No Setembro Amarelo, neurocientista
explica como estresse prolongado e sobrecarga podem repercutir em funções como
atenção e memória e por que a ciência ajuda a ampliar a discussão sobre saúde
mental
Saúde mental não se resume à presença ou à ausência de um
diagnóstico. Antes mesmo de falar em transtornos, situações prolongadas de
estresse e sobrecarga podem repercutir no funcionamento do cérebro e ser
percebidas no cotidiano, inclusive em aspectos como atenção, memória e sono.
Entender essas respostas é uma das contribuições da neurociência para uma discussão
que ganha ainda mais espaço durante o Setembro Amarelo.
O tema ganhou dimensão global. Dados da Organização Mundial da
Saúde (OMS) apontavam cerca de 970 milhões de pessoas vivendo com algum
transtorno mental em 2019, enquanto ansiedade e depressão tiveram crescimento
expressivo no período da pandemia. Levantamentos internacionais também vêm
colocando a saúde mental entre as principais preocupações de saúde da
população.
No Brasil, ansiedade, depressão e esgotamento também têm impacto
relevante na saúde e na vida profissional, reforçando uma discussão que vai
além do diagnóstico e envolve as condições em que as pessoas vivem, trabalham e
se relacionam.
Para a neurocientista e pesquisadora Michelle Melgarejo da Rosa,
professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e autora do livro Anatomia
da Recusa – Um Olhar Pessoal e Científico sobre a Anorexia Nervosa, falar
sobre saúde mental é falar também sobre aquilo que acontece todos os dias,
muitas vezes antes mesmo de percebermos que algo não vai bem.
“Às vezes pensamos em saúde mental como uma questão que só aparece
quando existe um diagnóstico. Mas nosso cérebro está funcionando, se adaptando
e respondendo ao ambiente o tempo inteiro. A maneira como dormimos, o estresse
que acumulamos, as relações que estabelecemos, as escolhas que fazemos, a forma
como lidamos com nosso corpo, com as cobranças e até com pequenas situações do
cotidiano têm impacto sobre esse sistema”, explica Michelle.
Isso não significa transformar cada dificuldade da vida em uma
doença. Pelo contrário. Para a pesquisadora, compreender a relação entre
cérebro, comportamento e ambiente também ajuda a olhar para a saúde mental de
maneira mais ampla. Quanto mais se entende como o cérebro e o organismo
respondem aos diferentes contextos, mais ferramentas existem para reconhecer
fatores que influenciam o bem-estar e identificar aquilo que pode ser
modificado.
A neurociência tem investigado, por exemplo, como o estresse
crônico se relaciona com circuitos envolvidos na memória, atenção, tomada de
decisões e processamento das emoções. Essas interações ajudam a compreender por
que, em períodos de grande sobrecarga, uma pessoa pode perceber maior
dificuldade para se concentrar, esquecimentos, alterações no sono ou mudanças
de humor.
“Vivemos em uma sociedade que muitas vezes transforma cansaço em
falta de produtividade, tristeza em fraqueza e dificuldade de concentração em
falta de disciplina. Mas somos organismos biológicos inseridos em contextos
sociais. Não podemos exigir do cérebro um desempenho constante sem considerar
as condições em que ele está funcionando”, pontua a pesquisadora.
Esse contexto também inclui uma rotina marcada por excesso de
informações, notificações, cobranças e comparações. O cérebro precisa
selecionar continuamente estímulos, manter a atenção, regular emoções e tomar
decisões, enquanto encontra cada vez menos espaços de pausa.
“A gente cobra resiliência do cérebro, mas nem sempre se pergunta
em que ambiente esse cérebro está tentando ser resiliente. Estamos inseridos em
uma realidade de muito ruído, muita comparação e pouca pausa. Entender como
esse contexto interfere nos processos de atenção, memória, sono, emoções e
comportamento é também uma forma de entender por que, em determinados momentos,
podemos nos sentir tão sobrecarregados”, explica Michelle.
Ao mesmo tempo, o cérebro não é estático. A neuroplasticidade
permite que o sistema nervoso se modifique em resposta às experiências, aos
aprendizados e aos ambientes aos quais somos expostos. Isso não significa que
seja possível controlar tudo o que sentimos, mas mostra que o cérebro possui
capacidade de adaptação e que mudanças de hábitos, experiências e contextos
podem repercutir em seu funcionamento.
Nesse sentido, falar de saúde mental também envolve conexão,
escuta e capacidade de reconhecer quando algo não vai bem. Verbalizar
sentimentos, buscar ajuda e oferecer apoio são aspectos importantes do cuidado,
especialmente em uma sociedade marcada por rotinas aceleradas e maior exposição
a estímulos.
“O Setembro Amarelo é um convite à reflexão, à escuta e ao amparo.
Mas também pode ser um convite para aprendermos mais sobre nós mesmos. Quando
compreendemos melhor como funcionamos, podemos reconhecer sinais, buscar ajuda,
modificar contextos e construir novas alternativas diante das dificuldades. E
essas mudanças podem repercutir não apenas na prevenção do sofrimento, mas também
na nossa capacidade de estabelecer conexões, sustentar a atenção, aprender,
formar memórias, desenvolver nosso potencial e, sobretudo, viver com mais saúde
mental”, conclui.
Para Michelle, esse é também um dos papéis fundamentais da divulgação científica: aproximar o conhecimento produzido nos laboratórios da vida cotidiana.
Nenhum comentário:
Postar um comentário