A sucessão de casos recentes de maus‑tratos e morte de animais de companhia no Brasil — registrados em estados como Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Paraná e Distrito Federal — não pode ser tratada como uma coleção de tragédias isoladas. À luz da ciência, trata‑se de um fenômeno social recorrente, mensurável e profundamente conectado ao modo como o país lida com a vida, a justiça e a desigualdade.
O Modelo dos Cinco Domínios do Bem‑Estar Animal,
referência internacional, deixa isso claro. Nutrição, ambiente, saúde,
interações comportamentais e estado mental formam um sistema integrado. Em
episódios de espancamento, enforcamento, disparos de arma de fogo ou abandono
extremo, todos esses domínios são violados simultaneamente. Não se trata de
opinião, mas de um enquadramento técnico consolidado na literatura científica.
A violência ganha ainda maior gravidade quando se
reconhece que cães e gatos integram famílias multiespécie. Esses animais
participam de vínculos afetivos, rotinas e identidades coletivas. Quando um cão
comunitário é morto ou um animal doméstico é torturado, o dano extrapola o
indivíduo não humano e atinge laços familiares, redes de cuidado e a própria
coesão social.
É preciso, contudo, ampliar o olhar. À luz dos
Cinco Domínios, práticas socialmente naturalizadas também
configuram maus‑tratos: submeter animais a ambientes
superlotados, como shoppings e eventos, expô‑los a passeios em horários de
calor intenso, transportá‑los em carrinhos de bebê que restringem movimento e
comportamento natural, ou oferecer alimentos ultraprocessados destinados a
humanos. Essas condutas comprometem o domínio ambiental, limitam interações
comportamentais, afetam saúde e nutrição e culminam em estados mentais
negativos, como estresse e desconforto. Maus‑tratos não se resumem à violência
explícita; incluem escolhas cotidianas incompatíveis com as necessidades
biológicas da espécie.
Sob o paradigma da Saúde Única (One Health/One
Welfare), maus‑tratos a animais funcionam como marcadores de adoecimento
social, frequentemente associados à violência interpessoal, à negligência
institucional e à falha de políticas públicas integradas. O crescimento
exponencial desses crimes, somado a respostas penais frágeis, evidencia o peso
dos determinantes sociais — desigualdade, impunidade e ausência de articulação
entre justiça, saúde e proteção animal.
Proteger animais não é sentimentalismo nem pauta menor. É compromisso ético, sanitário e civilizatório. A forma como um país trata seus animais revela, sem filtros, o grau de humanidade que está disposto a sustentar.
Willian Barbosa Sales - Biólogo, Doutor em Saúde e Meio Ambiente e Coordenador dos cursos de Pós-graduação área da saúde do Centro Universitário Internacional UNINTER.
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