A insuficiência cardíaca deixou de ser
apenas um desafio da prática clínica e passou a figurar entre os principais
problemas estruturais do sistema de saúde brasileiro. No país, dados nacionais
sobre hospitalizações e mortalidade indicam que a prevalência autorreferida
atinge 1,1% da população adulta e chega a 3,3% entre indivíduos acima de 60
anos. O problema central, no entanto, vai além da magnitude epidemiológica:
está na forma como um sistema fragmentado e pouco coordenado lida com uma
condição crônica, progressiva e previsível.
O cenário atual expõe um modelo
assistencial pouco eficiente. A insuficiência cardíaca é a principal causa de
hospitalização por doenças cardiovasculares no Brasil, gerando um custo de R$
1,4 bilhão em internações para o Sistema Único de Saúde (SUS) em um intervalo
recente de quatro anos. Além disso, análises econômicas amplamente divulgadas
na imprensa apontam uma perda anual estimada de R$ 6 bilhões para a economia
nacional. Esse montante não representa investimento em cuidado qualificado, mas
o custo do desperdício.
A
torneira aberta do desperdício
A raiz desse colapso financeiro e clínico
está na ausência de uma linha de cuidado estruturada e contínua. Com
frequência, o paciente com insuficiência cardíaca é conduzido por um ciclo
recorrente de descompensações e atendimentos de resgate. O pronto-socorro acaba
se tornando o principal e mais oneroso ponto de contato com o sistema, com foco
no evento agudo e pouca garantia de acompanhamento após a alta.
A consequência direta dessa abordagem é o
aumento da morbimortalidade e das reinternações. Sem acompanhamento
multidisciplinar e coordenação de cuidado adequados, o paciente retorna ao
sistema em condições progressivamente mais graves. Quando o quadro se agrava, o
desfecho costuma ser a internação em unidade de terapia intensiva (UTI), onde o
custo diário é exponencialmente maior.
São gastos recorrentes, sem rotina e sem
continuidade. Trata-se de um modelo que trata sintomas e sinais de forma
pontual, sem enfrentar a doença de maneira estruturada.
Esse custo sem resultado está no centro da
insustentabilidade do sistema. O problema não é a ausência de prontuário
integrado, mas a dificuldade de assumir responsabilidades, romper com a inércia
e buscar soluções efetivas. O “querer” e o “fazer” ainda são verbos pouco
explorados na medicina complexa, muitas vezes limitados pelo receio jurídico,
pela alta demanda assistencial ou pela baixa remuneração frente ao esforço
exigido.
Valor
em saúde: a unificação do cuidado
A superação desse cenário não depende de
soluções isoladas, mas da organização do cuidado em linhas assistenciais
coerentes e centradas no paciente. O foco precisa migrar do órgão doente para o
indivíduo, considerando suas múltiplas necessidades clínicas e o papel ativo do
paciente no próprio tratamento.
Esse é o princípio do valor em saúde:
entregar resultados que importam ao paciente, utilizando os recursos de forma
racional. A coordenação do cuidado, por meio de equipes multiprofissionais
integradas e alinhadas, é um dos mecanismos mais consistentes para reduzir
desperdícios e melhorar resultados clínicos.
Quando o cuidado é coordenado, o
investimento se torna mais eficiente. É nesse ponto que a ironia do sistema se
revela: enquanto ainda há hesitação em investir em soluções de alto valor, o
custo do manejo clínico paliativo de pacientes elegíveis se transforma em uma
carga financeira pouco visível, porém significativa, como apontam análises
sobre o custo do manejo clínico da insuficiência cardíaca avançada publicadas
nos Arquivos Brasileiros de Cardiologia.
A ciência, no entanto, é clara. Evidências
brasileiras de avaliação econômica publicadas nesse mesmo periódico indicam uma
relação favorável de custo-efetividade da oxigenação por membrana extracorpórea
(ECMO) no choque cardiogênico refratário, inclusive no contexto do SUS, de
acordo com parâmetros utilizados em avaliações de tecnologias em saúde.
Mais impressionante ainda é o HeartMate 3,
o chamado “coração artificial”, uma tecnologia de ponta que devolve vida e
sobrevida a pacientes com disfunção severa do ventrículo esquerdo. Seus
resultados de sobrevida nos primeiros cinco anos pós-implante são comparáveis
aos do transplante cardíaco, conforme demonstrado em análises publicadas na
literatura internacional. Não à toa, o dispositivo foi recentemente incluído no
Rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para pacientes inelegíveis
ao transplante, um reconhecimento tardio, mas crucial, de que o investimento em
intervenções de alto valor, quando coordenadas, supera o desperdício crônico da
inação.
A coordenação do cuidado é a chave para que
todos tenham a chance de acessar a terapia certa, no momento certo,
transformando o gasto em investimento com resultado. É o único caminho para
estancar a sangria financeira e, mais importante, para resgatar a dignidade e a
sobrevida dos pacientes com insuficiência cardíaca.
O desafio está lançado. A solução exige coragem, organização e, acima de tudo, disposição para transformar intenção em ação.
Marina Fantini - especialista em insuficiência cardíaca e cofundadora da CardioWays, hub de cardiologistas criado para ampliar o acesso a tecnologias avançadas e ao cuidado integrado da saúde do coração no Brasil.





