Hidrocefalia em adultos pode afetar até
2% da população idosa e ainda é subdiagnosticada, alertam especialistas
Dificuldade de memória, alterações na marcha e episódios de
confusão mental costumam acender um alerta imediato para doenças como Alzheimer,
especialmente em idosos. No entanto, em alguns casos, esses sinais podem estar
relacionados a uma condição neurológica diferente, e potencialmente tratável: a
hidrocefalia de pressão normal.
Mais comum em pessoas acima dos 60 anos, a doença é caracterizada
pelo acúmulo de líquido cefalorraquidiano nos ventrículos cerebrais, levando à
compressão de estruturas importantes do cérebro. De acordo com estudos
publicados em periódicos como o Journal of Neurology, Neurosurgery &
Psychiatry e dados da Hydrocephalus Association, a hidrocefalia de pressão
normal pode afetar entre 1% e 2% da população idosa, embora muitos casos
permanecem sem diagnóstico adequado devido à semelhança com outras doenças
neurodegenerativas.
“O grande desafio é que os sintomas da hidrocefalia se confundem
com os de doenças como Alzheimer e Parkinson, o que pode levar a atrasos no
diagnóstico. A diferença é que, no caso da hidrocefalia, existe tratamento e
possibilidade real de melhora”, explica Dr.
Fernando Gomes, neurocirurgião da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia
(SBN).
Entre os principais sinais de alerta estão dificuldade para andar,
muitas vezes descrita como uma marcha lenta, arrastada ou instável, alterações
cognitivas, como perda de memória e dificuldade de concentração, e
incontinência urinária. Esse conjunto é conhecido como a “tríade clássica” da
doença.
“O paciente começa a ter dificuldade para caminhar, apresenta
lapsos de memória e, em alguns casos, perda do controle urinário. Esses
sintomas podem evoluir gradualmente, o que contribui para que sejam atribuídos
ao envelhecimento ou a outras doenças”, destaca o especialista.
Em relação ao perfil dos pacientes, estudos indicam que a condição
afeta homens e mulheres, com leve aumento de incidência com o avanço da idade,
especialmente após os 65 anos. O envelhecimento é o principal fator de risco, o
que reforça a necessidade de atenção em países com população cada vez mais
longeva.
Segundo projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística, o Brasil deverá ter mais de 30% da população com 60 anos ou mais
até 2050, cenário que pode ampliar o número de casos e a necessidade de
diagnóstico adequado.
O diagnóstico envolve avaliação clínica detalhada, exames de
imagem, como tomografia ou ressonância magnética, e testes específicos que
avaliam a resposta à retirada do líquido cefalorraquidiano. A partir dessa
investigação, é possível diferenciar a hidrocefalia de outras condições
neurológicas.
A principal forma de tratamento é cirúrgica, com a implantação de
uma válvula que drena o excesso de líquido do cérebro para outra parte do
corpo, geralmente o abdômen. Quando indicada corretamente, a intervenção pode
trazer melhora significativa, principalmente na marcha e na qualidade de vida
do paciente.
“O diagnóstico precoce faz toda a diferença. Em muitos casos, conseguimos
reverter ou melhorar significativamente os sintomas, o que não acontece em
doenças neurodegenerativas como o Alzheimer”, reforça o neurocirurgião.
Diante desse cenário, especialistas alertam que a hidrocefalia de
pressão normal deve ser considerada como diagnóstico diferencial em pacientes
com sintomas cognitivos e motores. “Reconhecer os sinais e encaminhar para
avaliação especializada pode mudar completamente a trajetória do paciente”,
conclui o médico.
Sociedade Brasileira de Neurocirurgia –SBN
Site: portalsbn.org
Instagram sbn.neurocirurgia
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