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quarta-feira, 22 de abril de 2026

Portugal descumpre lei ao "congelar" 700 mil pedidos de cidadania; brasileiros denunciam colapso administrativo


O sonho da cidadania europeia transformou-se em um pesadelo burocrático para milhares de brasileiros. O Estado português acumula hoje um passivo recorde de 700 mil processos de nacionalidade pendentes, resultando em esperas que superam os quatro anos. O dado alarmante, revelado por um levantamento interno da Martins Castro, consultoria jurídica para mobilidade internacional, aponta para uma paralisia estrutural: em uma década, o número de pedidos quadruplicou, mas o quadro de conservadores especialistas para analisá-los permaneceu estagnado. 

Em entrevista, a jurista Isabel Comte, especialista com 20 anos de experiência no Ministério da Justiça de Portugal, afirma que o cenário atual configura uma violação direta do Código de Procedimento Administrativo. “O Estado tem o dever jurídico de se organizar para cumprir prazos. Não se pode penalizar o cidadão pela má gestão pública”, destaca Comte. Ela é uma das mentoras de uma petição pública dirigida ao Parlamento que exige transparência e o cumprimento do prazo legal de 90 dias úteis para decisões. 

Gráfico elaborado pela Martins Castro indica o crescimento de pedidos de nacionalidade
 e o acúmulo de processos, gerando atrasos nas análises pelas conservatórias portuguesas (Fonte: 
Link)

A "Matemática do Colapso" 

Documentos obtidos pela Martins Castro revelam que, em 2016, a Conservatória de Registos Centrais operava com cerca de 15 a 17 conservadores efetivos. Em 2026, apesar da fila ter saltado para quase um milhão de pessoas (considerando novos fluxos), o número de decisores pouco mudou devido a aposentadorias e falta de novos concursos ao longo dos anos. Embora o governo tenha anunciado o reforço de cerca de 100 novos conservadores em 2025, a previsão é que eles só estejam plenamente aptos para decidir processos no final de 2026 e não há garantias de que todos eles devem atuar na mesma função, podendo ser distribuídos para outros serviços.

 

Pressão e Mudanças na Lei 

O cenário é agravado pela recente "corrida aos guichês" motivada por propostas de endurecimento da Lei da Nacionalidade, que visam aumentar o tempo de residência exigido de 5 para 10 anos. "As pessoas estão assustadas e tentam garantir seus direitos sob a lei atual, o que gerou um novo pico de afluência e forçou o fechamento temporário de balcões estratégicos, como o do Porto", explica Renato Martins, CEO da Martins Castro.
 

A atuação da Martins Castro nesse cenário também ganhou espaço no contencioso administrativo, com decisões favoráveis em tribunais portugueses que vêm reafirmando a obrigação do Estado de decidir em prazo útil e de não transferir ao cidadão o custo da própria morosidade. Em um dos casos analisados nos autos, a Justiça determinou a conclusão do processo em 30 dias úteis; em outro, o parecer do Ministério Público apontou que um pedido apresentado em 14 de março de 2024 já havia extrapolado, em 26 de julho, o prazo legal de 90 dias úteis para decisão. Esses precedentes reforçam uma linha de atuação que tem levado o Judiciário a impor ritmo ao Estado português quando a inércia administrativa ameaça esvaziar direitos já preenchidos.
 


Martins Castro
Com sede em Lisboa, Portugal, presta consultoria jurídica especializada em mobilidade internacional para indivíduos e empresas interessados em estabelecer-se na Europa.


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