
Foto profissional
Caminhos Franciscanos - Vale do Mucuri
Com planejamento e identidade
territorial, destinos de fé transformam espiritualidade em geração de renda,
emprego e fortalecimento das economias locais
Com o início da Quaresma, período de 40 dias que antecede a Páscoa no calendário cristão, cidades que têm a fé como principal ativo econômico começam a registrar aumento no fluxo de visitantes. Romarias, vias-sacras, retiros espirituais e celebrações penitenciais intensificam a movimentação em destinos tradicionalmente ligados ao turismo religioso, consolidando o segmento como vetor estratégico de desenvolvimento regional.
Mais do que expressão espiritual, a fé se
traduz em geração de renda, fortalecimento do comércio local e estímulo ao
empreendedorismo.
Minas Gerais: fé que estrutura rotas e fortalece empreendedores
Em Minas Gerais, iniciativas como o Caminho de
Nossa Senhora da Lapa, em Vazante, e os Caminhos Franciscanos, no Vale do
Mucuri, evidenciam como a estruturação de rotas de peregrinação pode redefinir
a dinâmica econômica de pequenos municípios. O que antes eram povoados com
fluxo restrito passaram a integrar o mapa do turismo de fé, recebendo
visitantes que percorrem mais de 900 quilômetros em busca de espiritualidade,
acolhimento e autenticidade.
“Estamos falando de comunidades pequenas, que
hoje se organizam para receber peregrinos de diferentes regiões do país. Os
Caminhos Franciscanos se tornaram referência justamente por unir tradição
religiosa, hospitalidade bem estruturada e gestão integrada entre igreja,
empreendedores e poder público”, afirma Santuza Macedo, especialista em turismo
e operadora do setor.
Segundo ela, quando há planejamento e
identidade bem definida, o turismo religioso deixa de ser apenas evento pontual
e passa a se consolidar como estratégia permanente de desenvolvimento regional.
Fé que movimenta bilhões no mundo
O fenômeno não é isolado. De acordo com a
Organização Mundial do Turismo (OMT), entre 300 e 330 milhões de viagens
internacionais por ano estão ligadas a motivações religiosas. Estimativas de
mercado apontam que o segmento movimentou aproximadamente US$ 286 bilhões em
2024, com projeção de ultrapassar US$ 670 bilhões até 2030.
No Brasil, onde 86% da população se declara
cristã segundo o IBGE, o potencial é expressivo. Dados do Ministério do Turismo
indicam que 37% dos brasileiros já realizaram viagens motivadas pela fé, e 18%
apontam destinos religiosos como preferência principal, atrás apenas de sol e
praia.
Aparecida e Cachoeira Paulista: alta temporada espiritual
Durante a Quaresma, destinos como o Santuário
Nacional de Aparecida registram aumento nas excursões organizadas, sobretudo
nos fins de semana e na proximidade da Semana Santa. Em 2024, o maior templo
mariano do mundo recebeu mais de 9 milhões de devotos ao longo do ano,
consolidando-se como epicentro do turismo religioso na América Latina.
A poucos quilômetros dali, a Comunidade Canção
Nova também intensifica sua programação litúrgica no período, atraindo milhares
de fiéis para retiros e encontros espirituais.
O calendário quaresmal amplia o tempo de
permanência dos visitantes e estimula setores como hotelaria, alimentação,
transporte e comércio popular.
Turismo religioso como estratégia de desenvolvimento
Para Santuza Macedo, o crescimento observado neste período confirma uma tendência estruturada.
“O turismo religioso acompanha o calendário litúrgico
e ganha força na Quaresma, quando há maior busca por reflexão e reconexão
espiritual. Quando existe planejamento, sinalização adequada, capacitação de
empreendedores e integração entre os atores locais, a fé se transforma em
desenvolvimento sustentável.”
Segundo ela, o avanço do setor passa por
profissionalização e integração com experiências culturais e gastronômicas,
ampliando o tempo de permanência.
“O peregrino contemporâneo quer vivência
espiritual, mas também organização, conforto e informação. Estruturar rotas bem
definidas, fortalecer o acolhimento e capacitar pequenos negócios são passos
fundamentais para que as cidades aproveitem plenamente esse potencial.”
Impacto direto nas economias locais
Durante a Quaresma, cidades que concentram
santuários e rotas de peregrinação registram:
- aumento na ocupação hoteleira;
- crescimento nas vendas do
comércio popular;
- fortalecimento da economia
informal;
- geração de empregos
temporários;
- ampliação da visibilidade turística regional.
Mais do que um movimento sazonal, o turismo
religioso consolida-se como segmento estratégico para o Brasil. E, com o início
da Quaresma, essa engrenagem econômica movida pela fé volta a girar com
intensidade, reafirmando que espiritualidade e desenvolvimento caminham lado a
lado.
Santuza Macedo - empreendedora e especialista em turismo, com ampla experiência nacional e internacional. CEO da Diamond Viagens, atuou em Orlando (EUA), onde se especializou em experiências personalizadas na Disney e no turismo familiar. Hoje, lidera projetos e consultorias que envolvem roteiros nacionais e internacionais, cruzeiros, excursões e viagens sob medida, conectando brasileiros a destinos que unem conforto, cultura e propósito. Seu trabalho tem como foco transformar o ato de viajar em uma experiência completa, planejada com segurança, encantamento e estratégia.
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