser vencida, onde a nossa capacidade pode nos levar? Aqui, não queremos colocar a sujeira para debaixo do tapete. Queremos lidar com isso frontalmente e buscar soluções”, ressalta como uma das provocações da mostra para o público. “Acho que existem artes que a sociedade contemporânea ainda não identificou, e a arte das reações é uma delas”, completa.


Matéria viva

A ideia de arte como processo, e não como produto, aparece de forma direta nas obras. No espaço do artista Felipe Yung, conhecido como Flip, a trajetória se organiza em objetos mínimos. “Eu trouxe o meu espaço para cá para mostrar trabalhos que já estão prontos e outros que estão no processo”, diz. “Aqui, tem bicos que eu nunca usei, que são do passado”, comenta em referência a uma peça, em formato de caixa em acrílico, que reúne diferentes tipos de bicos de spray acumulados ao longo dos anos. “Tem bicos de latas que carregam toda a minha caminhada e todas as minhas memórias”, afirma. “Quando eu fui falar disso, fiquei muito emotivo com o que eu faço das memórias. Isso aqui é a síntese total do meu trabalho”, pontua.

Com mais de 30 anos de trajetória iniciada no graffiti, Flip constrói uma produção que atravessa muralismo, pintura e escultura, mantendo a rua como campo contínuo de experimentação.

No trabalho de Alexandre Vianna, a experiência se expande para o campo sensorial. “Minha pesquisa é sobre campo vibracional de alta frequência”, afirma. “Eu pesquiso como os sons influenciam no corpo sutil das pessoas”, explica. As imagens que compõem suas obras partem de fotografias sobrepostas. “Eu comecei a fazer trabalhos em camadas porque eu queria emular o campo energético e vibracional que a pessoa estava inserida quando eu fotografei ela”, diz. “Essas camadas são os sons”, complementa.

No edifício, ele apresenta uma escultura que integra diferentes dimensões. “Essa escultura é, pela primeira vez, visual, sonora e tátil. É uma obra sensorial total, onde eu coloco o som de alta frequência e a pessoa dentro da própria obra. Esses sons, para mim, são de cura”, completa.

Entre os artistas participantes está também Alex Senna, que apresenta um trabalho que mergulha na ideia de amor próprio, atravessado por sentimentos como melancolia e nostalgia. No espaço, ele criou um mural que dialoga diretamente com a arquitetura do ambiente e traz uma figura rodeada por pombas e outros elementos. A instalação se desdobra em uma relação entre personagem e sombra, sugerindo um encontro íntimo consigo mesmo. “A obra chama a atenção para o amor próprio, uma vez que a personagem está encostando na parede, tendo uma relação com a própria sombra”, explica. A participação também carrega um significado pessoal. “Eu frequentava muito esse lugar quando tinha 14 anos. Fazer parte agora é um sentimento que me leva para a adolescência”, comenta.


Olhar e presença

A fotografia atravessa a exposição como um eixo transversal, especialmente no trabalho de Vivian Bera. “Participar dessa exposição tem sido uma experiência muito feliz, profunda. O meu trabalho nasce muito da observação das relações humanas, da paisagem, da memória”, diz. Para a artista, a imagem funciona como deslocamento afetivo. Ela ressalta que a fotografia é uma forma de amor, uma vez que, através dela, é possível entregar todo o amor que ela vê e sente do mundo.

Sua produção, que inclui séries realizadas na América Latina, como manifestações culturais no Peru, parte de um interesse pelo que é íntimo e, ao mesmo tempo, compartilhável. “Sempre me interessou fotografar tudo aquilo que é mais sensível e que, ao mesmo tempo, é universal”, afirma. “A fotografia é um transporte afetivo”, pontua.

O curador Saulo di Tarso reforça a singularidade desse olhar. “Quando ela retrata alguém, ela cria um retrato espectral dessa pessoa”, diz. “Quando as pessoas estão diante da lente dela, elas entregam os olhos, e você vê isso na foto”, observa.

Esse deslocamento também se manifesta na instalação da artista Fernanda Romão, concebida como um labirinto. “É um espaço para as pessoas virem para o mundo”, explica Saulo. “Você sai de uma perspectiva do céu para as janelas da cidade, para um céu que se limita por uma urbanidade onde respeita ser livre”, diz.

Ao ocupar integralmente o edifício, a mostra constrói uma experiência em que o visitante transita entre linguagens, escalas e estados de percepção. Em vez de um discurso único, apresenta um conjunto de investigações abertas sobre memória, corpo, cidade e vínculo.

“Aqui é um encontro de ativações. Para falar de amor pode acontecer sempre, em qualquer lugar, de toda maneira, e o Kura é uma forma de lidar com a cidade que ressignifica os lugares. É construir junto com o que existe e com quem está ali”, sintetiza Kauê Fuoco, curador e idealizador do espaço.


Serviço – Segunda edição da Mostra “Para falar de Amor”

Local: Edifício Cotonifício (Espaço Kura) – Avenida São João, 354, Largo do Paissandu
Período: Até 7 de junho
Visitação: Sexta a domingo, das 13h às 19h
Entrada: Gratuita às sextas-feiras, das 13h às 15h (sujeita à capacidade); demais dias, consultar bilheteria
Classificação: Livre
Ingressos:
Ingressos disponíveis aqui 


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