Com
a aproximação do Dia Mundial da Educação, celebrado em 28 de abril, torna-se
oportuno refletir sobre a formação de crianças e adolescentes para uma
interação responsável e segura com as telas. Afinal, infância e adolescência
nunca estiveram tão conectadas.
No
ambiente digital, jovens encontram oportunidades de aprendizado, convivência e
expressão. No entanto, esse mesmo espaço também amplia riscos e exige atenção
redobrada. Falar sobre o uso da internet na adolescência é, antes de tudo,
falar sobre cuidado.
Dados
recentes ajudam a dimensionar esse cenário. A pesquisa “120 dias depois do
viral do Felca: o retrato da Adultização no Brasil”, do Projeto Brief, revela
que 46% dos pais identificam em seus filhos sinais como ansiedade,
irritabilidade ou dificuldade de foco associados ao tempo excessivo diante das
telas. O estudo reforça a urgência de um olhar mais atento para os impactos do
ambiente digital no desenvolvimento de crianças e adolescentes.
Além de afetar a saúde mental e prejudicar o desenvolvimento cognitivo, o uso excessivo de telas também expõe meninas e meninos a riscos como cyberbullying, conteúdos impróprios para a idade, exploração sexual online e violação de dados pessoais. Esses desafios não são pontuais; fazem parte de um ecossistema digital que ainda carece de limites mais claros e de proteção efetiva.
Nesse contexto, o Estatuto da Criança e do Adolescente, o ECA, reafirma-se como
instrumento essencial para a proteção de direitos. Sua interpretação à luz das
transformações tecnológicas, na nova lei conhecida como ECA Digital, reforça
que o princípio do melhor interesse da criança deve orientar também o ambiente
virtual. Direitos como privacidade, dignidade e proteção contra violências precisam
ser garantidos em qualquer espaço, físico ou digital.
A
proteção, no entanto, não é responsabilidade de um único ator. Famílias, Estado
e empresas de tecnologia compartilham esse dever. Às famílias cabe o diálogo
constante, a presença e a orientação para o uso consciente das telas; ao
Estado, a criação e aplicação de políticas públicas e marcos regulatórios que
assegurem ambientes mais seguros; e às empresas, o compromisso com conteúdos
adequados à faixa etária, transparência e o desenvolvimento de ferramentas que
previnam abusos e facilitem denúncias.
O
maior desafio está em articular essa corresponsabilidade. Ainda enfrentamos
baixos níveis de alfabetização midiática, resistências à regulação das
plataformas e profundas desigualdades no acesso a uma internet segura. Superar
essas barreiras é fundamental para avançar.
Experiências
de organizações sociais que atuam diretamente na proteção de crianças e
adolescentes mostram que a prevenção é o caminho mais eficaz. Estabelecer
limites para o tempo de tela, orientar para o uso crítico da internet e
fortalecer vínculos de confiança são medidas que fazem diferença concreta.
Trata-se menos de controlar e mais de educar e preparar meninas e meninos para
navegar com autonomia e segurança.
Garantir
um ambiente digital mais saudável passa, necessariamente, por investir em
educação midiática, fortalecer redes de proteção, incentivar o desenvolvimento
de tecnologias responsáveis e ampliar o acesso a apoio psicológico para vítimas
de violências online.
O
ambiente digital consolidou-se como parte inseparável da vida contemporânea.
Diante disso, cabe à sociedade garantir que esse espaço seja seguro e
protegido, favorecendo o desenvolvimento pleno de crianças e adolescentes.
Nesse contexto, assegurar a proteção dessa população também no meio digital
configura-se como um compromisso coletivo inadiável.
Roucheli Tavares - psicóloga pós-graduada, especialista
em estratégias de enfrentamento à violência e em direitos humanos, e atua como
Ponto Focal Nacional de Salvaguarda de Participantes na Aldeias Infantis SOS.
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