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As redes sociais transformaram não apenas a forma como os jovens
se relacionam, mas também a maneira como falam, escrevem e constroem vínculos.
Termos como “delulu”, “farmar aura”, “tankar” e “cringe” passaram a fazer parte
do cotidiano de adolescentes e jovens adultos, especialmente entre integrantes
das gerações Z, nascidos entre 1995 e 2010, e Alpha, nascidos a partir de 2011.
Muito além de modismos passageiros, essas expressões revelam tendências
culturais, referências digitais e mecanismos de identificação social que ajudam
a marcar pertencimento entre grupos.
Para Rodrigo Cunha, professor de Computer Science e Digital
Literacy da Escola Bilíngue Aubrick, de São Paulo (SP), as gírias usadas pelos jovens revelam
muito mais do que modismos passageiros. “Elas funcionam como códigos culturais
de pertencimento e identidade dentro dos ambientes digitais. Muitas surgem em
memes, vídeos curtos, jogos e comunidades online, circulando rapidamente entre
idiomas e plataformas”.
Na opinião do docente, a escola pode transformar esse tema em
oportunidade pedagógica para discutir cidadania digital, respeito, contexto e
responsabilidade. “A mesma expressão pode ser divertida entre amigos,
inadequada em um ambiente formal ou ofensiva dependendo da forma como é usada.
Entender essas expressões é também entender a cultura digital em que os
estudantes estão inseridos. O mais importante é ajudar os alunos a refletirem
sobre como a linguagem circula na internet, como determinados comportamentos
viralizam e como a comunicação digital pode aproximar, excluir, influenciar ou
gerar conflitos”, afirma Rodrigo.
Segundo Thiago Silverio Barbosa,
professor de Língua Portuguesa da Escola Internacional de Alphaville, de Barueri (SP), o uso dessas gírias também funciona
como um processo de reconhecimento entre os próprios jovens. Assim como
acontecia com os “cadernos de perguntas” e abreviações de palavras no antigo
bate-papo do MSN nos anos 2000, as expressões atuais ajudam a criar uma
sensação de pertencimento geracional. “Toda geração cria seus próprios símbolos
de comunicação. Antes eram os emoticons, o internetês ou até as agendas
recheadas de códigos e apelidos. Hoje, as gírias das redes sociais cumprem esse
mesmo papel de aproximação e identificação”, afirma.
Muitas expressões que já foram vistas com estranhamento no passado
acabaram incorporadas ao vocabulário cotidiano e até aos dicionários. Segundo o
professor de português do Brazilian International School (BIS), de São Paulo (SP), Lino Gonzaga de
Oliveira, as línguas estão em constante transformação, e a incorporação de
novas palavras faz parte de um processo natural da comunicação humana. “Existe
um preconceito histórico contra as gírias, como se elas empobrecessem a língua,
mas isso não corresponde à realidade. A linguagem é viva, dinâmica e acompanha
as mudanças sociais. As gírias revelam criatividade, contexto cultural e formas
legítimas de expressão”, observa o docente.
Além disso, compreender o universo linguístico dos adolescentes
também pode ajudar famílias a estreitarem relações e reduzirem choques
geracionais. Em vez de ridicularizar ou ignorar essas expressões, pais, responsáveis
e escolas podem tornar a curiosidade uma ferramenta de aproximação. “Quando os
adultos demonstram interesse genuíno pela forma como os jovens se comunicam,
eles criam pontes importantes de diálogo. Entender as gírias não significa
tentar ‘virar adolescente’, mas sim reconhecer que a linguagem também é uma
forma de afeto, pertencimento e construção de identidade”, diz Carolina
Alvarenga, orientadora educacional do Ensino Médio do colégio Progresso Bilíngue de Campinas (SP).
Glossário: principais gírias usadas pelas novas gerações
A seguir, os docentes elencam as gírias mais comuns entre os
jovens e explicam os significados de cada uma.
10/10: algo perfeito ou excelente. “O restaurante foi experiência 10/10.”
Aesthetic: estética visual harmoniosa e bem definida. “O quarto dela tem uma
aesthetic bem minimalista.”
Aff, veyr: expressão de irritação ou impaciência. “Aff, veyr, perdi o ônibus
de novo.”
Aura / Farmar aura: construir uma imagem admirável ou ganhar respeito social.
“Chegar de moto na escola foi pra farmar aura.”
Baddie: pessoa muito estilosa, bonita e confiante. “Ela chegou toda
produzida, maior baddie.”
Bait: conteúdo feito para provocar ou enganar pessoas. “O título era
bait só pra ganhar clique.”
Bapho: situação chocante ou cheia de repercussão. “Você viu o bapho que
aconteceu na festa?”
Based: pessoa autêntica e segura das próprias opiniões. “Ela falou o que
pensa sem medo, muito based.”
Bed rot: passar muito tempo deitado sem energia. “Depois da semana puxada,
ele ficou no bed rot o domingo inteiro.”
Biscoito / biscoiteiro: pessoa buscando elogios ou validação.
“Postou foto triste só pra ganhar biscoito.”
Boomer: pessoa mais velha ou com mentalidade considerada ultrapassada.
“Meu pai reclamando do Wi-Fi foi muito boomer.”
Brainrot: obsessão exagerada por um tema ou tendência. “Ela tá com brainrot
daquela série.”
Catfish: pessoa que cria identidade falsa na internet. “Ela descobriu que
estava conversando com um catfish.”
Clean girl: estilo minimalista e sofisticado, muito associado a influencers
de beleza. “Ela adotou o visual clean girl com maquiagem leve.”
Cooked: estar em situação complicada. “Sem estudar pra prova? Você tá
cooked.”
Coringar: tem origem no filme “Coringa”, e significa surtar ou perder o
controle emociona. “Depois de tantas provas na semana, ela começou a coringar.”
CPA: abreviação de “se pá”, expressão usada para indicar possibilidade,
dúvida ou algo que talvez aconteça. “CPA eu vá no rolê mais tarde.”
Crash out: explodir emocionalmente ou perder o controle. “Depois da
discussão, ele deu um crash out.”
Cringe: algo considerado vergonhoso, antigo ou fora de sintonia com os
jovens. “Mandar áudio de cinco minutos no grupo é cringe.”
Cunty: pessoa extremamente estilosa, ousada e confiante. “O visual dela
tava muito cunty na festa.”
Deixa ele(a) cozinhar: deixar a pessoa desenvolver uma ideia
que pode dar certo. “A estratégia parece estranha, mas deixa ele cozinhar.”
Delulu: pessoa iludida ou que cria fantasias irreais. “Ele acha que vai
namorar a cantora famosa? Tá muito delulu.”
Dix: conta privada no Instagram para amigos próximos. “Ela postou no
dix, então só os íntimos viram.”
Drop / dropar: lançar algo, “A cantora vai dropar álbum novo amanhã”; ou
abandonar algo, “Ele começou três séries ao mesmo tempo, mas acabou dropando
todas.”
Dump: sequência de fotos aleatórias postadas nas redes sociais. “Ela fez
um dump com fotos da viagem.”
Era: fase específica de algo ou alguém, comportamento ou personalidade.
“A era fitness chegou para ele.”
Fail: indica fracasso ou erro. “A tentativa de surpresa foi um fail
completo.”
Fanfic / Fic: história inventada, exagerada ou improvável. “Essa história parece
muito fanfic de internet.”
Flop / Flopar: algo que fracassou, não fez sucesso ou teve pouca repercussão.
“Ela passou horas editando o vídeo, mas flopou e quase ninguém curtiu.”
Foi de arrasta: algo acabou ou deu muito errado. “O celular caiu na piscina e foi
de arrasta.”
FOMO (Fear of Missing Out): medo de ficar de fora de algo
importante. “Ele saiu mesmo cansado porque bateu FOMO vendo os amigos no rolê.”
Gado demais: pessoa apaixonada; que age de forma excessivamente obediente, sem
senso crítico; ou que idolatra algo ou alguém cegamente. “Ele cancelou tudo por
causa dela. Gado demais.”
Gag / Gag de la gag: algo extremamente chocante, surpreendente ou impressionante.
“Quando ela apareceu com aquela roupa na festa todo mundo ficou gag.”
Goat: o melhor de todos em determinada área. “Pra muita gente,
ele é o GOAT do futebol.”
Hablar: falar verdades ou se posicionar fortemente. “Ela resolveu hablar
sobre o assunto.”
Hitar: fazer sucesso rapidamente. “A música hitou no TikTok.”
Hype: grande expectativa ou popularidade. “O filme criou muito hype
antes da estreia.”
Iconic: algo muito marcante ou memorável. “Aquela cena virou iconic na
internet.”
Jantou: quando alguém vence uma discussão com argumentos fortes. “Ela
respondeu tão bem que simplesmente jantou o oponente.”
JOMO (Joy of Missing Out): sensação boa de ficar em casa e
perder eventos sem culpa. “Todo mundo foi pra festa, mas ela preferiu
descansar. Puro JOMO.”
Juro: expressão usada para reforçar sinceridade ou surpresa. “Juro que
vi isso acontecer.”
Lacre: algo muito impactante ou impressionante. “A resposta dela foi um
verdadeiro lacre.”
Looksmaxxing: tentativa de melhorar ao máximo a aparência. “Ele começou
academia e skincare no projeto looksmaxxing.”
Lowkey: algo dito de forma discreta, sem querer chamar muita atenção ou
sem demonstrar tanta intensidade. Também pode indicar uma opinião “meio
escondida”. “Lowkey, eu gostei mais da primeira opção, mas não queria
contrariar o grupo.”
Moggar: superar alguém visualmente ou socialmente. “Ele chegou tão
arrumado que moggou todo mundo.”
Mood: algo com que alguém se identifica emocionalmente. “Essa frase é
muito meu mood hoje.”
Nerfar: reduzir a força, relevância ou desempenho de algo. “Atualizaram
o jogo e nerfaram o personagem.”
No cap: algo dito sem mentira; falando sério. “No
cap, foi o melhor show que já vi.”
NPC: pessoa considerada sem personalidade ou muito automática. “Ele só
repete as mesmas frases, parece um NPC.”
Old:
ultrapassado ou fora de moda. “Usar essa rede social já é meio old.”
Peak: o auge ou melhor momento de algo ou alguém. “Esse foi o peak da
carreira dele.”
Pick me: pessoa que busca atenção ou aprovação o tempo todo. “Ficar se
diminuindo pra ganhar elogio é muito pick me.”
Plot: reviravolta inesperada. “O plot da história foi descobrir que eles
já se conheciam.”
Pookie: apelido carinhoso e fofo. “Boa noite, pookie.”
POV (Point Of View): conteúdo apresentado de um ponto de vista específico. Termo
usando nas redes sociais para colocar o espectador dentro de uma cena,
simulando como seria enxergar uma situação pelos olhos de outra pessoa. “POV:
você esqueceu o trabalho em casa no dia da entrega.”
PPRT: “papo reto”; falar algo verdadeiro e direto. “PPRT, você precisa
descansar mais.”
Red Flag: sinal de alerta sobre comportamento problemático. “Demorar dias
pra responder mensagem é red flag pra muita gente.”
Rizz: charme ou habilidade para conquistar alguém. “Ele tem muito rizz,
conversa com todo mundo.”
Serviu: entregou algo muito bom ou impressionante. “O cantor serviu
vocais no show.”
Sigma: pessoa independente e autoconfiante. “Ele prefere ficar sozinho e
focado nos objetivos, bem sigma.”
Situationship: relação sem definição clara entre amizade e namoro. Um mix do
inglês “situation” (situação) e “relationship” (relacionamento). “Eles saem
juntos há meses, mas seguem numa situationship.”
Slay: arrasar ou se destacar positivamente. “Ela slayou muito na apresentação.”
Soft block: forma discreta de afastar alguém nas redes sociais, como remover
dos seguidores sem bloquear oficialmente. “Ela deu soft block depois da
discussão.”
Tankar: suportar ou aguentar determinada situação. “Não consigo tankar
três horas dessa aula sem intervalo.”
Tilt: ficar irritado ou perder a paciência. “O jogo travou de novo e ele
tiltou.”
Trend: tendência viral nas redes sociais. “Todo mundo entrou na trend da
semana.”
Vanilla / basic: algo comum, previsível ou sem originalidade. “Pedir sempre o
mesmo sabor é meio vanilla.”
Yapping: falar demais sem parar. “Ele ficou duas horas yapping sobre o
jogo.”
Carolina Alvarenga - pedagoga formada pela UNICAMP, com trajetória de 12 anos na área da Educação, construindo uma experiência ampla e consistente em todos os segmentos escolares, da Educação Infantil ao Ensino Médio. Com experiência em gestão educacional desde 2022, já ocupou cargos de coordenação e orientação em diferentes etapas da educação básica, desenvolvendo um trabalho pautado no cuidado, no desenvolvimento integral dos estudantes e na construção de uma cultura escolar forte e acolhedora. Atualmente, exerce a função de orientadora educacional do Ensino Médio no Colégio Progresso Bilíngue, e de Líder de Salvaguarda da instituição, contribuindo para a formação acadêmica e socioemocional dos estudantes, além da promoção de um ambiente escolar seguro, ético e humanizado.
Lino Gonzaga de Oliveira - graduado em Letras com habilitação em Português, e possui pós-graduação em Língua Portuguesa e Literatura e em Psicopedagogia. Atua há vinte e três anos na área educacional, tendo experiência como docente para o Ensino Fundamental, Médio e Ensino Superior.
Rodrigo Cunha - professor de Computer Science e Digital Literacy na Escola Bilíngue Aubrick (SP). Formado em Análise de Sistemas, com pós-graduação em Machine Learning, atua na integração entre tecnologia, pensamento crítico e formação ética no ambiente escolar. Possui experiência em transformação digital, incluindo vivência internacional de 15 anos na África do Sul, e já atuou como coordenador do curso de Desenvolvimento de Sistemas na Escola Técnica Estadual de São Paulo. Entusiasta da educação digital, desenvolve projetos que conectam pensamento computacional, inteligência artificial e cidadania digital, preparando estudantes para uma atuação crítica, segura e responsável em um cenário de abundância de dados e rápida evolução tecnológica.
Thiago Silvério Barbosa - mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), onde atuou como bolsista CAPES, e graduado em Letras pela mesma instituição. Com 16 anos de experiência docente, atualmente leciona Língua Portuguesa e Convivência Ética na Escola Internacional de Alphaville. Sua trajetória é marcada pela versatilidade pedagógica, incluindo passagens por cursos pré-vestibulares e preparatórios para o Enem. No campo da pesquisa, integra o grupo "Psicanálise e Teoria Crítica: Teorias da Subjetivação" (CEBRAP/Núcleo Direito e Democracia). Complementando sua formação interdisciplinar, possui especialização em Psicanálise e Análise do Cotidiano pela PUC-SP, além de formação clínica em Psicanálise.
International Schools Partnership – ISP
Para mais informações, acesse o site.

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