Abril é
um mês que convida à reflexão sobre saúde, mas também sobre a desigualdade
racial que ainda define quem adoece e quem morre no Brasil. Ao longo do mês,
datas importantes chamam a atenção para temas que impactam milhões de pessoas e
evidenciam que o direito à saúde ainda não se concretiza de forma igual para
todos.
O Dia
Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, reafirma um princípio essencial:
todas as pessoas têm direito à saúde e à dignidade. Na prática, porém, esse
direito ainda encontra barreiras quando observamos as condições de vida de
diferentes grupos sociais e raciais, reforçando a necessidade de políticas
públicas capazes de enfrentar desigualdades históricas.
Outra data
marcante é o Dia Mundial da Luta contra o Câncer, lembrado em 8 de abril.
Estimativas da Organização Mundial da Saúde indicam que, até 2030, o mundo
poderá registrar cerca de 27 milhões de novos casos da doença, com
aproximadamente 17 milhões de mortes anuais. Esses números reforçam a
importância da prevenção e do acesso oportuno ao diagnóstico e ao tratamento.
Mas o
que essas datas têm em comum? Tudo, quando analisadas sob a ótica da
desigualdade racial.
Não
existe saúde sem prevenção – e não existe prevenção sem acesso a condições
básicas, como alimentação adequada, informação e serviços de saúde de
qualidade. Quando esses recursos não chegam de forma equitativa, o adoecimento
deixa de ser apenas uma questão individual e passa a refletir desigualdades
estruturais.
Essas
desigualdades tornam-se evidentes quando observamos os dados sobre a saúde da
população negra no Brasil. Informações do Observatório das Desigualdades, em
parceria com o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), mostram que as
mortes por causas evitáveis são 41% maiores entre homens negros e 43% maiores
entre mulheres negras. Grande parte dessa estatística poderia ser revertida se
houvesse igualdade nas condições de acesso ao cuidado.
A
população negra também apresenta maior incidência e maior gravidade em doenças
crônicas, como hipertensão, diabetes e doenças renais. Esse cenário não está
relacionado a fatores genéticos, mas às condições de vida, à insegurança
alimentar e ao acesso limitado aos serviços de saúde. No caso do câncer, o
diagnóstico costuma ocorrer em estágios mais avançados, reduzindo as chances de
tratamento eficaz e aumentando a mortalidade.
Falar de saúde em abril, portanto, é também
falar de equidade racial. É reconhecer que o adoecimento e a mortalidade mais
elevados entre pessoas negras não são fruto do acaso, mas resultado de
desigualdades históricas que ainda limitam o acesso pleno ao direito à
saúde.
DANIELA TAFNER - Doutora em enfermagem e especialista em
saúde da população negra
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