‘Na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate’ (Isaac Asimov)
A invasão russa na Ucrânia já
completou quase oito meses, com consequências devastadoras para este país e sua
população. Além desse cenário desolador de destruição de várias de suas cidades
e da crise humanitária que se instalou, com imigração em massa para os países
limítrofes, esse conflito reacendeu um temor desconhecido para aqueles que não
viveram o período da Guerra Fria: uma guerra nuclear entre Estados Unidos e a
União Soviética.
Apesar desse cenário ser
considerado improvável por muitos, existe a preocupação de que Putin,
sentindo-se acuado pela impossibilidade de conquistar a capital e as principais
cidades ucranianas, e premido pelas sanções econômicas crescentes impostas pelo
Ocidente, possa lançar mão de seu arsenal atômico, que seria, até onde se sabe,
o maior do mundo.
Especificamente, alguns
analistas pensam que a Rússia poderia fazer uso das chamadas bombas táticas,
com poder de destruição circunscrito a uma área relativamente pequena, mas
capaz de deflagrar uma retaliação em termos nucleares por parte dos países da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), principalmente Estados Unidos
e Inglaterra. Esse cenário apocalíptico seria possível? O que pode nos dizer a
teoria econômica sobre isso?
Existe uma modelagem matemática
aplicada na economia, entre outras ciências, chamada teoria dos jogos, que foi
utilizada por um famoso economista norte-americano, Thomas Schelling, ganhador
do Prêmio Nobel de 2005, que lança algumas luzes para tentar responder à
pergunta anterior. Do que trata essa abordagem? O “jogo”, no caso, se refere a
uma interação entre pessoas, empresas, exércitos ou países, cujo resultado
dependerá das ações, reações e contrarreações de todos os envolvidos.
Para exemplificar, conta-se que
na Copa do Mundo de 1958, o técnico da seleção brasileira, Aymoré Moreira,
teria dado as instruções para o lendário Garrincha sobre o que fazer no jogo
que seria realizado, coincidentemente, contra a União Soviética. Ao final, ao
perguntar ao jogador se ele havia entendido, este teria respondido: “entendi,
mas você já combinou com os russos?”. É exatamente disso que se trata a teoria
dos jogos: o resultado da interação não somente depende de nossas ações, mas
também de como reagirão aqueles afetados por elas.
Em 1960, Schelling escreveu sua
obra mais famosa: “A Estratégia do Conflito”, assumindo que os países
participantes de um conflito seriam racionais do ponto de vista econômico, ou seja,
prefeririam a “jogada” (estratégia) que lhes conferissem maior benefício e
menor custo. Desse ponto de vista, nem a Rússia nem os países ocidentais
desejariam iniciar uma guerra nuclear, pois seria um caso de “destruição mútua
assegurada”, provocando custos imensos para ambas partes.
Contudo, a análise prossegue de
forma bem mais complexa, pois, na vida real, nenhuma das partes possui
informação completa sobre a capacidade bélica e a propensão à guerra da outra.
Sendo assim, os custos relativos para cada uma das partes envolvidas, na
prática, são desconhecidos.
Nesse contexto, a teoria prevê
que as ameaças tanto da Rússia utilizar seu arsenal nuclear, como da própria
OTAN retaliar também utilizando armas atômicas, devem ser críveis. Qualquer
ameaça que imponha custos demasiado elevados para o “jogador” que as faça não
convencerá a outra parte de que tudo não passa de um blefe de pôquer, sendo,
portanto, totalmente incapaz de alcançar qualquer tipo de concessão.
Em outras palavras, a ameaça de
Putin utilizar armas nucleares, ao trazer consequências catastróficas para seu
país, no evento de uma retaliação atômica por parte de Estados Unidos e
Inglaterra, principalmente, poderia ser totalmente vã.
Se a conclusão anterior for
verdadeira, então por que se diz que a chance de guerra nuclear nunca foi tão
elevada desde a crise dos mísseis de Cuba em 1962, quando a ex-União Soviética
colocou mísseis balísticos nucleares apontados para os Estados Unidos?
Porque mesmo no contexto de
“destruição mútua assegurada”, não se trata de uma decisão isolada de Biden ou
Putin, havendo toda uma complexa cadeia de mando e decisão, que a teoria dos
jogos poderia modelar, sem que possamos saber a priori os resultados. Essa
situação é chamada de “diplomacia arriscada”. Nesse sentido, um erro, um alarme
falso ou uma atitude temerária, tomada mesmo à revelia de Moscou ou Washington,
poderia deflagrar um conflito nuclear.
A economia, utilizando de forma
aplicada os modelos matemáticos originados na teoria dos jogos, poderia,
inclusive, sob certas hipóteses, estimar a chance (probabilidade) de ocorrência
de uma guerra nuclear entre as superpotências, se a situação sair fora do
controle de Putin ou Biden.
Embora a estimação dessa
probabilidade seja ainda mais difícil que prever o clima ou a taxa de câmbio, a
teoria dos jogos nos alerta que esta aumentaria quanto mais durar o conflito na
Ucrânia. Por isso, o recomendável seria acelerar as negociações de paz entre
russos e ucranianos, pondo fim à perigosa “diplomacia ariscada”, cujas
consequências podem ser imprevisíveis e até catastróficas.
Fonte: https://dcomercio.com.br/publicacao/s/o-que-diz-a-economia-sobre-a-chance-de-uma-guerra-nuclear-na-ucrania

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