Com orçamentos mais enxutos, alta rotatividade e um mercado de trabalho em constante transformação, empresas brasileiras recorrem cada vez mais ao quiet hiring — estratégia que prioriza a realocação interna de talentos em vez da abertura de novos processos seletivos externos.
A prática, consolidada em mercados como os Estados Unidos, começa
a ganhar força no Brasil como alternativa para manter a produtividade sem
aumentar os custos fixos. A análise é de Thomas Costa, porta-voz do Pandapé, software de RH mais utilizado na
América Latina.
"Quiet hiring não é só uma tendência, é uma necessidade.
Diante dos desafios econômicos, da instabilidade e da escassez de mão de obra
qualificada, olhar para dentro da empresa tornou-se uma das soluções mais
inteligentes e sustentáveis", afirma Costa.
Segundo ele, essa estratégia consiste em suprir lacunas de
habilidades, funções críticas ou demandas de novos projetos por meio da
mobilidade interna — seja por promoções, movimentações laterais ou designações
temporárias.
"Diferente dos processos tradicionais, o quiet hiring não
envolve abrir vagas no mercado. O foco está em redistribuir, desenvolver e
capacitar quem já faz parte do time", explica Costa.
Por
que essa prática virou tendência?
O avanço do quiet hiring está diretamente relacionado às recentes
mudanças recentes no comportamento do mercado de trabalho. Dados do Cadastro
Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que, só em janeiro de 2025,
37,9% dos desligamentos no país foram por pedido voluntário, o maior índice
para o mês desde o início da série histórica.
"Os profissionais estão cada vez mais exigentes em relação ao
desenvolvimento de carreira. Ao mesmo tempo, as empresas enfrentam limitações
orçamentárias. O quiet hiring surge como um ponto de equilíbrio: oferece
crescimento interno sem a necessidade de novas contratações", observa
Costa.
Além das promoções, a prática pode incluir:
- Mudanças temporárias de função para cobrir férias, licenças
ou liderar projetos específicos;
- Movimentações laterais focadas no desenvolvimento e ampliação
de repertório;
- Participação em squads ou comitês interdisciplinares, onde
colaboradores atuam além de suas funções habituais;
- Promoções definitivas, quando há alinhamento de perfil e
necessidade.
"O foco está menos no cargo e mais nas competências e no
desenvolvimento contínuo do profissional", resume.
Entre os principais ganhos do quiet hiring estão a redução
de custos, já que evita os gastos tradicionais com recrutamento, contratação e
integração de novos colaboradores, e também a agilidade, pois quem já conhece o
negócio se adapta mais rápido aos novos desafios.
A prática ainda contribui para a retenção de talentos ao oferecer
oportunidades reais de crescimento interno, o que reduz o risco de perda para o
mercado. Além disso, fortalece a cultura organizacional, valoriza quem já está
na casa e aumenta o senso de pertencimento.
Por fim, impulsiona o desenvolvimento contínuo por meio de
iniciativas de reskilling e upskilling, preparando os times para
os desafios do presente e do futuro.
E não são apenas as empresas que saem ganhando. "Para o
colaborador, o quiet hiring é uma oportunidade de se desenvolver, ganhar
visibilidade, assumir novos desafios e construir uma carreira mais robusta,
muitas vezes sem precisar mudar de empresa", destaca Costa.
Cuidados
e riscos
Apesar dos benefícios, Thomas Costa alerta que, se mal conduzido,
o quiet hiring pode gerar efeitos colaterais como sobrecarga, desmotivação e
até riscos trabalhistas.
"É fundamental que o RH e os gestores conduzam esse processo com
clareza, alinhando expectativas, oferecendo suporte e garantindo que não haja
acúmulo de funções sem a devida compensação, seja financeira, em benefícios ou
em desenvolvimento", explica.
Também é essencial respeitar a legislação trabalhista. Mudanças permanentes
no escopo, carga horária ou nível de responsabilidade devem ser formalizadas
para evitar riscos jurídicos.
"O quiet hiring não pode ser visto como uma forma de
economizar às custas do bem-estar dos colaboradores. Ele só funciona quando faz
parte de uma estratégia estruturada de gestão de pessoas", afirma.
Como
implementar de forma segura?
Thomas destaca sete passos essenciais para que o quiet hiring
aconteça de forma responsável e eficiente:
- Seja transparente de verdade: explique o motivo da movimentação e os benefícios esperados —
para o negócio e para o colaborador;
- Mapeie talentos com dados: use avaliações de desempenho, feedbacks e perfis
comportamentais para identificar quem pode assumir novas funções;
- Defina critérios claros e comunicáveis: evite decisões subjetivas. Tenha regras simples para
movimentações e compartilhe com o time;
- Cuidado com a sobrecarga: antes de mover alguém, avalie sua rotina atual. Delegue
tarefas antigas ou reorganize prioridades;
- Formalize mudanças quando necessário: mudanças permanentes ou com impacto salarial devem ser
oficializadas no contrato;
- Ofereça suporte real: prepare a pessoa
para o novo desafio com treinamento, mentorias e metas claras de evolução;
- Faça check-ins constantes: acompanhe de perto a adaptação. Ouça feedbacks e ajuste o
plano, se necessário.
Para Thomas Costa, o quiet hiring reflete uma mudança profunda na
forma como as organizações encaram sua força de trabalho. "Num mundo onde
o talento é escasso e a busca por eficiência é constante, investir em quem já
está na empresa não é só uma escolha econômica. É uma decisão estratégica,
sustentável e, sobretudo, humana", conclui.
Nenhum comentário:
Postar um comentário