O
crescimento dos feminicídios no Brasil em 2025, com quatro mulheres
assassinadas por dia (MJSP), não pode ser compreendido apenas como resultado de
conflitos individuais, falhas de segurança pública ou desvios de caráter. É um
fenômeno estrutural, enraizado em uma cultura histórica de rancor, controle e
subalternização das mulheres, que atravessa séculos e se atualiza por meio de
discursos ideológicos, religiosos e políticos. A violência letal contra
mulheres é o estágio extremo de uma pedagogia social que ensina, naturaliza e
legitima o domínio masculino. Triste herança do passado que perdura no
presente.
Desde
a formação das sociedades patriarcais, o feminino foi sendo deslocado do lugar
de potência para o de ameaça. O Malleus Maleficarum (Martelo das Feiticeiras),
cartilha inquisitorial publicada no século XV, é um dos exemplos mais brutais
dessa construção simbólico-discursiva. Ao associar a mulher ao pecado, à
sexualidade descontrolada e ao demônio, o texto consolidou uma narrativa que
permitiu a perseguição, a tortura e a morte de milhares de mulheres. A caça às
bruxas não foi um delírio coletivo, mas um projeto político de disciplinamento
dos corpos femininos, injusto argumento na consolidação do Estado moderno, do
capitalismo nascente e do controle social.
Essa
misoginia institucionalizada não desapareceu com o fim das fogueiras. Ela se
transformou. A narrativa que antes demonizava o corpo feminino hoje se
apresenta em roupagens modernas: moralismos seletivos, discursos de ódio nas
redes sociais, negacionismo da violência de gênero e ideologias que reforçam
papéis tradicionais como se fossem naturais ou divinos. A lógica, no entanto,
segue a mesma: controlar a autonomia das mulheres, sua sexualidade, sua
presença no espaço público e sua capacidade de decisão. Enfim, o crescente
empoderamento feminino é punido com agressões e mortes pelos radicais, pelos
fascistas, pelos covardes.
A
análise histórica revela que nem sempre foi assim. Em sociedades matrísticas,
como definiram Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller, as mulheres ocupavam
posição central, associadas à fertilidade, ao saber e à organização da vida
comunitária. Eram respeitadas e cultuadas por sua importância, registra a vida
de grupos sociais em várias partes do mundo. A supremacia masculina emerge
quando a força física, a guerra e a propriedade passam a estruturar as relações
sociais. A partir daí, o poder cultural masculino se impõe sobre o poder
biológico feminino, transformando a mulher em propriedade e sua sexualidade em
objeto de desconfiança e punição.
O
patriarcado, ao longo dos séculos, construiu uma linguagem que inferioriza o
feminino e o associa à culpa, ao descontrole e à ameaça. Essa linguagem não
apenas molda imaginários, mas orienta práticas. Quando a mulher é morta por ser
mulher, o agressor age amparado por uma cultura que o ensinou a ver, desde bem
jovem, o corpo feminino como posse e a violência como correção. O feminicídio,
nesse sentido, é um crime ideológico.
Na
sociedade contemporânea, as mídias digitais amplificam esse processo. Tal como
no conto O Patinho Feio (1843), de Hans Christian Andersen, a aparência, os
estereótipos e os julgamentos sumários definem quem merece existir sem ser
atacado. Mulheres que rompem padrões são canceladas, perseguidas e silenciadas.
A desumanização simbólica antecede a violência física. É comum observar homens
que, de modo dissimulado, ridicularizam e inferiorizam mulheres.
Compreender
o feminicídio como herdeiro de um longo processo histórico é fundamental para
enfrentá-lo. Não se trata apenas de punir crimes, mas de desmontar discursos,
revisar narrativas e interromper a recorrência cotidiana do androcentrismo.
Enquanto a cultura do ódio for legitimada por ideologias que exaltam a força, o
controle e a submissão, as mulheres continuarão sob risco.
Romper esse ciclo exige mais do que leis: exige memória, consciência histórica e a coragem de confrontar as bases simbólicas do patriarcado. Educação. As fogueiras da Inquisição mudaram na forma, mas o fogo delas ainda queima. E só será extinto quando a sociedade deixar de naturalizar a violência contra as mulheres e passar a reconhecê-las como iguais – pessoas de direito, desejo e existência.
Ricardo Viveiros - jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (ABERJE); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Justiça seja feita e Memórias de um tempo obscuro.
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