Início precoce, consumo recorrente e vulnerabilidade familiar exigem atenção; psiquiatra orienta quais mudanças de pensamento e comportamento não devem ser ignoradas.
Mudanças bruscas de comportamento na adolescência nem sempre
são fáceis de interpretar. Isolamento, queda no rendimento escolar,
desconfiança excessiva e alterações no sono podem ter diferentes causas. Quando
ocorrem em um jovem que usa cannabis, sobretudo de forma frequente, esses
sinais precisam de atenção: pesquisas associam o consumo recorrente a um risco
maior de experiências e transtornos psicóticos. Isso não significa que todo
adolescente que usa a substância desenvolverá uma doença psiquiátrica.
Uma crise psicótica pode envolver dificuldade para
distinguir percepções e crenças da realidade. O jovem pode afirmar que está
sendo perseguido sem evidências, ouvir vozes que outras pessoas não ouvem ou
apresentar uma fala difícil de acompanhar. Os sintomas exigem avaliação
profissional, independentemente de a família suspeitar ou não do uso de alguma
substância.
Segundo o médico psiquiatra Dr. Oswaldo Norbim, a
investigação precisa considerar o que mudou, quando os sinais começaram e se
existe relação temporal com o consumo. “Nem toda mudança de humor ou de
comportamento é psicose. Mas, quando o adolescente passa a demonstrar medo
intenso, desconfiança fora do habitual ou relata percepções que outras pessoas
não compartilham, a família não deve esperar que isso desapareça sozinho”,
explica.
A frequência de uso é um dos fatores considerados na
avaliação do risco. Estudos também apontam maior preocupação com o início
precoce e com produtos de alta concentração de tetraidrocanabinol, conhecido
como THC, composto responsável pelos principais efeitos psicoativos da
cannabis. Histórico familiar de transtornos psicóticos pode representar uma
vulnerabilidade adicional. Nenhum desses fatores, isoladamente, permite prever
o que acontecerá com um adolescente específico.
“O erro é tratar o consumo como irrelevante porque o jovem
ainda consegue estudar ou manter parte da rotina. Também não ajuda concluir que
a cannabis explica, sozinha, qualquer sintoma psiquiátrico. Precisamos avaliar
a frequência de uso, as características do produto, o histórico pessoal e
familiar e o conjunto dos sintomas”, afirma Norbim.
Além de alterações nas percepções e no pensamento, a família
pode observar se o adolescente passou a se afastar de amigos, abandonou atividades
habituais ou apresenta dificuldade acentuada de concentração. Esses sinais não
confirmam um diagnóstico, mas justificam uma conversa cuidadosa e a busca por
atendimento quando são persistentes ou se intensificam.
Avaliação precoce ajuda a identificar o
que está acontecendo
A abordagem inicial deve evitar acusações. Perguntas abertas
sobre como o jovem está se sentindo, o que tem consumido e com que frequência
podem facilitar o diálogo. Na avaliação, o profissional também investigará
outras possíveis causas dos sintomas, o uso de diferentes substâncias e a
necessidade de acompanhamento para o adolescente e sua família.
Se houver confusão intensa, agitação importante, risco de
ferir a si mesmo ou a outras pessoas, ou perda evidente de contato com a realidade,
a orientação é procurar atendimento de urgência. Fora dessas situações,
mudanças preocupantes de pensamento ou comportamento também merecem avaliação,
sem aguardar uma crise mais grave.
“Quanto antes entendermos o que está acontecendo, mais cedo
podemos orientar a família e cuidar do adolescente. O objetivo não é rotulá-lo
pelo uso da substância, mas reconhecer os sinais, interromper situações de
risco e oferecer o tratamento adequado quando necessário”, conclui o Dr.
Oswaldo Norbim.
Fonte: Dr. Oswaldo Norbim — médico psiquiatra.
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