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sábado, 13 de junho de 2026

“Ficou gag”? Entenda as principais gírias usadas pelas novas gerações

Magnific
Educadores explicam como essas expressões refletem comportamento, identidade e cultura digital dos jovens 


As redes sociais transformaram não apenas a forma como os jovens se relacionam, mas também a maneira como falam, escrevem e constroem vínculos. Termos como “delulu”, “farmar aura”, “tankar” e “cringe” passaram a fazer parte do cotidiano de adolescentes e jovens adultos, especialmente entre integrantes das gerações Z, nascidos entre 1995 e 2010, e Alpha, nascidos a partir de 2011. Muito além de modismos passageiros, essas expressões revelam tendências culturais, referências digitais e mecanismos de identificação social que ajudam a marcar pertencimento entre grupos. 

Para Rodrigo Cunha, professor de Computer Science e Digital Literacy da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), as gírias usadas pelos jovens revelam muito mais do que modismos passageiros. “Elas funcionam como códigos culturais de pertencimento e identidade dentro dos ambientes digitais. Muitas surgem em memes, vídeos curtos, jogos e comunidades online, circulando rapidamente entre idiomas e plataformas”. 

Na opinião do docente, a escola pode transformar esse tema em oportunidade pedagógica para discutir cidadania digital, respeito, contexto e responsabilidade. “A mesma expressão pode ser divertida entre amigos, inadequada em um ambiente formal ou ofensiva dependendo da forma como é usada. Entender essas expressões é também entender a cultura digital em que os estudantes estão inseridos. O mais importante é ajudar os alunos a refletirem sobre como a linguagem circula na internet, como determinados comportamentos viralizam e como a comunicação digital pode aproximar, excluir, influenciar ou gerar conflitos”, afirma Rodrigo. 

Segundo Thiago Silverio Barbosa, professor de Língua Portuguesa da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri (SP), o uso dessas gírias também funciona como um processo de reconhecimento entre os próprios jovens. Assim como acontecia com os “cadernos de perguntas” e abreviações de palavras no antigo bate-papo do MSN nos anos 2000, as expressões atuais ajudam a criar uma sensação de pertencimento geracional. “Toda geração cria seus próprios símbolos de comunicação. Antes eram os emoticons, o internetês ou até as agendas recheadas de códigos e apelidos. Hoje, as gírias das redes sociais cumprem esse mesmo papel de aproximação e identificação”, afirma. 

Muitas expressões que já foram vistas com estranhamento no passado acabaram incorporadas ao vocabulário cotidiano e até aos dicionários. Segundo o professor de português do Brazilian International School (BIS), de São Paulo (SP), Lino Gonzaga de Oliveira, as línguas estão em constante transformação, e a incorporação de novas palavras faz parte de um processo natural da comunicação humana. “Existe um preconceito histórico contra as gírias, como se elas empobrecessem a língua, mas isso não corresponde à realidade. A linguagem é viva, dinâmica e acompanha as mudanças sociais. As gírias revelam criatividade, contexto cultural e formas legítimas de expressão”, observa o docente. 

Além disso, compreender o universo linguístico dos adolescentes também pode ajudar famílias a estreitarem relações e reduzirem choques geracionais. Em vez de ridicularizar ou ignorar essas expressões, pais, responsáveis e escolas podem tornar a curiosidade uma ferramenta de aproximação. “Quando os adultos demonstram interesse genuíno pela forma como os jovens se comunicam, eles criam pontes importantes de diálogo. Entender as gírias não significa tentar ‘virar adolescente’, mas sim reconhecer que a linguagem também é uma forma de afeto, pertencimento e construção de identidade”, diz Carolina Alvarenga, orientadora educacional do Ensino Médio do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP).
 

Glossário: principais gírias usadas pelas novas gerações 

A seguir, os docentes elencam as gírias mais comuns entre os jovens e explicam os significados de cada uma.
 

10/10: algo perfeito ou excelente. “O restaurante foi experiência 10/10.”
 

Aesthetic: estética visual harmoniosa e bem definida. “O quarto dela tem uma aesthetic bem minimalista.”
 

Aff, veyr: expressão de irritação ou impaciência. “Aff, veyr, perdi o ônibus de novo.”
 

Aura / Farmar aura: construir uma imagem admirável ou ganhar respeito social. “Chegar de moto na escola foi pra farmar aura.”
 

Baddie: pessoa muito estilosa, bonita e confiante. “Ela chegou toda produzida, maior baddie.”
 

Bait: conteúdo feito para provocar ou enganar pessoas. “O título era bait só pra ganhar clique.”
 

Bapho: situação chocante ou cheia de repercussão. “Você viu o bapho que aconteceu na festa?”
 

Based: pessoa autêntica e segura das próprias opiniões. “Ela falou o que pensa sem medo, muito based.”
 

Bed rot: passar muito tempo deitado sem energia. “Depois da semana puxada, ele ficou no bed rot o domingo inteiro.”
 

Biscoito / biscoiteiro: pessoa buscando elogios ou validação. “Postou foto triste só pra ganhar biscoito.”
 

Boomer: pessoa mais velha ou com mentalidade considerada ultrapassada. “Meu pai reclamando do Wi-Fi foi muito boomer.”
 

Brainrot: obsessão exagerada por um tema ou tendência. “Ela tá com brainrot daquela série.”
 

Catfish: pessoa que cria identidade falsa na internet. “Ela descobriu que estava conversando com um catfish.”
 

Clean girl: estilo minimalista e sofisticado, muito associado a influencers de beleza. “Ela adotou o visual clean girl com maquiagem leve.”
 

Cooked: estar em situação complicada. “Sem estudar pra prova? Você tá cooked.”
 

Coringar: tem origem no filme “Coringa”, e significa surtar ou perder o controle emociona. “Depois de tantas provas na semana, ela começou a coringar.”
 

CPA: abreviação de “se pá”, expressão usada para indicar possibilidade, dúvida ou algo que talvez aconteça. “CPA eu vá no rolê mais tarde.”
 

Crash out: explodir emocionalmente ou perder o controle. “Depois da discussão, ele deu um crash out.”
 

Cringe: algo considerado vergonhoso, antigo ou fora de sintonia com os jovens. “Mandar áudio de cinco minutos no grupo é cringe.”
 

Cunty: pessoa extremamente estilosa, ousada e confiante. “O visual dela tava muito cunty na festa.”
 

Deixa ele(a) cozinhar: deixar a pessoa desenvolver uma ideia que pode dar certo. “A estratégia parece estranha, mas deixa ele cozinhar.”
 

Delulu: pessoa iludida ou que cria fantasias irreais. “Ele acha que vai namorar a cantora famosa? Tá muito delulu.”
 

Dix: conta privada no Instagram para amigos próximos. “Ela postou no dix, então só os íntimos viram.”
 

Drop / dropar: lançar algo, “A cantora vai dropar álbum novo amanhã”; ou abandonar algo, “Ele começou três séries ao mesmo tempo, mas acabou dropando todas.”
 

Dump: sequência de fotos aleatórias postadas nas redes sociais. “Ela fez um dump com fotos da viagem.”
 

Era: fase específica de algo ou alguém, comportamento ou personalidade. “A era fitness chegou para ele.”
 

Fail: indica fracasso ou erro. “A tentativa de surpresa foi um fail completo.”
 

Fanfic / Fic: história inventada, exagerada ou improvável. “Essa história parece muito fanfic de internet.”
 

Flop / Flopar: algo que fracassou, não fez sucesso ou teve pouca repercussão. “Ela passou horas editando o vídeo, mas flopou e quase ninguém curtiu.”
 

Foi de arrasta: algo acabou ou deu muito errado. “O celular caiu na piscina e foi de arrasta.”
 

FOMO (Fear of Missing Out): medo de ficar de fora de algo importante. “Ele saiu mesmo cansado porque bateu FOMO vendo os amigos no rolê.”
 

Gado demais: pessoa apaixonada; que age de forma excessivamente obediente, sem senso crítico; ou que idolatra algo ou alguém cegamente. “Ele cancelou tudo por causa dela. Gado demais.”
 

Gag / Gag de la gag: algo extremamente chocante, surpreendente ou impressionante. “Quando ela apareceu com aquela roupa na festa todo mundo ficou gag.”
 

Goat: o melhor de todos em determinada área. “Pra muita gente, ele é o GOAT do futebol.”
 

Hablar: falar verdades ou se posicionar fortemente. “Ela resolveu hablar sobre o assunto.”
 

Hitar: fazer sucesso rapidamente. “A música hitou no TikTok.”
 

Hype: grande expectativa ou popularidade. “O filme criou muito hype antes da estreia.”
 

Iconic: algo muito marcante ou memorável. “Aquela cena virou iconic na internet.”
 

Jantou: quando alguém vence uma discussão com argumentos fortes. “Ela respondeu tão bem que simplesmente jantou o oponente.”
 

JOMO (Joy of Missing Out): sensação boa de ficar em casa e perder eventos sem culpa. “Todo mundo foi pra festa, mas ela preferiu descansar. Puro JOMO.”
 

Juro: expressão usada para reforçar sinceridade ou surpresa. “Juro que vi isso acontecer.”
 

Lacre: algo muito impactante ou impressionante. “A resposta dela foi um verdadeiro lacre.”
 

Looksmaxxing: tentativa de melhorar ao máximo a aparência. “Ele começou academia e skincare no projeto looksmaxxing.”
 

Lowkey: algo dito de forma discreta, sem querer chamar muita atenção ou sem demonstrar tanta intensidade. Também pode indicar uma opinião “meio escondida”. “Lowkey, eu gostei mais da primeira opção, mas não queria contrariar o grupo.”
 

Moggar: superar alguém visualmente ou socialmente. “Ele chegou tão arrumado que moggou todo mundo.”
 

Mood: algo com que alguém se identifica emocionalmente. “Essa frase é muito meu mood hoje.”
 

Nerfar: reduzir a força, relevância ou desempenho de algo. “Atualizaram o jogo e nerfaram o personagem.”
 

No cap: algo dito sem mentira; falando sério. “No cap, foi o melhor show que já vi.”
 

NPC: pessoa considerada sem personalidade ou muito automática. “Ele só repete as mesmas frases, parece um NPC.”
 

Old: ultrapassado ou fora de moda. “Usar essa rede social já é meio old.”
 

Peak: o auge ou melhor momento de algo ou alguém. “Esse foi o peak da carreira dele.”
 

Pick me: pessoa que busca atenção ou aprovação o tempo todo. “Ficar se diminuindo pra ganhar elogio é muito pick me.”
 

Plot: reviravolta inesperada. “O plot da história foi descobrir que eles já se conheciam.”
 

Pookie: apelido carinhoso e fofo. “Boa noite, pookie.”
 

POV (Point Of View): conteúdo apresentado de um ponto de vista específico. Termo usando nas redes sociais para colocar o espectador dentro de uma cena, simulando como seria enxergar uma situação pelos olhos de outra pessoa. “POV: você esqueceu o trabalho em casa no dia da entrega.”
 

PPRT: “papo reto”; falar algo verdadeiro e direto. “PPRT, você precisa descansar mais.”
 

Red Flag: sinal de alerta sobre comportamento problemático. “Demorar dias pra responder mensagem é red flag pra muita gente.”
 

Rizz: charme ou habilidade para conquistar alguém. “Ele tem muito rizz, conversa com todo mundo.”
 

Serviu: entregou algo muito bom ou impressionante. “O cantor serviu vocais no show.”
 

Sigma: pessoa independente e autoconfiante. “Ele prefere ficar sozinho e focado nos objetivos, bem sigma.”
 

Situationship: relação sem definição clara entre amizade e namoro. Um mix do inglês “situation” (situação) e “relationship” (relacionamento). “Eles saem juntos há meses, mas seguem numa situationship.”
 

Slay: arrasar ou se destacar positivamente. “Ela slayou muito na apresentação.”
 

Soft block: forma discreta de afastar alguém nas redes sociais, como remover dos seguidores sem bloquear oficialmente. “Ela deu soft block depois da discussão.”
 

Tankar: suportar ou aguentar determinada situação. “Não consigo tankar três horas dessa aula sem intervalo.”
 

Tilt: ficar irritado ou perder a paciência. “O jogo travou de novo e ele tiltou.”
 

Trend: tendência viral nas redes sociais. “Todo mundo entrou na trend da semana.”
 

Vanilla / basic: algo comum, previsível ou sem originalidade. “Pedir sempre o mesmo sabor é meio vanilla.”
 

Yapping: falar demais sem parar. “Ele ficou duas horas yapping sobre o jogo.”
 




Carolina Alvarenga - pedagoga formada pela UNICAMP, com trajetória de 12 anos na área da Educação, construindo uma experiência ampla e consistente em todos os segmentos escolares, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Com experiência em gestão educacional desde 2022, já ocupou cargos de coordenação e orientação em diferentes etapas da educação básica, desenvolvendo um trabalho pautado no cuidado, no desenvolvimento integral dos estudantes e na construção de uma cultura escolar forte e acolhedora. Atualmente, exerce a função de orientadora educacional do Ensino Médio no Colégio Progresso Bilíngue, e de Líder de Salvaguarda da instituição, contribuindo para a formação acadêmica e socioemocional dos estudantes, além da promoção de um ambiente escolar seguro, ético e humanizado.


Lino Gonzaga de Oliveira - graduado em Letras com habilitação em Português, e possui pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura e em Psicopedagogia. Atua há vinte e três anos na área educacional, tendo experiência como docente para o Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior.


Rodrigo Cunha - professor de Computer Science e Digital Literacy na Escola Bilíngue Aubrick (SP). Formado em Análise de Sistemas, com pós-graduação em Machine Learning, atua na integração entre tecnologia, pensamento crítico e formação ética no ambiente escolar. Possui experiência em transformação digital, incluindo vivência internacional de 15 anos na África do Sul, e já atuou como coordenador do curso de Desenvolvimento de Sistemas na Escola Técnica Estadual de São Paulo. Entusiasta da educação digital, desenvolve projetos que conectam pensamento computacional, inteligência artificial e cidadania digital, preparando estudantes para uma atuação crítica, segura e responsável em um cenário de abundância de dados e rápida evolução tecnológica.


Thiago Silvério Barbosa - mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde atuou como bolsista CAPES, e graduado em Letras pela mesma instituição. Com 16 anos de experiência docente, atualmente leciona Língua Portuguesa e Convivência Ética na Escola Internacional de Alphaville. Sua trajetória é marcada pela versatilidade pedagógica, incluindo passagens por cursos pré-vestibulares e preparatórios para o Enem. No campo da pesquisa, integra o grupo "Psicanálise e Teoria Crítica: Teorias da Subjetivação" (CEBRAP/Núcleo Direito e Democracia). Complementando sua formação interdisciplinar, possui especialização em Psicanálise e Análise do Cotidiano pela PUC-SP, além de formação clínica em Psicanálise.


International Schools Partnership – ISP
Para mais informações, acesse o site.


Os sinais da dependência emocional em relacionamentos amorosos

Permanecer em relacionamentos insatisfatórios devido ao medo da solidão pode ter efeitos psicológicos prejudiciais


"Eu não vivo sem você”. Uma frase comum e frequentemente dita em relacionamentos amorosos pode ser um sinal de dependência emocional. Muitas vezes mascarada como carinho e cuidado, a dependência emocional é um problema preocupante que impede o estabelecimento de relações saudáveis. Áurea Chagas, professora de Psicologia do CEUB, faz um alerta sobre os sinais e sintomas desse problema psicológico-afetivo, explicando as possíveis causas e abordagens terapêuticas eficazes para superá-lo.

Sinais comuns, como baixa autoestima, insegurança, medo, necessidade de controle sobre o outro, choro fácil, distúrbios do sono e da concentração, baixa tolerância à frustração, dificuldade para ficar sozinho, dificuldade em tomar decisões e fazer escolhas, são indícios de um parceiro que desenvolve um comportamento dependente. De acordo com a psicóloga, a dependência emocional é uma condição psíquica que se desenvolve ao longo da vida de uma pessoa e pode ser acompanhada por uma série de sintomas.

Segundo a especialista, a dependência emocional pode afetar negativamente a saúde dos indivíduos que se relacionam, pois eles tendem a se concentrar excessivamente em suas próprias necessidades de atenção e aceitação. Ela explica que a pessoa pode desenvolver quadros de depressão, ansiedade, fobias e até sintomas físicos, como dores crônicas. "Isso dificulta a compreensão da subjetividade do outro como um indivíduo autônomo, levando a exigências constantes para reafirmar o amor do parceiro. Essa dinâmica prejudica a qualidade do relacionamento e pode causar sofrimento para ambos os parceiros", destaca.

Quanto às causas veladas da dependência emocional e do medo da solidão, Áurea ressalta que o ambiente inicial dessa pessoa quando criança desempenha um papel crucial. A docente do CEUB revela que se a criança não recebe cuidado emocional adequado durante seu desenvolvimento, ela pode crescer sentindo-se desvalorizada e não reconhecida. “Esses sentimentos de desvalorização podem se manifestar na vida adulta como dependência emocional, tornando a solidão uma experiência aflitiva. A falta de recursos psíquicos para lidar com as emoções e os próprios desejos contribui para essa dificuldade em ficar sozinho", explica a psicóloga.

De acordo com a especialista, as pessoas que desenvolvem dependência emocional, inconscientemente, podem repetir padrões de relacionamento baseados em suas primeiras experiências de amor, também na infância. Ela explica que, se essas experiências foram marcadas por desamparo e baixa autoestima, é comum que busquem parceiros que de alguma forma reproduzam essas dinâmicas. "A repetição desses padrões geralmente leva a relacionamentos insatisfatórios e até abusivos", revela.


Sou dependente emocional. E agora?

De acordo com a especialista, o autoconhecimento é fundamental no processo de superar a dependência emocional, permitindo que a pessoa identifique os fatores que contribuem para sua dependência emocional. O tratamento pode ser feito por meio de várias abordagens psicológicas, desde que com a ajuda de um profissional qualificado. “A dependência emocional é um desafio significativo, mas com o apoio adequado e a busca pelo autoconhecimento, é possível superá-la e desenvolver relacionamentos mais saudáveis e satisfatórios", assegura a professora do CEUB.

No enfrentamento ao medo de estar sozinho em meio à pressão para ter um relacionamento no Dia dos Namorados, Áurea Chagas ressalta que o amor próprio e o bem-estar individual são as únicas coisas que importam. "O fator primordial é sentir-se bem consigo mesmo antes de entrar em um relacionamento". Como forma de exercitar a autoestima e a autoconfiança no enfrentamento, ela sugere que cada indivíduo encontre prazer em atividades que aprecie, como viajar, ler, estudar, nadar ou desafiar-se em novas habilidades.


O “E viveram felizes para sempre” existe?

              

O clima de romance que invadiu o ar na semana dos namorados, nos faz pensar no amor romântico que prega os amores eternos, felizes idealizações e expectativas de cumplicidade infinita.

 

Mas afinal, o sonho de amor intenso, eterno e da construção de família perfeita, do relacionamento de contos de fadas, do “felizes para sempre” existe? É real? E como enfrentar uma separação e o luto de um amor romântico?

 

Reflexões que apontam os indivíduos de que os relacionamentos são construções baseadas em romance, concessões, aprendizados e gerenciamento de emoções. Perfeição?

 

Nada é perfeito, tudo exige empenho, adaptabilidade e empatia. Tanto que, as separações amorosas acabam gerando o chamado luto romântico. Luto do desejo do amor infinito. Mas por que luto?

 

O luto é uma experiência profunda e individual que se define pela capacidade de enfrentamento da partida do outro. É o estado de recolhimento. E esse estado passa por algumas etapas, das quais naturalmente, o ser humano, vivencia conforme sua individualidade.

 

Alguns com mais, ou menos intensidade, conforme a estrutura sentimental de cada um, mas, se cada uma delas for bem elaborada o indivíduo poderá alcançar um equilíbrio consciente, apesar de toda dor envolvida.

 

Assim como o luto normal, a primeira fase do luto romântico é a negação, quando as pessoas negam a situação para combater as emoções que estão experimentando por causa da separação.

 

A raiva é a segunda etapa, que ocorre quando os efeitos da negação começam a se desgastar. A raiva envolve uma efusão de emoções da pessoa que sofre, que pode sentir-se irritada com a pessoa que a deixou ou com o que possa ter perdido.

 

Em seguida, temos a fase de negociação. Uma negociação em que o enlutado experimenta pensamentos do tipo “se apenas…”.

 

Na quarta fase do luto temos a depressão, que surge ao enfrentar os aspectos práticos da perda.

 

E por fim, temos a fase da aceitação, quando após externar sentimentos e angústias, memórias do relacionamento, positivas ou não, a tendência é o aceite de sua condição e a elaboração de estratégias pessoais de adaptação dentro da nova realidade.

 

Resistir e pular etapas pode fazer com que o sofrimento seja prolongado e gere assim, traumas emocionais. Por esse motivo, é importante vivenciar o luto, entregar-se à dor e chorar, se sentir vontade. Respeitando claro, o tempo de cada um.

 

Somos seres individuais e cada um irá agir de uma maneira. A maneira como compreendemos o momento do luto ou da separação, pode ser crucial. Se expressar sobre o luto é importante, já que, psicologicamente, não poder manifestar sua dor é uma agressão e pode alimentar outras dores somatizadas com angústia.

 

Verbalizar é o que vai ajudar a elaborar e a sair do luto romântico mais rápido. É um recurso muito positivo e muito saudável. Falar e ouvir sua dor e se permitir vivenciar um novo relacionamento. Sem se fechar para o amor.

 

Enfim, relacionamentos podem ser eternos ou duradouros sim. No entanto, para serem “felizes para sempre” é preciso entendermos que a felicidade é um estado e não uma condição.

 

Os desafios da relação devem ser encarados, por cada parceiro, com maturidade e ressignificação. Além disso, deve-se ter a consciência de que a elaboração do luto romântico, quando este acontece, leva o tempo interno que cada um necessita.

 

Sabemos que a vida não é um contínuo estático, vivemos em uma constante mudança e o ser humano é capaz de seguir em frente nas situações mais adversas.

 

O importante não é cair, mas voltar a se levantar. Mas, se essa elaboração for difícil, o mais recomendável é buscar desenvolver uma visão mais realista do processo de separação e conseguir dar lugar a uma maior serenidade, através do enfrentamento consciente da nova condição de vida.                 

                   

 

Andrea Ladislau - graduada em Letras e Administração de Empresas, pós-graduada em Administração Hospitalar e Psicanálise e doutora em Psicanálise Contemporânea. Possui especialização em Psicopedagogia e Inclusão Digital. É palestrante, membro da Academia Fluminense de Letras e escreve para diversos veículos. Na pandemia, criou no Whatsapp o grupo Reflexões Positivas, para apoio emocional de pessoas do Brasil inteiro. Instagram: @dra.andrealadislau

 

Desafios em redes sociais e saúde mental: psicóloga alerta para riscos e o papel das escolas e famílias


O avanço de desafios virais nas redes sociais, que muitas vezes incentivam comportamentos de risco, tem acendido um alerta vermelho entre especialistas em saúde e educação. Diante de casos recentes de adolescentes que sofreram danos físicos e emocionais graves por pressão digital, a psicóloga, neuropsicóloga e educadora parental, Sarah Rebeca Barreto, destaca a urgência de um monitoramento ativo e de uma nova postura na orientação doméstica e escolar.

Pesquisas recentes indicam a gravidade do cenário. Dados da Agência Brasil e do Governo Federal apontam que desafios virtuais foram responsáveis por pelo menos 56 mortes de jovens no país na última década. Além disso, levantamentos do IBGE (2026) revelam que cerca de 43,4% das meninas e 20,5% dos meninos em idade escolar já tiveram vontade de se machucar de propósito, evidenciando uma vulnerabilidade que é amplificada pelo ambiente digital.



O Papel da Escola e das Famílias

Para a psicóloga, o combate a esses riscos não deve ser isolado. É fundamental que escola e família atuem em conjunto. Enquanto a escola deve ser um ambiente de observação e contenção de práticas de bullying e ações perigosas, os pais precisam estabelecer uma base de confiança que vá além da restrição tecnológica.

"O bullying e qualquer interação que coloque em risco a integridade física e mental do adolescente devem ser contidos imediatamente. Não se trata apenas de 'coisa de criança', mas de violações que podem ter consequências irreversíveis para o desenvolvimento cerebral e emocional", reforça a neuropsicóloga.

Para a proteção dos jovens, a especialista elenca pontos cruciais que devem ser adotados pelos responsáveis no dia a dia. O estabelecimento de um diálogo aberto é o primeiro passo, criando um canal onde o adolescente se sinta seguro para relatar pressões de grupo sem o medo imediato de punições. Somado a isso, é indispensável a observação atenta de sinais como mudanças súbitas de humor, isolamento excessivo, queda no rendimento escolar ou marcas físicas inexplicáveis, além disso, deve-se incentivar o estímulo à visão crítica sobre a busca por aceitação digital. Por fim, é fundamental que os pais unam o controle parental ao ensino do uso seguro e ético das redes.



Acompanhamento Profissional

Sarah Rebeca Barreto enfatiza que, em muitos casos, o suporte familiar e escolar precisa ser complementado por intervenção especializada. O acompanhamento terapêutico atua na regulação emocional do jovem, ajudando-o a lidar com a pressão de grupo e a construir uma autoestima sólida que não dependa de validações externas perigosas.

"A complexidade desses desafios exige que pais, educadores e profissionais de saúde falem a mesma língua. Ter um amplo acompanhamento em casos como estes é a única forma de garantir que o adolescente processe o trauma e recupere seu bem-estar, evitando que a curiosidade digital se transforme em situações irreversíveis", finaliza a psicóloga.


Fobia social: saiba o que é e como tratar


Especialista explica os impactos que essa condição pode causar na vida daqueles que convivem com ela

A fobia social, também conhecida como transtorno de ansiedade social, é uma condição psicológica caracterizada por um medo intenso e persistente de situações sociais ou de desempenho. O indivíduo teme ser julgado, rejeitado, criticado ou envergonhado pelos outros. Essa patologia é mais que uma simples timidez ou nervosismo em situações sociais normais, ela é uma condição mental que pode impactar significativamente a vida das pessoas.  

Alguns estudos apontam que, na maioria das vezes, a fobia social está associada a algum trauma psicológico, como bullying ou rejeição, desenvolvendo no indivíduo um conjunto de sensações emocionais e físicas. Os sintomas podem variar de pessoa para pessoa, mas, geralmente, são sentimentos de medo ou ansiedade intensa antes, durante ou após situações sociais, sensação de estar constantemente sendo observado e julgado pelos outros e tendência a evitar situações sociais no geral. Além disso, sintomas físicos, como tremores, sudorese, palpitações, náuseas, dificuldade para respirar e rubor facial, também são comuns.  

Segundo Cleyson Monteiro, professor do curso de Psicologia do UNINASSAU - Centro Universitário Maurício de Nassau Paulista, esse transtorno pode, a longo prazo, impactar de diversas formas a vida daqueles que o possuem. “A maioria dos indivíduos tem pensamentos disfuncionais. Eles ocorrem quando a pessoa acredita que nada na sua vida dá certo e que os outros sempre vão julgá-la de forma errada. Por conta disso, ela é totalmente impactada na dinâmica relacional da vida, não evoluindo pessoalmente, profissionalmente e financeiramente, pois a fobia social a deixa imobilizada a ponto de não conseguir se desenvolver de jeito nenhum com a sociedade, gerando um quadro de letargia, no qual vive em uma bolha. Isso provoca quadros de tristeza, melancolia, decepção, frustração, procrastinação, entre outros sentimentos negativos".  

Em relação aos tratamentos, o primeiro passo é procurar profissionais habilitados, de preferência psicoterapeutas especializados na área, em conjunto com bons psiquiatras. Dessa forma, o tratamento será feito de forma conciliadora. A intervenção medicamentosa será de responsabilidade do psiquiatra e o psicoterapeuta irá atuar no trabalho de reversão do quadro de fobia social, buscando reinserir o paciente nas situações de interações sociais.  

“Um exemplo de tratamento que podemos considerar é o humanizado, pois ele traz nas pessoas a capacidade de integração e interação com a sociedade de uma forma sensibilizada, respeitando as crenças limitantes que normalmente impedem o indivíduo de interagir socialmente. O protocolo terapêutico psicológico é fundamental nesse processo de intervenção e gera no paciente a capacidade de lidar com uma nova forma de encarar a vida”, conclui o psicólogo.

 

Estigma de peso afeta até o atendimento em saúde, aponta estudo liderado pela FMUSP

Revisão internacional revela impactos profundos na saúde mental, nas relações sociais e no acesso ao cuidado


A discriminação contra pessoas com sobrepeso e obesidade é praticamente universal na América Latina e no Caribe e produz impactos profundos que vão muito além da aparência. É o que revela uma pesquisa publicada na The Lancet Regional Health – Americas, liderada pela Profa. Dra. Fernanda Baeza Scagliusi, do Centro de Medicina do Estilo de Vida (CMEV) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Grupo de Pesquisa em Alimentação, Corporalidades e Cultura (GPAC) da Faculdade de Saúde Pública da USP (FSP-USP).

A análise mostra que “sobrepeso” e “obesidade” são classificações clínicas, utilizadas para fins de saúde, e não devem ser interpretadas como atributos morais ou comportamentais. Ainda assim, pessoas enquadradas nessas categorias são frequentemente alvo de julgamentos e discriminação.

O estudo analisou 46 pesquisas conduzidas em países da região e identificou que 97,8% delas registram experiências de preconceito relacionadas ao peso. Os resultados indicam associação com sofrimento emocional, isolamento, dificuldades nas relações interpessoais e barreiras no acesso aos serviços de saúde.

“Os dados mostram que essa forma de discriminação não é um fenômeno isolado — ela é estruturante na experiência de vida dessas pessoas. Trata-se de um processo contínuo de desvalorização social, que afeta a identidade, a autoestima e as oportunidades ao longo da vida”, afirma a Profa. Dra. Fernanda Scagliusi.


Bullying e exclusão marcam experiências desde a infância

Entre as manifestações mais recorrentes, o bullying aparece em mais de dois terços dos casos analisados. Apelidos, piadas, insultos e humilhações públicas são frequentes, especialmente entre crianças e adolescentes.

Os dados também mostram que o preconceito está diretamente associado a intenso sofrimento psíquico, incluindo vergonha, ansiedade, tristeza e baixa autoestima. Muitos indivíduos relatam evitar situações sociais e se afastar de atividades cotidianas por medo de julgamento.

“Esse processo cria um ciclo de sofrimento. A pessoa é discriminada, passa a evitar interações sociais, internaliza essas mensagens negativas e, muitas vezes, deixa de buscar ajuda por receio de novas experiências de julgamento”, explica a pesquisadora da FMUSP.


Discriminação chega aos serviços de saúde

Um dos achados mais preocupantes é a presença desse tipo de preconceito dentro dos próprios serviços de saúde. Pacientes relatam desrespeito, julgamentos morais e atendimento inadequado por parte de profissionais.

“Quando esse viés se manifesta no sistema de saúde, ele se torna uma barreira concreta ao cuidado. Muitas pessoas deixam de procurar atendimento ou têm suas queixas reduzidas ao peso corporal, o que compromete diagnósticos e tratamentos”, afirma a professora.


Estereótipos reforçam preconceito e culpabilização

A revisão mostra que a discriminação está fortemente associada a estereótipos morais, que classificam pessoas com sobrepeso como preguiçosas, desleixadas ou sem força de vontade. Essa visão simplificada desconsidera fatores sociais, econômicos, culturais e biológicos que influenciam o peso corporal e contribui para a responsabilização individual.

“Há uma moralização do corpo. O peso passa a ser interpretado como sinal de caráter ou disciplina. Isso desloca o debate de uma questão complexa de saúde para uma lógica de culpa individual, que é equivocada e prejudicial”, destaca a Profa. Dra. Fernanda Baeza Scagliusi.


Mulheres são mais afetadas

O estudo também aponta que esse tipo de estigmatização é mais frequente e intenso entre mulheres, refletindo padrões estéticos mais rígidos e maior pressão social sobre o corpo feminino.

Segundo a pesquisadora, as mulheres estão mais expostas a cobranças estéticas constantes, o que torna esse tipo de preconceito mais profundo e internalizado nesse grupo.


Relações sociais intensificam o fenômeno na região

Embora seja um fenômeno global, a pesquisa mostra que, na América Latina e no Caribe, ele está fortemente ligado às relações sociais e familiares. Comentários de parentes, normas culturais e expectativas sobre aparência têm papel central na forma como a discriminação é vivenciada.

Um dos achados que mais se destacam na região é o papel das relações familiares na reprodução desse tipo de discriminação. A docente explica que, na nossa região, esse processo é profundamente relacional. Ele aparece nas interações cotidianas, muitas vezes de forma naturalizada, o que torna essa experiência mais persistente e difícil de enfrentar. Comentários sobre o corpo, cobranças por perda de peso e críticas dentro do ambiente familiar, muitas vezes vistos como normais, têm um impacto profundo e contínuo na saúde emocional dessas pessoas.


Estigma deve ser tratado como problema de saúde pública

O estudo recomenda o desenvolvimento de políticas e intervenções baseadas em justiça social, abordagem interseccional e adaptação aos contextos culturais locais.

“Combater esse problema é essencial para melhorar a saúde da população. Isso implica rever práticas, formar profissionais e garantir que o cuidado seja baseado em respeito e dignidade. Não se trata apenas de uma questão ética, mas de uma estratégia fundamental para reduzir desigualdades e melhorar os resultados em saúde”, conclui a Profa. Dra. Fernanda Scagliusi.

O artigo completo está disponível na The Lancet Regional Health – Americas (clique aqui)*


A Geração Z é menos inteligente ou apenas desafia conceitos ultrapassados?


Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens. O fenômeno, observado em levantamentos realizados na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa a uma conclusão apressada: a Geração Z estaria se tornando menos inteligente do que as gerações anteriores. 

A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho. 

Durante mais de 120 anos, a principal ferramenta utilizada para medir inteligência foi o teste de quociente de inteligência, o famoso QI. Criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, o instrumento foi desenvolvido para avaliar habilidades relacionadas principalmente ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem. Ao longo do século XX, tornou-se a principal referência para medir capacidades cognitivas e influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e até políticas públicas em diversos países. 

O problema é que o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana. Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e não contempla inúmeras habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social dos indivíduos. 

Essa limitação começou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra Frames of Mind. Resultado de anos de pesquisa, a teoria das inteligências múltiplas propôs uma ruptura com o modelo tradicional ao defender que os seres humanos possuem pelo menos oito formas distintas de inteligência: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, naturalista, interpessoal e intrapessoal. 

A tese foi posteriormente reforçada pelos avanços da neurociência. Se no início do século XX predominava a crença de que a inteligência era praticamente imutável, hoje a ciência reconhece a capacidade de adaptação do cérebro humano por meio da neuroplasticidade, permitindo o desenvolvimento de habilidades ao longo de toda a vida. 

Nesse contexto, surgiram ferramentas capazes de avaliar competências além daquelas tradicionalmente mensuradas pelos testes de QI. Uma das mais conhecidas é o MIDAS (Multiple Intelligences Developmental Assessment Scales), desenvolvido pelo pesquisador norte-americano Branton Shearer, da Universidade de Ohio e colaborador dos estudos de Gardner. O instrumento avalia oito inteligências e 25 habilidades associadas, oferecendo um retrato mais amplo das potencialidades individuais. 

No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome A.M.I. — Avaliação das Múltiplas Inteligências. Após quase uma década de estudos, validações e aplicações em instituições educacionais, a ferramenta passou a ser utilizada para auxiliar escolas na identificação de talentos e competências frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação. 

Os resultados desse novo olhar sobre a inteligência encontram respaldo também no mercado de trabalho. Uma pesquisa realizada pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com a consultoria McKinsey, identificou que aproximadamente 70% das maiores empresas globais já incorporaram critérios relacionados a habilidades socioemocionais nos seus processos de contratação e promoção profissional. 

Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola figuram entre as organizações que passaram a valorizar competências como comunicação, colaboração, adaptabilidade, criatividade, liderança e inteligência emocional em níveis equivalentes ou superiores aos conhecimentos técnicos específicos. 

O levantamento aponta ainda que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos, comunicar ideias com clareza e lidar com mudanças constantes apresentam desempenho superior em ambientes organizacionais cada vez mais impactados pela automação e pela inteligência artificial. 

Os números ajudam a compreender uma aparente contradição. Se os jovens da Geração Z apresentam desempenho inferior em alguns indicadores tradicionais de QI, como explicar o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups que alcançam sucesso antes dos 30 anos? 

A resposta pode estar justamente nas competências que os testes convencionais não conseguem medir adequadamente. 

Trata-se de uma geração que cresceu conectada. Antes mesmo de concluir o ensino médio, muitos jovens já haviam interagido com pessoas de diferentes países, aprendido a produzir conteúdo para audiências globais, administrado comunidades digitais e desenvolvido repertórios de comunicação em ambientes altamente competitivos. 

Essas experiências contribuem para o fortalecimento de inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, áreas cada vez mais valorizadas por organizações que precisam inovar em ritmo acelerado.

Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial altera profundamente o valor relativo das competências humanas. Conhecimentos técnicos podem ser pesquisados em segundos. Cálculos complexos são realizados instantaneamente por sistemas automatizados. Informações estão disponíveis em abundância. 

O diferencial competitivo passa a residir em capacidades que as máquinas ainda não reproduzem plenamente: empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação, visão estratégica e compreensão das relações humanas. 

Diante desse cenário, talvez a pergunta correta não seja se a Geração Z é mais ou menos inteligente do que as gerações anteriores. A questão central é se continuamos utilizando instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente. 

A educação enfrenta um desafio semelhante. Persistir exclusivamente em métricas construídas para medir desempenho acadêmico tradicional pode significar ignorar talentos essenciais para a economia do século XXI. O mercado já percebeu essa mudança. Grandes empresas já adaptaram seus processos. Muitas escolas começam a fazer o mesmo. 

O verdadeiro debate não está na suposta perda de inteligência da nova geração. Está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é muito mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.

  

Roberto Corazza - professor, especialista em Múltiplas Inteligências e idealizador do projeto AMI — Avaliação das Múltiplas Inteligências - no Brasil


Por que, por quê, porque ou porquê? Montamos um guia definitivo para sanar a dúvida número 1 da Língua Portuguesa

 

O domínio da norma culta continua sendo valorizado em contextos acadêmicos e profissionais, especialmente em situações que exigem escrita formal, como vestibulares, concursos e processos seletivos. Entre falantes e produtores de texto, o uso dos chamados “quatro porquês” continua sendo uma das dúvidas mais recorrentes da Língua Portuguesa. 

Para esclarecer essa dúvida de forma didática, Ana Paula Ferreira Chinelato, professora de Língua Portuguesa do Colégio Visconde de Porto Seguro, sistematizou as principais regras de uso dos “quatro porquês” em um guia voltado a estudantes e profissionais que desejam ampliar a segurança e a clareza na escrita formal.

Segundo a professora, a chave para nunca mais errar reside em entender a função gramatical de cada termo dentro da estrutura sintática:

 

1. Por que (separado e sem acento): utilizado em frases interrogativas, diretas ou indiretas, e quando pode ser substituído pela expressão “por qual razão” ou “pelo qual” (e suas variações). Por exemplo: “Por que a educação de qualidade transforma a sociedade?” ou “Os caminhos por que passei foram desafiadores”. 

2. Por quê (separado e com acento): mantém a função de interrogativo, mas ocorre exclusivamente no fim de frases ou isolado. O acento circunflexo é obrigatório devido à tonicidade que a palavra ganha junto à pontuação final. Por exemplo: “Eles não compareceram à aula, e ninguém sabe por quê”. 

3. Porque (junto e sem acento): atua como uma conjunção explicativa ou causal. É a forma utilizada para respostas, justificativas e para introduzir uma causa. Equivale a “pois” ou “visto que”. Por exemplo: “O aluno obteve sucesso porque se dedicou integralmente aos estudos”. 

4. Porquê (junto e com acento): neste caso, a palavra funciona como um substantivo. Ele é obrigatoriamente precedido por um artigo (o, um), numeral ou pronome. Indica o motivo ou a razão de algo. Por exemplo: “Ninguém explicou o porquê de tanta ansiedade antes da prova”. 

Para Ana, a dificuldade com os “quatro porquês” costuma estar menos ligada à memorização de regras e mais à compreensão do funcionamento da língua no contexto da frase. “Quando o estudante entende a função que cada ‘porquê’ exerce no enunciado, a escolha deixa de ser mecânica. O ‘porquê’ substantivado, por exemplo, ocupa um lugar diferente na estrutura da frase em relação ao ‘por que’ interrogativo, e perceber essas relações ajuda muito na construção de sentido”, explica. 

A professora destaca ainda que escrever com clareza envolve compreender os efeitos de sentido produzidos pelas escolhas linguísticas. “Dominar os ‘porquês’ não significa apenas seguir uma convenção gramatical, mas desenvolver uma escrita mais consciente, organizada e adequada aos diferentes contextos de comunicação”, afirma a docente.


A VIDA E O TEMPO


Já ouvi em algum lugar que a Salomão se ofereceu, não sei se antes ou depois das dádivas de sabedoria e conhecimento de seu deus, Jeová, uma taça de vinho. Ele estava ciente de que a bebida era encantada e que se a aceitasse não morreria jamais. O rei sábio não foi afoito.

Salomão ponderou sobre os bens e males de viver para sempre e decidiu não beber o vinho. Eu o beberia. Há quem, depois de morto, terá vida eterna. Não é o meu caso. Não a terei, por isso, beberia qualquer coisa que não me deixasse morrer, ou que me fizesse viver mais e melhor.

Tenho dito, a propósito, que crentes que vão “partir desta para a melhor”, se tivessem compostura e se portassem com coerência, deveriam fazer festa ao enfrentar a morte, e que seus parentes e amigos deveriam expressar alegria com a “partida” do ente que, junto ao “senhor”, seria mais feliz.

Contudo, nem quem crê bota muita fé nessa crença. Em verdade, em verdade, vos digo: todos sabemos que somos condenados à morte, e com data mais ou menos marcada. A datação de validade torna mais desagradável esse assunto de morrer.

Em Mapa da Longevidade – Planeta Sustentável, assim como no IBGE, está tudo assustadoramente previsto: morreremos com 76,6 anos de idade. Dependendo da região, do sexo, da herança genética, da qualidade da vida, um pouquinho mais, um pouquinho menos. Não muito.

Quer dizer: se morrer antes é caipora ou é vida malcuidada, que recursos para estender a existência a ciência já nos dá; se morrer depois é boa sorte ou é um viver com carinho e atenção à própria vida. Epicuro: alguma moderação dos desejos, isso ajuda.

No passado longínquo a vida não era tempo gerenciado, era mero sobreviver: a eventualidade das selvas, os encontros com doenças. Atualmente, quando as drogas nos permitem contribuir com a programação dos genes, chegamos aos 76,6 anos. Nos países capitalistas avançados, a 81,1 anos.

Essa longevidade é recente. Nas condições primitivas durávamos coisa de 17 anos. Em tempos recentes, início do século passado, vivíamos 40 anos; nos meados, menos de 50 anos. Talvez por isso ainda não dominemos bem – não saibamos aproveitar – as conquistas contra o tempo.

Tempo: como é fácil senti-lo, como é difícil defini-lo. Com ajuda do Aurélio, uma definição singela: “A sucessão dos anos, dos dias, das horas etc., que envolve, para o homem, a noção de presente, passado e futuro”.

Eis o que somos: o curso do tempo, que se esvai, e nele o passado, que nos constitui e às nossas emoções; o presente, que torna cada ato irreversível; o futuro, um “lugar” em que colocamos, todos os dias, nossos melhores planos.

Está na moda dizer que não devemos dar muita atenção ao passado nem carecemos de nos preocupar com o futuro. A sabedoria estaria no saber curtir o presente. Esse pensamento me parece de um hedonismo barato.

Claro, ninguém deve parar a vida à espera do devir, porém não é muito lógico querer abstrair da consciência o fato de que haverá o dia seguinte e que eu tenho mais ou menos 76,6 anos de possibilidades de estar nele, com deveres mas também com haveres.

Essa avidez de curtir o momento parece-me o sintoma de uma angústia com duas causas: o desconforto advindo da percepção de que o tempo nos é ininterruptamente subtraído por programação genética; a ansiedade que nos advém do nos sabermos ludibriados pelas formas sociais de viver.

Quero dizer: tomamos conhecimento do “eu existo”, mas percebemos que a existência – tão longa, tão curta – nos está, cada vez mais, sendo tomada por circunstâncias que não controlamos. De outro modo: eu tenho uma vida para viver, mas o meu viver está devorando a minha vida.

Embora as filosofias do tempo, prestigio as filosofias da liberdade: sujeição gratuita a nada. Minha vida, o quanto posso, controlo-a eu. E, sim, Freud já me advertiu: ninguém pode tudo. Também Sartre já me avisou: liberdade não é fazer-se o que se quer, mas escolher entre alternativas possíveis.

Aggiorno La Boétie, Discurso da Servidão Voluntária: rotinas despropositadas, tradições conservadoras, discursos moralistas, devaneios de salvar a História, crenças, superstições. Meu tempo/vida, quero-o livre, sem perder vida/tempo. Chaplin não quis ser imperador, eu não quero ser vassalo.

 

Léo Rosa de Andrade
Doutor em Direito pela UFSC.
Psicanalista e Jornalista


Silêncio nos relacionamentos: quando o que não é dito pesa mais

 

Uma das coisas que mais sufoca e traz divergência nos relacionamentos é a comunicação ou a falta dela. É fato, estamos em 2026, podemos nos comunicar de várias formas, inclusive, temos maior liberdade para isso, mas vivemos especialmente o contrário. Muitas vezes, ao optarmos pelo silêncio, não comunicamos o que é necessário, e o que poderia representar sabedoria, acaba sendo uma atitude imatura.


Nos relacionamentos, costumamos pensar que os conflitos aparecem principalmente nas discussões, nas palavras duras ou nas divergências abertas. No entanto, o que mais pesa em uma relação nem sempre é o que foi dito, mas aquilo que ficou nas entrelinhas, ou ainda, o que se manteve em silêncio pelas mais variadas justificativas. 


Em diversas situações prevalece o medo, seja na tentativa de evitar conflitos, no desejo de evitar discussão, de ser mal interpretado, de ser rejeitado, não ser compreendido ou mesmo pelo hábito de guardar sentimentos.


O problema é que aquilo que não é dito não desaparece. O que não é dito se arrasta; o que arrasta pesa, e o que pesa, afasta. O que se acumula, azeda dentro de nós, gera ressentimento, distância emocional e pode levar a uma sensação de solidão mesmo estando ao lado de alguém.


Por vezes, essas dificuldades podem se justificar por uma série de fatos, histórias e traumas da nossa vida. Contudo se ignoramos o que se passa dentro de nós, nossos desafetos, inquietações, medos, angústias e crises, acabamos por transportar tudo isso para a nossa comunicação.


Refletindo e aprofundando um pouco mais: por que o espaço que deveria ser de acolhimento e compreensão, torna-se um abismo de distância? Por que não encontramos espaço para compartilhar o que precisa ser dito? Quando isso acontece, gera, ao longo do tempo, um peso invisível, acumula frustrações, e provoca desconexão. Com isso, a intimidade entre o casal diminui, a distância aumenta e tudo fica pior à medida que o tempo passa, abrindo espaço para o afastamento, a falta de admiração, entre outras realidades que destroem um relacionamento afetivo.


Há um preço alto nesse processo: quando sentimentos importantes não encontram espaço para serem compartilhados, o relacionamento começa a carregar um peso de frustrações que se acumulam. 


Sempre há uma melhor forma de comunicar qualquer coisa. A impulsividade mata, a indiferença machuca e, neste sentido, encontrar o caminho do equilíbrio é a melhor alternativa. Falar o que sente, mas ter cuidado com a maneira como fala. Zelar por relacionamentos mais saudáveis passa por organizar os pensamentos para falar e gerar espaços seguros para se comunicar. É a sensação da falta de espaço para ser ouvido que machuca.


Relacionamentos não se sustentam apenas pelo que sentimos, mas também pela forma como conseguimos compartilhar essas emoções. E, muitas vezes, uma conversa sincera pode aliviar pesos que o silêncio carrega há muito tempo.


Se você tem vivido essa realidade, reflita sobre como as suas comunicações têm ocorrido no dia a dia. O que tenho deixado de falar? Como as pessoas têm me compreendido? Será que a minha forma de comunicar tem sido a melhor? Deixo aqui uma passagem de Provérbios que pode guiar essa visita ao seu modo de comunicar: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (15,1). 

 

 

Elaine Ribeiro - psicóloga clínica e organizacional e colaboradora da Comunidade Canção Nova. @elaineribeiro_psicologa


Sexo, religião e culpa ainda afetam a vida sexual de milhões de brasileiros

Especialista alerta para impactos que vão da falta de libido à dificuldade de prevenir ISTs 

 

Para muitas mulheres, falar sobre sexo ainda provoca desconforto. Não porque falte informação, mas porque o tema continua cercado por crenças construídas ao longo de gerações. A ideia de que prazer e pecado caminham juntos ainda aparece em consultórios, igrejas e dentro de casa, influenciando relacionamentos e até a forma como as pessoas cuidam da própria saúde.

No Brasil, onde mais de 80% da população se declara cristã (católicos e evangélicos), segundo o Censo 2022 do IBGE, valores religiosos seguem exercendo forte influência sobre a sexualidade. Para a Dra. Íris Bazílio, doutora em Enfermagem, sexóloga e pesquisadora em neurociência, essa herança cultural vai muito além de escolhas individuais e pode provocar consequências emocionais, físicas e até sociais. 


Quando o prazer é associado ao pecado

A ideia de que sexo existe apenas para gerar filhos não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo dos séculos e acabou influenciando a forma como diferentes gerações passaram a enxergar o prazer. Em muitas tradições religiosas, aquilo que fugia da reprodução passou a ser visto com desconfiança, culpa ou até pecado. 

Segundo a especialista, essa mentalidade ainda aparece nos atendimentos clínicos. "Muitas mulheres chegam ao consultório carregando a ideia de que sentir prazer é algo errado. Elas foram ensinadas a servir, mas não a sentir. Com o tempo, essa crença pode se manifestar como falta de libido, dificuldade de atingir o orgasmo e até dor durante as relações", explica.

A Dra. Íris observa que esses bloqueios costumam ter origem em uma combinação de fatores, como educação rígida, traumas familiares, experiências de abuso e forte repressão religiosa.


Silêncio que também afeta a saúde pública

Mas as consequências não ficam restritas ao quarto. A culpa religiosa pode dificultar o uso de contraceptivos, a prevenção de ISTs e até impedir que situações de violência doméstica e abuso sexual sejam reconhecidas e denunciadas. 

Para a Dra. Íris, romper esse silêncio é uma questão de cuidado: "Quando a sexualidade é tratada apenas como pecado ou obrigação, as pessoas deixam de conhecer o próprio corpo, deixam de fazer perguntas e passam a viver relações marcadas pelo medo e pela culpa."


O peso histórico sobre as mulheres

Ao longo da história, as regras ligadas à sexualidade recaíram de forma muito mais rígida sobre as mulheres. Durante séculos, o prazer feminino foi ignorado ou tratado como algo secundário, enquanto a função reprodutiva era colocada em primeiro plano.

Na prática clínica, a Dra. Íris relata que ainda encontra reflexos dessa herança. Muitas pacientes contam nunca terem falado sobre seus desejos ou sequer conhecido plenamente o próprio corpo. "Existe um verdadeiro sepultamento da sexualidade feminina em muitas histórias de vida. São mulheres que passaram décadas priorizando o prazer do outro sem nunca se sentirem autorizadas a viver o próprio prazer."

Os reflexos dessa construção histórica também aparecem nos números. Mais de 30% das mulheres enfrentam dificuldade ou incapacidade de atingir o orgasmo, e parte importante desse cenário está relacionada a fatores psicológicos, vergonha do corpo e medo do julgamento.  


Prazer também é saúde

Na contramão dos discursos que tratam a sexualidade apenas como dever ou reprodução, a especialista defende uma abordagem baseada em evidências científicas. De acordo com a Dra. Íris, o prazer está relacionado à liberação de hormônios ligados ao bem-estar, à redução do estresse e à melhora da qualidade de vida.

Conhecida na internet pela frase "quem está com o orgasmo em dia não quer guerra com ninguém", a Dra. Íris afirma que a sexualidade saudável faz parte do equilíbrio físico e emocional. Para isso, porém, é necessário revisitar crenças que foram construídas ao longo de gerações.

"A comunicação é o primeiro passo. O sexo bom começa na garganta, nos olhos e na capacidade de falar o que sente. Enquanto houver medo de conversar sobre desejo, prazer e afeto, os tabus continuarão ocupando espaço onde deveria existir informação", conclui.


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