A
saúde mental de crianças, adolescentes e jovens brasileiros ganha novos
contornos diante de números recentes que apontam para a presença cada vez mais
precoce de ansiedade e outros transtornos mentais. Dados divulgados neste ano pela Pesquisa Nacional de Saúde
do Escolar (PeNSE), conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE), revelam que estudantes de 13 a 17 anos ouvidos em escolas
públicas e privadas de todo o país, 18,5% afirmaram pensar, sempre ou na
maioria das vezes, que a vida não vale a pena ser vivida.
As estatísticas
mostram ainda que 42,9% dos alunos relatam sentir irritação, nervosismo ou mau
humor frequente por qualquer motivo, enquanto quase três em cada dez estudantes
convivem com sentimentos constantes de tristeza. A médica
psiquiatra da Infância e Adolescência da Afya Educação Médica Montes Claros,
Dra Carla Caroline Vieira, explica que a
adolescência é, por natureza, um período de turbulência psíquica, de busca por
identidade, de elaboração dos lutos pelas perdas da infância e de
experimentações.
“É esperado que
o jovem teste limites, tenha oscilações de humor, queira se isolar um pouco
mais ou questione regras familiares. A diferença para um transtorno mental está
na intensidade, frequência e duração dessas manifestações, além do impacto na
vida do adolescente. Uma reação comum tende a ser passageira e ligada a um
evento específico, enquanto o transtorno mental envolve um sofrimento mais
persistente e paralisante. A tristeza deixa de ser apenas um dia ruim, e a irritabilidade
pode se tornar um estado constante, comprometendo o diálogo e a convivência”.
A pesquisa do IBGE
também apontou que as questões emocionais é alimentada por fatores de
vulnerabilidade no ambiente social e familiar, com 26,1% dos jovens declarando
sentir que ninguém se preocupa com eles, mais de um terço relatou
desentendimento ou falta de compreensão por parte dos pais sobre seus
problemas, e um em cada cinco afirmou ter sofrido agressão física por parte de
um responsável.
“Quando o
ambiente familiar e comunitário deixa de ser um porto seguro e passa a ser
fonte de ameaça ou desamparo, o cérebro em desenvolvimento se adapta à
sobrevivência, podendo gerar hipervigilância, medo crônico e desregulação
emocional. A falta de apoio faz com que o jovem enfrente dores imensas de forma
solitária. Situações de violência, seja física, psicológica ou decorrente de
negligência, rompem o vínculo de confiança essencial para um desenvolvimento
psíquico saudável. Muitas vezes, o sofrimento mental é a linguagem possível que
o corpo encontra para denunciar que o ambiente ao redor se tornou
insustentável”, complementa a médica.
Consequências
e falta de bem-estar
Neste ano foi
publicado na revista The Lancet Regional Health Américas e baseado em
estimativas do estudo Global Burden of Disease (GBD), uma pesquisa que indica
que a ansiedade se tornou a principal causa de incapacidade não fatal no Brasil
desde a primeira infância, liderando esse ranking na faixa dos 5 aos 9 anos e
mantendo a liderança em todas as etapas até a vida adulta jovem.
Ao todo, estima
que 15,6 milhões de brasileiros entre 5 e 29 anos, equivalente a 20,91% dessa
população, vivem com pelo menos um transtorno mental. O levantamento aponta que
a prevalência cresce de maneira contínua com a idade, surgindo com 12,06% entre
crianças de 5 a 9 anos, evolui gradativamente e alcança 24,95% no grupo de 25 a
29 anos. Paralelamente, cerca de 2,5 milhões de jovens nessa mesma amplitude
etária preenchem critérios diagnósticos para transtorno por uso de substâncias,
como álcool e outras drogas.
A psicanalista e
psicóloga da Afya Contagem, Dra Andréa Chicri Torga Matiassi, comenta que a criança não deve ser compreendida apenas como alguém que
“tem ansiedade”, mas como um sujeito que pode expressar, por meio do corpo e do
comportamento, algo que ainda não consegue elaborar ou colocar em palavras. A
ansiedade pode surgir diante de separações, perdas, mudanças, conflitos
familiares ou expectativas excessivas. Por isso, mais do que eliminar
rapidamente o sintoma, é importante escutar o que ele comunica sobre a
experiência da criança e o contexto em que ela vive.
“O termo “produtividade” para as crianças também precisa ser utilizado com cuidado, pois elas não devem ser avaliadas pelo desempenho. A ansiedade pode afetar a capacidade de aprender, brincar, estabelecer vínculos e participar das atividades próprias da idade, comprometendo atenção, memória, sono e autonomia. Na escola, a criança pode evitar tarefas por medo de errar, buscar confirmação constante ou apresentar redução no envolvimento e na aprendizagem. Em alguns casos, pode parecer desinteressada ou desobediente quando, na realidade, está paralisada pelo medo. Assim, os transtornos de ansiedade podem interferir de forma significativa na vida escolar e nas relações sociais”.
Dra Andréa Chicri ressalta que uma experiência que pode parecer simples para um adulto pode ter um peso maior para uma criança ou adolescente. A presença de adultos disponíveis para escutar, uma rotina equilibrada, momentos de descanso e lazer, vínculos familiares seguros e relações positivas na escola contribuem para a proteção da saúde mental. “É importante que a criança ou o adolescente perceba que pode falar sobre seus medos e dificuldades sem ser criticado, apressado, julgado ou desvalorizado. Muitas vezes, sentir-se escutado e acolhido é o primeiro passo para compreender e enfrentar a ansiedade”, conclui a especialista da Afya.

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