Doutora em Políticas Públicas e professora da Universidade
Estadual de Goiás, Carla Conti reflete sobre o papel ético das universidades na
formação de professores e na construção de um projeto educacional comprometido
com justiça social, direitos humanos e transdisciplinaridade
A universidade é, historicamente, a casa do conhecimento. É
nela que se formam profissionais de todas as áreas e onde se outorgam diplomas
que autorizam a atuação no mundo. Mas esse gesto formal carrega uma
responsabilidade que vai muito além da formação técnico-científica. Em um
cenário marcado por crises ambientais, desigualdades sociais persistentes e
pelo esgarçamento das relações humanas, torna-se urgente perguntar: que tipo de
mundo estamos ajudando a construir a partir da universidade?
Cada profissional formado impacta pessoas, territórios, culturas e ecossistemas. A atuação profissional, portanto, não se sustenta apenas em conteúdos disciplinares. Ela é atravessada por valores, saberes construídos ao longo da vida e escolhas éticas que se refletem diretamente nas formas de viver, produzir e se relacionar. Nesse sentido, o compromisso com a sustentabilidade não pode ser periférico, nem restrito a ações pontuais ou disciplinas isoladas. Ele precisa atravessar todas as áreas do conhecimento e orientar a formação humana.
Parto de uma experiência pedagógica desenvolvida no curso de Letras, na qual a sustentabilidade da vida foi tomada como eixo unificador dos trabalhos de conclusão de curso. Relatos de estágio, planos de aula e projetos transdisciplinares revelam que é possível formar professores de língua portuguesa, literatura e inglês capazes de integrar, de forma crítica, temas como direitos humanos, valores humanos e consciência planetária em suas práticas pedagógicas.
Uma mudança efetiva de paradigma só se torna possível quando o conhecimento passa a ser compreendido como instrumento de enfrentamento das desigualdades. Garantir condições mínimas de vida precisa ser um objetivo central da formação universitária e, consequentemente, compor os currículos de todos os cursos. Isso exige uma formação que vá além da técnica, incorporando dimensões éticas, sociais e culturais como fundamentos da atuação profissional.
Na formação de professores, esse desafio é ainda mais evidente. O foco excessivo no desenvolvimento teórico e didático-pedagógico, aliado à uniformização das práticas, muitas vezes inviabiliza uma formação crítica do ponto de vista da sustentabilidade. A valorização de diferentes saberes (acadêmicos, comunitários, territoriais) é condição indispensável para a construção de comunidades mais saudáveis e conscientes de seu papel no mundo. Pensar de forma transdisciplinar é um exercício que se aprende na experiência, na abertura ao desconhecido e no respeito às diferenças.
A sustentabilidade, nesse sentido, não pode ser relacionada
a uma dimensão ambiental ou econômica apenas. Trata-se de um modo de
vida, profundamente cultural, que orienta escolhas individuais
e coletivas e que possibilita a preservação e o aprimoramento das condições de
vida ao longo do tempo. A fragmentação desse conceito enfraquece sua potência
transformadora e limita sua atuação na construção de sociedades mais justas.
Minha trajetória como professora e pesquisadora na Universidade Estadual de Goiás reforça essa compreensão. Olhar para fora, para o outro, para o diferente, para o mundo que nos constitui é o que permite que práticas pedagógicas sejam orientadas pela defesa da vida e da dignidade humana. Projetos de extensão, pesquisas e ações formativas voltadas às demandas reais das comunidades demonstram que sustentabilidade e transdisciplinaridade não são abstrações, mas práticas possíveis e necessárias.
Não por acaso, meu livro dialoga com documentos como a Carta da
Terra, a Carta da Ecopedagogia e a Carta da
Transdisciplinaridade, que reafirmam a necessidade de uma
educação comprometida com os direitos humanos e com a formação de cidadãos com
consciência local e planetária. Esses documentos coletivos ampliam vozes,
conectam experiências e fortalecem princípios éticos que orientam práticas
educacionais transformadoras.
Formar cidadãos com consciência local e planetária significa reconhecer que não aprendemos apenas em livros ou salas de aula. Aprendemos nas relações, no conhecimento do território, de sua história, de suas limitações e potencialidades. Desenvolver essa consciência é compreender que as escolhas feitas em um lugar impactam vidas em outros, seja na migração, na exploração de recursos naturais ou nas desigualdades globais.
A educação, sozinha, não é capaz de reverter modelos
econômicos e sociais predatórios. Mas pode insistir em uma perspectiva crítica,
questionadora e comprometida com a vida. Pode formar sujeitos capazes de fazer
escolhas mais conscientes e de atuar na construção de um futuro menos desigual.
Às instituições de ensino superior, fica a convocação: reforcem
seus princípios de formação a serviço da humanidade. Todas as
áreas do conhecimento podem e devem contribuir para um desenvolvimento que não
sacrifique a vida em nome do progresso. Educar com consciência planetária não é
uma opção. É um compromisso ético com o presente e com o futuro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário