Desde
a infância, infelizmente, muitas pessoas são expostas a termos jocosos e
depreciativos em relação à velhice, tais como: “isso é coisa de velho”, “quem gosta
de coisa velha é museu”, “você parece um(a) velho(a)”, “está ficando gagá/caduco(a)”,
“está fazendo hora extra”, “quem gosta de velho é reumatismo”, entre outras
expressões pejorativas que humilham e alimentam o preconceito contra as pessoas
de mais idade. Some-se a isso a prática de infantilizar o idoso, utilizando
diminutivos como “vovozinha”, “comidinha”, “bracinho”, entre outros, que,
embora pareçam carinhosos, podem reforçar estereótipos de fragilidade e
incapacidade.
Esse
preconceito pode manifestar-se inclusive no meio médico. Alguns profissionais,
por desconhecimento ou visão limitada acerca do processo de envelhecimento,
atribuem queixas — especialmente dores ou lapsos de memória — simplesmente à
“idade”, sem a devida investigação clínica. Tal postura pode gerar
insatisfação, diagnósticos imprecisos e tratamentos inadequados.
Generalizar
que o idoso é “chato”, egoísta ou rabugento não é adequado nem justo. Tais
características não decorrem exclusivamente da velhice. Se alguém apresenta
determinados traços de personalidade na idade avançada, é provável que já os
manifestasse desde sua juventude, podendo apenas tê-los acentuado com o passar
do tempo. Há um aforismo que afirma: “Com o envelhecimento, aprimoram-se as
qualidades e acentuam-se os defeitos.” Assim, cada pessoa tende a envelhecer
como viveu.
O que é o Idadismo?
A essa forma de discriminação baseada na idade damos o nome de idadismo ou etarismo. Trata-se de um fenômeno que afeta principalmente pessoas idosas por meio de estereótipos, preconceitos e práticas excludentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o idadismo refere-se aos estereótipos (como pensamos), aos preconceitos (como nos sentimos) e à discriminação (como agimos) em relação aos outros com base na idade.
Na prática, o idadismo manifesta-se em diferentes esferas, podendo ser resumido
em três pilares principais:
- No Trabalho: Exclusão de processos seletivos e demissão de funcionários experientes por serem considerados “velhos demais”, ignorando-se sua produtividade e competência.
- Na Sociedade: Criação de imagens e estereótipos negativos que diminuem o valor e a capacidade da pessoa idosa.
- No Cotidiano: Isolamento social e exclusão de espaços comunitários frequentados majoritariamente por jovens.
Não
são raros os casos de profissionais no auge de sua produtividade e conhecimento
que são dispensados por serem considerados “velhos” para determinadas funções —
e, muitas vezes, sequer atingiram a idade legalmente classificada como idosa.
Perde-se, assim, um capital humano valioso, cujo aperfeiçoamento demandou anos
de dedicação.
Infelizmente,
o envelhecimento ainda é cercado de estigmas. O termo “velho” é frequentemente
empregado de forma pejorativa, associado a ideias de fraqueza, lentidão, irrelevância
ou descartabilidade. Muitos evitam falar sobre a velhice — sobretudo sobre a
própria — como se fosse um tabu ou como se o envelhecer não fosse um destino
comum a todos.
O Tabu do Envelhecer
Tal
cenário pode estar relacionado a uma sociedade que glorifica a juventude,
associando beleza, sucesso e relevância à idade jovem. Publicidade, redes sociais
e produções audiovisuais reforçam a ideia de que a juventude representa o auge
da vida, enquanto o envelhecimento seria algo a ser evitado. Essa visão cria
pressão para manter aparência e estilo de vida incompatíveis com o curso
natural da existência.
Outro
exemplo marcante é a diferença de julgamento social quanto à afetividade.
Jovens podem expressar livremente seu afeto em público, enquanto dois idosos
que namoram ou se beijam em uma praça frequentemente são alvo de críticas ou
constrangimentos. Em alguns casos, há até reações desproporcionais,
desrespeitando-se o direito ao amor e à sexualidade na velhice.
Os
jovens ainda enfrentarão o desafio de envelhecer — e de fazê-lo com qualidade
de vida — apesar das inúmeras orientações de saúde disponíveis atualmente. Os
idosos, por sua vez, já percorreram esse caminho e superaram, bem ou mal, os
obstáculos que se apresentaram.
“...de
todas as realidades da vida, para o jovem, a mais abstrata é a velhice.” – Marcel Proust
O Futuro é Prateado
Contudo,
a realidade demográfica é inequívoca: a população idosa é a que mais cresce e
continuará a crescer de forma progressiva. Projeções indicam que, por volta de
2060, representará a maior faixa populacional de todas, superando em muito a
população infantil. Diante desse cenário, cabe perguntar: permaneceremos reféns
do preconceito? Certamente não.
A
transformação exige ações concretas em múltiplas frentes da sociedade. Para
combater o idadismo, algumas medidas são fundamentais:
- Educação e conscientização –
promover cursos e campanhas sobre envelhecimento saudável, desmistificando
estereótipos desde a infância;
- Valorização da experiência –
reconhecer o conhecimento acumulado ao longo da vida como patrimônio
social;
- Políticas inclusivas –
Respeitando o Estatuto do idoso e fazendo cumprir as leis já aprovadas que
protegem contra a discriminação etária;
- Valorização social –
reconhecer a experiência e a sabedoria dos idosos como ativos valiosos;
- Programas intergeracionais –
incentivar encontros entre gerações em escolas e comunidades, favorecendo
a troca de experiências, o aprendizado mútuo e a superação de
preconceitos.
Combater
o idadismo é contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, na qual
cada pessoa seja valorizada independentemente da idade. É compreender que o
envelhecimento é uma etapa natural e rica da vida, repleta de sabedoria,
experiências e contribuições significativas. Envelhecer com respeito e
dignidade é um direito de todos. Uma sociedade que respeita seus idosos
reconhece o valor da vida humana em todas as suas fases.
“Não
há assunto que os velhos não possam conduzir graças à sua inteligência.”
(Cícero, De Senectute, 44 a.C.)
Dr. Luiz Antônio da Silva Sá - especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)
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