Estudo com camundongos feito na
Unicamp mostra que sete dias de treinamento de força foram suficientes para
ativar os mecanismos de quebra de lipídios
Os pesquisadores ressaltam que os achados
do estudo ainda são experimentais
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Sete dias de musculação foram
suficientes para aumentar a queima de gordura visceral de camundongos obesos,
mesmo antes de qualquer redução de peso aparecer na balança. Em um experimento
realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), pesquisadores
observaram que o curto período de treinamento de força ativou mecanismos
envolvidos na quebra da gordura, reduziu o tamanho das células adiposas e
diminuiu a adiposidade ao redor do intestino dos animais.
O estudo, publicado na revista Life
Sciences, buscou entender o que acontece com o tecido adiposo logo no
início da prática de musculação, antes que o emagrecimento possa interferir nos
resultados. O trabalho, apoiado pela FAPESP,
integra uma linha de pesquisa que há quase 20 anos investiga como o exercício
físico interfere na saúde metabólica. Desde 2007, o grupo estuda os mecanismos
envolvidos nos efeitos da atividade física sobre condições como obesidade e
diabetes. Com o avanço das técnicas de análise molecular, os pesquisadores
passaram a investigar não apenas os efeitos visíveis do exercício, como perda
de peso ou ganho de massa muscular, mas também as mudanças que começam a
ocorrer dentro das células.
“A gente sempre ouviu falar que
fazer exercício físico queima gordura e emagrece. Mas poucas vezes paramos para
pensar como isso acontece, quanto tempo de exercício é necessário e o que
significa essa queima de gordura”, afirma Leandro Moura, médico e
profissional de educação física, professor da Unicamp, autor do estudo e
coordenador do Exercise Cell Biology Lab (Ecebil), grupo dedicado ao estudo das
adaptações fisiológicas, metabólicas e biomoleculares induzidas pelo exercício
físico e pelo esporte.
O
treinamento
Os testes foram conduzidos com
camundongos machos. Um grupo recebeu alimentação padrão e outro foi submetido a
uma dieta rica em gordura para induzir a obesidade. Depois, os animais obesos
foram subdivididos em dois grupos: um permaneceu sedentário e o outro iniciou o
treinamento de força. A dieta rica em gordura foi mantida durante o período de
exercício, justamente para que a única diferença entre os dois grupos fosse a
prática de atividade física, de modo a isolar os efeitos da musculação.
Para simular o treino de força, os camundongos tinham de subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga na cauda. As sessões foram realizadas com 70% da capacidade máxima e incluíram 20 subidas, com intervalos de 60 a 90 segundos. Ao todo, foram sete sessões. “A gente calculou quanto de carga cada camundongo conseguia carregar subindo uma escada. Obviamente, não dá para reproduzir os mesmos exercícios de musculação feitos por uma pessoa, mas conseguimos provocar no organismo um esforço semelhante ao da musculação, com uma contração mais intensa, mimetizando bem uma sessão de musculação para humanos”, explica Moura.
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| Para simular o treino de força, os camundongos tinham de subir uma escada de 70 centímetros carregando uma carga na cauda foto: Leandro Moura) |
O foco das análises foi o tecido adiposo mesentérico, a camada de gordura que fica presa ao redor dos intestinos. Segundo Moura, esse tecido é o principal representante do que chamamos de “gordura visceral” nos seres humanos – aquela que se acumula profundamente no abdômen, entre os órgãos vitais. Esse tecido gorduroso é muito mais prejudicial à saúde do que o subcutâneo (localizado logo abaixo da pele). Quando em excesso, a gordura visceral libera substâncias inflamatórias diretamente na corrente sanguínea, o que altera o metabolismo do corpo inteiro.
O pesquisador explicou que a
escolha de acompanhar o impacto da musculação nos animais por apenas sete dias
foi proposital. Eles queriam observar o que a musculação fazia no tecido
adiposo antes de qualquer perda de peso, já que o próprio emagrecimento
desencadeia diversos benefícios no organismo que poderiam confundir os efeitos
provocados diretamente pelo exercício.
“Quando conseguimos manter o
mesmo peso corporal e observamos o que aconteceu no organismo, podemos isolar
diretamente o que o exercício físico favoreceu antes do emagrecimento”, explica
Moura. Os dois grupos de animais obesos continuaram com a mesma dieta durante o
experimento justamente para evitar a introdução de outra variável.
Embora o peso corporal total
dos animais não tenha diminuído no período, os camundongos que fizeram
musculação apresentaram menor massa de tecido adiposo mesentérico em comparação
com os animais obesos sedentários. Além disso, os adipócitos (células responsáveis
por armazenar gordura) também eram menores. E o tamanho dessas células importa
muito para a saúde metabólica. Em indivíduos obesos, o adipócito incha tanto
que sofre estresse crônico, começando a secretar substâncias inflamatórias na
circulação. O fato de o exercício encolher essas células prova que o tecido
deixou de estar inflamado, tornando-se metabolicamente saudável antes mesmo de
qualquer movimento da balança.
O
mecanismo metabólico envolvido
Ao investigar o que estava
acontecendo dentro dessas células, os pesquisadores descobriram que a obesidade
havia prejudicado a ação de proteínas importantes para a lipólise (processo de
quebra da gordura armazenada nas células adiposas para que ela possa ser usada
como fonte de energia). Depois das sete sessões de musculação, parte desse
mecanismo voltou a funcionar.
Entre as proteínas analisadas
estavam PLIN1 (perilipina-1), ABHD5 e ATGL. De forma simplificada, a PLIN1 atua
ajudando a controlar a gordura armazenada dentro das células adiposas. Quando
há um estímulo do exercício, a PLIN1 sofre uma alteração e libera outra
proteína, a ABHD5, que funciona como uma espécie de ativadora da quebra de
gordura. Livre, a ABHD5 consegue se ligar à ATGL, enzima que participa do
primeiro passo da quebra dos triglicérides armazenados na célula. O estudo
também encontrou uma redução na expressão do gene Scd1, envolvido na
síntese da molécula de gordura. Na prática, isso sugere que o organismo se
tornou menos propenso a estocar as calorias da dieta no tecido adiposo.
Nos camundongos obesos
sedentários, a quantidade de ABHD5 estava reduzida, por isso o mecanismo de
quebra de gordura não estava ativado de forma significativa. O treinamento de
força aumentou a interação do eixo ABHD5-ATGL e ativou outros marcadores
envolvidos na lipólise. “A população tem uma ideia de que fez musculação por
dois meses, não emagreceu e, portanto, não adiantou nada. Mas o que vimos nesse
estudo é que, com apenas sete dias de treinamento de força, mesmo quando ainda
não havia perda de peso, vias moleculares que favorecem o acúmulo de gordura
estavam menos ativas, enquanto aquelas que estimulam a quebra estavam mais
ativas”, comenta Moura.
Para o pesquisador, os
resultados ajudam a desfazer a ideia de que apenas o exercício aeróbico atuaria
no emagrecimento, enquanto a musculação serviria apenas para aumento de massa
muscular. “Os dois tipos de exercício ativam vias semelhantes, em intensidades
diferentes, e também vias diferentes. Por isso, a associação dos dois continua
sendo a melhor recomendação e a melhor estratégia para quem quer emagrecer”,
afirma Moura.
Próximos
passos
Importante ressaltar que os
achados ainda são experimentais. Ou seja, não se deve imaginar que fazer sete
dias de musculação produzirá os mesmos efeitos em humanos. O trabalho foi feito
apenas com camundongos machos, avaliou um único depósito de gordura e analisou
somente genes, proteínas e sinais moleculares relacionados à quebra de gordura.
O próximo passo da equipe é
acompanhar períodos mais longos de treinamento para entender como essas
respostas evoluem quando a perda de peso começa a ocorrer. Os pesquisadores
também estão investigando os efeitos do exercício sobre outros depósitos de
gordura, inclusive aquele localizado ao redor do coração.
Para Moura, o estudo traz uma
mensagem para quem começa a se exercitar e espera uma resposta imediata da
balança. “Mesmo que a gente não esteja vendo nada ainda a olho nu,
metabolicamente, lá dentro do nosso organismo, várias sinalizações benéficas
para a saúde, inclusive para o emagrecimento, estão acontecendo. Por isso não
devemos nos desencorajar diante da falta de resultados visíveis após um curto
período de musculação”, conclui o pesquisador.
O artigo Strength training induces ABHD5-ATGL axis to counteract mesenteric fat accumulation in obese Swiss mice pode ser lido em: sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0024320526003553.
Fernanda Bassette
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/musculacao-faz-celulas-de-gordura-encolherem-antes-mesmo-da-perda-de-peso/59246

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