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sábado, 3 de outubro de 2026

A escola ligou. E agora? Em meio ao risco de apagão de professores, relação entre família e escola precisa mudar

 

Com menos jovens entrando na docência e professores sobrecarregados, Sabrina Carneiro, fundadora da Parenting Solutions, chama atenção para a importância de fortalecer os educadores e construir uma relação de parceria com as famílias


“Seu filho teve um problema hoje.” A ligação da escola para falar sobre o comportamento de uma criança costuma gerar preocupação imediata. O que aconteceu? Por que ele fez isso? O que precisamos fazer agora?

Para Sabrina Carneiro, fundadora da Parenting Solutions, que tem como base o conceito de Parenting and Family Leadership, esse momento também expõe uma questão maior: como família e escola têm dividido a responsabilidade pela educação das crianças.

O tema ganha relevância diante do cenário da educação brasileira. A segunda edição da pesquisa Apagão dos Professores: o desafio da renovação dos professores no Brasil, do Instituto Semesp, mostrou que o número de professores do Ensino Médio com até 24 anos caiu 31,1% entre 2015 e 2025, enquanto o número de docentes com 60 anos ou mais cresceu 104,5%. Uma projeção anterior do instituto apontou a possibilidade de um déficit de 235 mil professores na educação básica até 2040.

Para Sabrina, fortalecer o professor também passa por prepará-lo para demandas que ganharam espaço nas salas de aula nos últimos anos. “Hoje falamos muito mais sobre desenvolvimento infantil, neurociência, saúde mental e regulação emocional. Não podemos esperar que os professores saibam lidar com todas essas questões sem formação e suporte. Precisamos dar ferramentas para que consigam entender melhor o que está por trás de determinados comportamentos”, afirma.

 

Nem tudo é mau comportamento

Uma criança que interrompe a aula, não consegue permanecer sentada, reage intensamente a uma frustração ou apresenta dificuldade para seguir uma orientação pode precisar de limites. Mas é importante considerar também sua idade, desenvolvimento e o contexto em que aquele comportamento acontece.

“O comportamento comunica alguma coisa. Isso não significa permitir tudo ou retirar a autoridade do professor. Quanto mais o adulto conhece sobre infância e desenvolvimento, mais recursos tem para estabelecer limites de forma adequada”, explica Sabrina.

Em algumas situações, a criança ainda não desenvolveu completamente a capacidade de se regular sozinha e precisa da corregulação de um adulto preparado. Para Sabrina, compreender isso ajuda a evitar que toda dificuldade seja interpretada apenas como desobediência ou falta de limites.

Também evita que a conversa entre família e escola comece pela culpa. “Alguns pais recebem uma queixa como se estivessem sendo julgados pela forma como educam seus filhos. Outros entram na defensiva e questionam a escola. Também pode acontecer de a escola interpretar tudo como falta de limite em casa. Quando começamos procurando culpados, fica muito mais difícil entender o que está acontecendo.”

 

A criança não deixa sua história na porta da escola

Sono ruim, separação dos pais, mudança de casa ou de país, doenças na família, nascimento de um irmão e alterações importantes na rotina podem aparecer no comportamento infantil, mesmo quando a criança ainda não consegue explicar o que está sentindo.

Por isso, a troca de informações é fundamental. A família precisa comunicar à escola mudanças relevantes na vida da criança e também estar aberta ao que professores observam em sala de aula. “Uma criança pode se comportar de formas diferentes dependendo do ambiente e da maneira como os adultos respondem. Isso não significa necessariamente que alguém esteja fazendo algo errado. Precisamos juntar essas informações para enxergar melhor aquela criança”, diz Sabrina.

Para ela, é preciso substituir a transferência de responsabilidade pela parceria. Os pais não podem delegar à escola tudo o que acontece naquele ambiente, assim como uma dificuldade observada em sala não deve ser simplesmente devolvida à família para que seja resolvida em casa.

 

O professor também precisa de suporte

Saúde mental, educação socioemocional, neurociência e desenvolvimento infantil são temas cada vez mais presentes no debate sobre educação, mas nem todos os professores tiveram contato com esses conteúdos durante sua formação.

Isso pode fazer com que algumas dificuldades sejam vistas exclusivamente como questões disciplinares. “Às vezes, esperamos da criança uma capacidade de tolerância, autorregulação ou controle que ainda está sendo desenvolvida. A regra continua existindo. O que muda é a forma como o adulto ajuda aquela criança a chegar ao comportamento esperado”, explica Sabrina.

Segundo ela, priorizar a educação socioemocional também exige preparar quem educa. “Não adianta falar sobre emoções apenas com as crianças. O professor precisa ter recursos para conduzir uma crise, uma frustração ou um comportamento desafiador.”

 

Sete perguntas para fazer quando a escola liga

Em vez de encarar a ligação como uma reclamação que precisa ser resolvida imediatamente, Sabrina recomenda buscar informações que ajudem a compreender o episódio:

1. O que exatamente aconteceu? Peça exemplos concretos, evitando descrições genéricas como “ele está impossível” ou “ela não respeita ninguém”.

2. Quando isso costuma acontecer? Existe alguma atividade, horário, disciplina ou momento específico em que a dificuldade aparece?

3. O que aconteceu antes? Conhecer o contexto pode ajudar a identificar gatilhos e padrões.

4. Como os adultos reagiram? A resposta de quem estava presente também faz parte da situação.

5. Esse comportamento aparece em outros ambientes? Comparar escola, casa e outros espaços pode trazer informações importantes.

6. O que já foi tentado? Vale entender quais estratégias foram adotadas e como a criança respondeu.

7. Como família e escola podem acompanhar isso juntas? Se a situação se repete, é importante combinar estratégias e manter a troca de informações.

 

Depois da ligação, ouvir antes de punir

Ao chegar em casa, muitos pais sentem que precisam tomar uma providência imediata. Sabrina recomenda primeiro ouvir a criança e entender como ela percebeu o episódio, sem que isso signifique desconsiderar o relato da escola.

“Ouvir não é passar a mão na cabeça. Uma criança pode estar com raiva e não poder bater. Pode estar frustrada e não poder ofender. Pode não gostar de uma regra e ainda precisar cumpri-la. O adulto continua responsável por conduzir a situação.”

O relato da criança traz uma perspectiva, o professor traz outra e a família conhece aspectos da vida daquele filho que talvez a escola desconheça. O objetivo é reunir essas informações para decidir como agir.

 

Informação precisa virar prática

Para Sabrina, o maior acesso a conteúdos sobre parentalidade, neurociência e desenvolvimento infantil trouxe avanços, mas informação, sozinha, não prepara um adulto para lidar com situações reais.

É nesse ponto que se concentra o trabalho da Parenting Solutions: preparar pais, professores e instituições para compreender a infância e transformar conhecimento em estratégias aplicáveis à realidade de cada criança. “Ler sobre desenvolvimento infantil é diferente de saber o que fazer quando uma criança está em crise, quando um professor precisa conduzir uma turma inteira ou quando família e escola estão enxergando a mesma situação de formas diferentes. Esse conhecimento precisa chegar aos adultos, mas também precisa ser colocado em prática.”

A crise da carreira docente envolve questões estruturais que vão muito além da relação com as famílias, incluindo remuneração, condições de trabalho, violência no ambiente escolar e saúde mental. Ainda assim, Sabrina acredita que reconstruir a parceria entre pais e professores pode ajudar a reduzir uma parte da pressão colocada sobre quem educa.

“Os pais não podem entregar a criança na escola e esperar que a escola resolva tudo. Da mesma forma, a escola não pode transformar toda dificuldade em uma reclamação que volta para casa. Família e escola têm papéis diferentes, mas estão cuidando da mesma criança. Precisamos recuperar essa parceria”, conclui Sabrina Carneiro, fundadora da Parenting Solutions.


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