Associação Médica do Rio Grande do Sul integra trabalho que busca conscientizar famílias, escolas e sociedade sobre impactos do cigarro eletrônico
O aumento acelerado do uso de cigarros eletrônicos, especialmente entre adolescentes e jovens, acendeu um alerta no Rio Grande do Sul. Na manhã desta sexta-feira, dia 20 de fevereiro, representantes do Ministério Público Estadual e de entidades médicas, entre elas a Associação Médica do Rio Grande do Sul (AMRIGS), reuniram-se no Auditório Marcelo Kuffner, em Porto Alegre, para estruturar uma campanha integrada de combate ao uso de vape. A mobilização pretende alinhar estratégias, ampliar a conscientização e coordenar ações de prevenção e responsabilização diante de um cenário considerado preocupante por especialistas.
O vape, também conhecido como cigarro eletrônico ou pod, é um dispositivo movido a bateria que aquece um líquido com nicotina e outras substâncias químicas para produzir vapor inalável, prática associada a dependência precoce e possíveis lesões pulmonares.
A coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação, Infância e Juventude do Ministério Público Estadual, Cristiane Corrales, destacou que o enfrentamento exige articulação ampla e contínua.
“A pauta que nos reúne é urgente: o crescimento do uso de cigarros eletrônicos, inclusive entre adolescentes. Sabemos que não é um desafio simples, pois estamos diante de um comércio ilegal esquematizado, com jovens como público consumidor. Por isso, é fundamental atuarmos de forma integrada, priorizando a conscientização e a prevenção, sem deixar de lado o papel institucional do Ministério Público na responsabilização e repressão, quando necessário”, afirmou.
A AMRIGS esteve representada no encontro pelo gerente geral, Ronald Greco, que ratificou o apoio da entidade ao movimento.
"Esse é um tema relevante e por isso colocamos à disposição o Centro de Eventos da AMRIGS, com espaços multifuncionais que podem ser palco de grandes mobilizações e debates qualificados. Estamos juntos para apoiar essa iniciativa e contribuir com o que for necessário".
A editora da próxima edição da revista científica da AMRIGS, Trends in Health Sciences, a psiquiatra Patrícia Saibro, também participou do evento e alertou para o poder econômico da indústria do tabaco e para as estratégias históricas de reposicionamento de produtos com alto potencial de dependência.
“Estamos lidando com uma indústria extremamente potente. O cigarro eletrônico foi apresentado como alternativa de redução de danos, entrou como um suposto aliado e acabou se tornando um grande vilão. O vape tem um potencial adictivo extremamente superior. A nicotina sintética gera muito mais dependência e, diferentemente do cigarro tradicional, não provoca desconforto inicial. Isso faz com que a conversão da experimentação para o uso regular aconteça de forma muito rápida”, alertou Dra. Patrícia.
Segundo ela, dados de levantamento nacional sobre consumo de álcool e outras drogas indicam que 76% das pessoas que experimentam o vape passam a utilizá-lo de forma regular, evidenciando o elevado risco de dependência.
O coordenador do Centro de Apoio Operacional dos Direitos Humanos e da Proteção aos Vulneráveis do Ministério Público do Rio Grande do Sul, Leonardo Menin, ressaltou que a conscientização deve ser o eixo central da mobilização.
“Seja na administração pública, nos movimentos sociais ou no Terceiro Setor, todos têm algo a contribuir nessa discussão. Informar, orientar e mobilizar é o nosso papel fundamental a partir deste encontro”.
A procuradora da República, Ana Paula Medeiros, vinculada ao Núcleo de Cidadania e Saúde, reforçou a importância da atuação conjunta.
“Quando falamos em saúde pública, sabemos que a prevenção é o caminho mais efetivo. Paralelamente, existe a dimensão da repressão, especialmente diante da importação irregular desses produtos. A atuação integrada é imprescindível”, avaliou.
O médico urologista e associado da AMRIGS, Luciano Zuffo, chamou atenção para o avanço do consumo também entre jovens adultos e para os impactos futuros no sistema de saúde.
“Estamos diante de uma epidemia silenciosa, que muitas vezes acontece dentro de casa, sem que os pais percebam. Esse é um problema que terá reflexos na saúde pública e na economia. Precisamos agir de forma coletiva”, declarou Dr. Luciano.
A reunião contou ainda com a presença das presidentes da Sociedade de Cirurgia Torácica do Rio Grande do Sul (SOCITORS), Dra. Fabíola Perin; da Sociedade de Terapia Intensiva do Rio Grande do Sul (SOTIRGS), Dra. Taiane Vargas; e da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Rio Grande do Sul (SPTRS), Dra. Caroline Freiesleben.
A
campanha será estruturada com foco em prevenção, informação qualificada e
articulação institucional, envolvendo escolas, famílias, órgãos de segurança e
entidades da área da saúde. A orientação é que pais, educadores e profissionais
busquem informações em fontes oficiais e acompanhem os canais do Ministério
Público Estadual e da AMRIGS para conhecer as próximas etapas da ação.
Marcelo Matusiak
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