Com
menos jovens entrando na docência e professores sobrecarregados, Sabrina
Carneiro, fundadora da Parenting Solutions, chama atenção para a importância de
fortalecer os educadores e construir uma relação de parceria com as famílias
“Seu filho teve um
problema hoje.” A ligação da escola para falar sobre o comportamento de uma
criança costuma gerar preocupação imediata. O que aconteceu? Por que ele fez
isso? O que precisamos fazer agora?
Para Sabrina
Carneiro, fundadora da Parenting Solutions, que tem como base o conceito de Parenting
and Family Leadership, esse momento também expõe uma questão maior: como
família e escola têm dividido a responsabilidade pela educação das crianças.
O tema ganha
relevância diante do cenário da educação brasileira. A segunda edição da
pesquisa Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no
Brasil, do Instituto Semesp, mostrou que o número de professores do Ensino
Médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025, enquanto o número de
docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. Uma projeção anterior do instituto
apontou a possibilidade de um déficit de 235 mil professores na educação básica
até 2040.
Para Sabrina,
fortalecer o professor também passa por prepará-lo para demandas que ganharam
espaço nas salas de aula nos últimos anos. “Hoje falamos muito mais sobre
desenvolvimento infantil, neurociência, saúde mental e regulação emocional. Não
podemos esperar que os professores saibam lidar com todas essas questões sem
formação e suporte. Precisamos dar ferramentas para que consigam entender
melhor o que está por trás de determinados comportamentos”, afirma.
Nem tudo é
mau comportamento
Uma criança que
interrompe a aula, não consegue permanecer sentada, reage intensamente a uma
frustração ou apresenta dificuldade para seguir uma orientação pode precisar de
limites. Mas é importante considerar também sua idade, desenvolvimento e o
contexto em que aquele comportamento acontece.
“O comportamento
comunica alguma coisa. Isso não significa permitir tudo ou retirar a autoridade
do professor. Quanto mais o adulto conhece sobre infância e desenvolvimento,
mais recursos tem para estabelecer limites de forma adequada”, explica Sabrina.
Em algumas
situações, a criança ainda não desenvolveu completamente a capacidade de se
regular sozinha e precisa da corregulação de um adulto preparado. Para Sabrina,
compreender isso ajuda a evitar que toda dificuldade seja interpretada apenas
como desobediência ou falta de limites.
Também evita que a
conversa entre família e escola comece pela culpa. “Alguns pais recebem uma
queixa como se estivessem sendo julgados pela forma como educam seus filhos.
Outros entram na defensiva e questionam a escola. Também pode acontecer de a
escola interpretar tudo como falta de limite em casa. Quando começamos
procurando culpados, fica muito mais difícil entender o que está acontecendo.”
A criança não
deixa sua história na porta da escola
Sono ruim,
separação dos pais, mudança de casa ou de país, doenças na família, nascimento
de um irmão e alterações importantes na rotina podem aparecer no comportamento
infantil, mesmo quando a criança ainda não consegue explicar o que está
sentindo.
Por isso, a troca
de informações é fundamental. A família precisa comunicar à escola mudanças
relevantes na vida da criança e também estar aberta ao que professores observam
em sala de aula. “Uma criança pode se comportar de formas diferentes dependendo
do ambiente e da maneira como os adultos respondem. Isso não significa
necessariamente que alguém esteja fazendo algo errado. Precisamos juntar essas
informações para enxergar melhor aquela criança”, diz Sabrina.
Para ela, é
preciso substituir a transferência de responsabilidade pela parceria. Os pais
não podem delegar à escola tudo o que acontece naquele ambiente, assim como uma
dificuldade observada em sala não deve ser simplesmente devolvida à família
para que seja resolvida em casa.
O professor
também precisa de suporte
Saúde mental,
educação socioemocional, neurociência e desenvolvimento infantil são temas cada
vez mais presentes no debate sobre educação, mas nem todos os professores
tiveram contato com esses conteúdos durante sua formação.
Isso pode fazer
com que algumas dificuldades sejam vistas exclusivamente como questões
disciplinares. “Às vezes, esperamos da criança uma capacidade de tolerância,
autorregulação ou controle que ainda está sendo desenvolvida. A regra continua
existindo. O que muda é a forma como o adulto ajuda aquela criança a chegar ao
comportamento esperado”, explica Sabrina.
Segundo ela,
priorizar a educação socioemocional também exige preparar quem educa. “Não
adianta falar sobre emoções apenas com as crianças. O professor precisa ter
recursos para conduzir uma crise, uma frustração ou um comportamento
desafiador.”
Sete
perguntas para fazer quando a escola liga
Em vez de encarar
a ligação como uma reclamação que precisa ser resolvida imediatamente, Sabrina
recomenda buscar informações que ajudem a compreender o episódio:
1. O que exatamente
aconteceu? Peça exemplos
concretos, evitando descrições genéricas como “ele está impossível” ou “ela não
respeita ninguém”.
2. Quando
isso costuma acontecer?
Existe alguma atividade, horário, disciplina ou momento específico em que a
dificuldade aparece?
3. O que
aconteceu antes? Conhecer o
contexto pode ajudar a identificar gatilhos e padrões.
4. Como os
adultos reagiram? A resposta
de quem estava presente também faz parte da situação.
5. Esse
comportamento aparece em outros ambientes? Comparar escola, casa e outros espaços pode trazer
informações importantes.
6. O que já
foi tentado? Vale entender
quais estratégias foram adotadas e como a criança respondeu.
7. Como
família e escola podem acompanhar isso juntas? Se a situação se repete, é importante combinar
estratégias e manter a troca de informações.
Depois da
ligação, ouvir antes de punir
Ao chegar em casa,
muitos pais sentem que precisam tomar uma providência imediata. Sabrina
recomenda primeiro ouvir a criança e entender como ela percebeu o episódio, sem
que isso signifique desconsiderar o relato da escola.
“Ouvir não é
passar a mão na cabeça. Uma criança pode estar com raiva e não poder bater.
Pode estar frustrada e não poder ofender. Pode não gostar de uma regra e ainda
precisar cumpri-la. O adulto continua responsável por conduzir a situação.”
O relato da
criança traz uma perspectiva, o professor traz outra e a família conhece
aspectos da vida daquele filho que talvez a escola desconheça. O objetivo é
reunir essas informações para decidir como agir.
Informação
precisa virar prática
Para Sabrina, o
maior acesso a conteúdos sobre parentalidade, neurociência e desenvolvimento
infantil trouxe avanços, mas informação, sozinha, não prepara um adulto para
lidar com situações reais.
É nesse ponto que
se concentra o trabalho da Parenting Solutions: preparar pais, professores e
instituições para compreender a infância e transformar conhecimento em
estratégias aplicáveis à realidade de cada criança. “Ler sobre desenvolvimento
infantil é diferente de saber o que fazer quando uma criança está em crise,
quando um professor precisa conduzir uma turma inteira ou quando família e
escola estão enxergando a mesma situação de formas diferentes. Esse
conhecimento precisa chegar aos adultos, mas também precisa ser colocado em
prática.”
A crise da
carreira docente envolve questões estruturais que vão muito além da relação com
as famílias, incluindo remuneração, condições de trabalho, violência no
ambiente escolar e saúde mental. Ainda assim, Sabrina acredita que reconstruir
a parceria entre pais e professores pode ajudar a reduzir uma parte da pressão
colocada sobre quem educa.
“Os pais não podem
entregar a criança na escola e esperar que a escola resolva tudo. Da mesma
forma, a escola não pode transformar toda dificuldade em uma reclamação que
volta para casa. Família e escola têm papéis diferentes, mas estão cuidando da
mesma criança. Precisamos recuperar essa parceria”, conclui Sabrina Carneiro,
fundadora da Parenting Solutions.
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