Apresentada nesta semana em congresso europeu, combinação experimental de tirzepatida e eloralintida chama atenção pelo potencial no tratamento da obesidade, mas efeitos colaterais ainda preocupam
Uma combinação experimental de dois medicamentos levou a uma perda
média de até 23% do peso corporal em pessoas com obesidade e diabetes tipo 2 em
menos de um ano. O resultado foi apresentado pela farmacêutica Eli Lilly
durante o 62nd Annual Meeting of the European Association for the Study of
Diabetes (EASD), esta semana em Milão, na Itália.
A EloraTZP combina a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, com
a eloralintida, uma substância ainda experimental que imita a ação da amilina,
hormônio produzido pelo pâncreas depois das refeições. O resultado está entre
os maiores já observados nesse grupo de pacientes, mas ainda precisa ser
confirmado em estudos maiores e mais longos.
"É um resultado que chama atenção porque estamos falando de
um grupo em que a perda de peso costuma ser mais difícil. A combinação parece
potencializar mecanismos diferentes de controle do apetite", explica o
endocrinologista e metabologista Dr. Ramon Marcelino, doutor em Endocrinologia
pela Faculdade de Medicina da USP e membro do corpo clínico do Hospital
Sírio-Libanês.
A proposta da EloraTZP é justamente combinar mecanismos distintos.
A tirzepatida atua por uma via já utilizada nos tratamentos atuais, enquanto a
eloralintida imita a amilina, que participa da sinalização de saciedade por um
caminho diferente.
"É como juntar duas vias que ajudam o organismo a entender
que já recebeu alimento e que não precisa continuar buscando comida. A aposta é
que esses mecanismos, atuando juntos, tenham um efeito maior do que cada um
isoladamente", afirma Ramon.
A estratégia ganha força com resultados de outro medicamento
experimental. A CagriSema, também baseada em um mecanismo relacionado à
amilina, levou a uma perda de 12,4% do peso, contra 9,1% com tirzepatida
isoladamente, em pessoas com diabetes, em pouco mais de um ano.
Um novo rival para a retatrutida
O resultado também coloca a EloraTZP em comparação com a
retatrutida, outro medicamento experimental da Eli Lilly. No mesmo congresso, a
substância apresentou perda de peso de cerca de 21% em pessoas com diabetes, em
um estudo de um ano e meio.
A EloraTZP alcançou percentual maior em menos tempo e também
apresentou melhor controle do açúcar no sangue. A comparação, porém, deve ser
feita com cautela, já que os resultados vêm de estudos diferentes.
"Não é possível dizer, apenas comparando esses números, que
um medicamento é definitivamente mais potente. Para isso, seria necessário colocar
os dois tratamentos frente a frente em um mesmo estudo", ressalta o
endocrinologista.
A retatrutida tem, por outro lado, dados de um estudo maior e mais
avançado, com mais de mil pacientes. Na dose máxima, menos de um em cada 12
participantes abandonou o tratamento por efeitos colaterais.
Potência versus tolerabilidade
Na EloraTZP, o principal ponto de atenção está nos efeitos
gastrointestinais. Náuseas e vômitos foram comuns, principalmente no início do
tratamento. Na dose mais alta, mais de um em cada quatro participantes
abandonou o estudo por causa dos efeitos adversos.
A Eli Lilly avalia que aumentar a dose mais lentamente pode ajudar
a reduzir o problema, mas essa hipótese ainda precisa ser comprovada.
"De nada adianta um medicamento produzir uma perda de peso
muito grande se os efeitos adversos impedirem o paciente de continuar usando. A
eficácia precisa caminhar junto com a tolerabilidade", afirma Ramon.
A necessidade de novas opções está relacionada justamente à
resposta variável aos tratamentos. Nos grandes estudos, cerca de um em cada dez
pacientes sem diabetes não conseguiu perder nem 5% do peso. Entre pessoas com
diabetes, essa proporção variou de um em cada seis a quase um em cada três,
dependendo do medicamento.
"A obesidade é uma doença complexa, e nenhum medicamento
único vai funcionar da mesma forma para todos. Cada nova opção pode representar
uma alternativa para quem ainda não encontrou uma resposta adequada ao
tratamento", diz o médico.
Quando chega ao Brasil?
Por enquanto, nada muda para os pacientes brasileiros. A
eloralintida ainda é experimental e não tem aprovação da Anvisa nem de outros
países. Os estudos finais estão em andamento e devem levar alguns anos.
"Os resultados são promissores, mas ainda estamos falando de
uma etapa de desenvolvimento clínico. É preciso confirmar esses achados em
pesquisas maiores e entender melhor a relação entre perda de peso, segurança e
tolerabilidade", conclui Ramon.
Dr. Ramon Marcelino - referência em endocrinologia e medicina do estilo de vida. Atua no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HCFMUSP) e integra o corpo clínico do Hospital Sírio-Libanês. Em seu perfil no Instagram @dr.ramonmarcelino, compartilha conteúdos confiáveis sobre saúde, metabolismo e os avanços no tratamento da obesidade.

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