Estudo conduzido na USP mostra que o patógeno pode
persistir por longos períodos nesses tecidos, ser transmitido de forma
insuspeita e gerar novos surtos da doença
O rinovírus consegue infectar linfócitos dos tipos B, produtores de anticorpos
e T CD4, que atuam como maestros da resposta imunológica local
(imagem: PDB/Wikimedia Commons)
Estudo conduzido na Universidade de São Paulo (USP)
revela que tecidos como amígdala e adenoide podem servir como “esconderijo”
para o rinovírus, causador do resfriado e responsável pela maior parte das
infecções respiratórias do mundo.
Conduzido com amostras de 293 crianças que passaram
por cirurgia para a retirada desses tecidos, o trabalho mostrou que o patógeno
consegue infectar células de defesa conhecidas como linfócitos e lá permanecer
por longos períodos sem provocar sintomas, podendo eventualmente ser
transmitido para outras pessoas de forma insuspeita.
“O vírus tem um encontro marcado com a população
infantil. Todos os anos, cerca de duas ou três semanas depois que as aulas
começam em regiões de clima temperado, ocorre um surto de rinovírus. E as
crianças levam para os pais e avós. A gente sempre teve essa dúvida: o que tem
a ver o início das aulas? Ora, juntam-se crianças em um espaço fechado, e
algumas delas com o vírus na garganta podem semear o surto na escola mesmo
estando assintomáticas”, comenta o rinovirologista Eurico de Arruda Neto, professor da Faculdade de Medicina
de Ribeirão Preto (FMRP-USP) e coordenador da investigação, apoiada pela FAPESP
(projetos 13/06380‐0, 13/16349‐2 e 17/25654‐4).
Como explica o pesquisador, já se sabia que o rinovírus
infecta o epitélio do nariz e da garganta (a camada mais superficial da
mucosa), sequestra o maquinário celular para se multiplicar e, terminado esse
trabalho, provoca o rompimento da célula hospedeira para liberar sua progênie
apta a gerar novas infecções. Por esse motivo os cientistas o consideram um
vírus lítico (que causa a lise ou ruptura celular). Esse ciclo rápido e
destrutivo chama rapidamente a atenção do sistema imune, que, na maioria dos
casos, elimina o vírus do organismo em torno de cinco a sete dias.
A grande novidade do trabalho foi mostrar que, além
do epitélio, o rinovírus consegue atingir camadas mais profundas dos tecidos
das amígdalas e adenoides e infectar linfócitos dos tipos B (produtores de
anticorpos) e T CD4 (que atuam como maestros da resposta imunológica local).
Essas células têm vida longa e guardam a “memória” do sistema imune. Em vez de
matá-las, o rinovírus permanece dentro delas por períodos longos de tempo, em
um estado de persistência similar à latência que ocorre com os vírus herpes,
HPV e citomegalovírus.
“As amostras que analisamos são de crianças
operadas porque sofriam com ronco, apneia do sono ou infecções recorrentes
relacionadas com a hipertrofia de amígdalas e adenoides. No momento da cirurgia
elas estavam obrigatoriamente sem sintomas. Ainda assim, detectamos o rinovírus
em uma quantidade bem grande de participantes”, conta Arruda.
Além das amígdalas e adenoides, também foi
analisada a secreção nasal das crianças. Segundo dados divulgados no Journal
of Medical Virology, o vírus estava presente em ao menos um dos três locais
(amígdala, adenoide ou secreção) em 46% dos voluntários. Também foram
observados nesses tecidos a presença de proteínas virais e de outros indícios
de que o rinovírus estava se multiplicando e, portanto, apto a infectar outra
pessoa.
A investigação contou com a colaboração do virologista Ronaldo Martins, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP-USP), e dos professores Wilma Anselmo-Lima, Edwin Tamashiro e Fabiana Valera, da FMRP-USP.
Horta de vírus
Em trabalhos anteriores, a equipe de Arruda já
havia detectado em amostras de amígdalas e adenoide, também de crianças
operadas, a presenças do adenovírus (outro
causador do resfriado), do influenza A (gripe)
e do SARS-CoV-2 (COVID-19). Estes dois últimos já são
conhecidos por causar, em alguns pacientes, infecções mais prolongadas. Já no
caso do rinovírus isso foi uma surpresa.
“Tenho a impressão de que qualquer vírus comum que
formos procurar vamos encontrar. E não só nas amígdalas e adenoides, mas em outros
tecidos linfoides do organismo, como linfonodos e gânglios. Já temos algumas
evidências preliminares de que os tecidos linfoides são uma espécie de ‘horta’
de vírus. E nossa hipótese é que isso é algo do bem. Funciona como um reforço
da memória imunológica, o que faz com que anticorpos continuem a ser produzidos
mesmo após longos períodos da exposição inicial”, avalia Arruda.
No caso de pessoas que sofrem de asma, contudo, tal
fato pode ser um problema. Uma das hipóteses levantadas pelos autores no artigo
é que a presença de vírus infeccioso nos linfócitos T CD4 das amígdalas pode
induzir a liberação de substâncias inflamatórias capazes de agir nos pulmões e
causar uma crise asmática. O que já se sabe é que resfriados e gripes estão
entre as causas mais comuns de crises de asma, especialmente em crianças
pequenas.
Além disso, um estudo anterior do grupo detectou vírus respiratórios
em adenoide normal (sem hipertrofia) – que fica ao lado da tuba auditiva –,
podendo ser a razão pela qual algumas crianças sofrem de otites médias
recorrentes.
“Esse vírus pode passar da adenoide para o ouvido
médio e lá causar uma inflamação. A criança não vai ficar espirrando ou
tossindo, mas o ouvido vai inflamar e isso fecha a tuba auditiva, que é muito
fina, gerando um acúmulo de líquido no qual a própria flora bacteriana local
passa a se proliferar”, explica o pesquisador.
Implicações clínicas
Na avaliação de Arruda, a partir desses achados, os
pediatras devem atentar para a possibilidade de confusão diagnóstica em relação
às causas das doenças infantis.
“Por exemplo: uma criança com amígdala hipertrófica
chega ao pronto-socorro com uma infecção respiratória e sintomas de bronquiolite
causada pelo vírus sincicial respiratório, mas o teste do cotonete na garganta
detecta o rinovírus que está ali desde uma infecção anterior. Ou seja, pode ser
que os testes feitos nas secreções nem sempre reflitam o que de fato está
ocorrendo no pulmão”, diz o pesquisador. “Temos evidências de que mesmo em
pessoas com amígdalas e adenoides de tamanho normal também pode ocorrer essa
persistência viral.”
Outra hipótese a ser investigada, diz o cientista,
é se os vírus que persistem nos tecidos linfoides podem se tornar um problema
para pacientes imunossuprimidos. “Pacientes que fazem transplante de medula,
por exemplo, frequentemente desenvolvem infecção pulmonar e bronquiolite. A
culpa costuma recair sobre médicos, enfermeiros e estudantes de medicina, que
levariam o vírus para a ala de alto risco. Mas será que o vírus já não estava
nas amígdalas e adenoides do próprio paciente, e agora está reativado por causa
da baixa imunidade? Não precisa ser uma transmissão de fora para dentro. É isso
que começamos a investigar em camundongos”, conta.
O artigo Rhinovirus infects B and CD4 T
lymphocytes in hypertrophic tonsils in children pode ser lido
em: pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12831225/.
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/virus-do-resfriado-se-esconde-e-se-multiplica-nas-amigdalas-e-adenoides-mesmo-em-pessoas-sem-sintomas/57226

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