Especialista da SBRA explica como a perda de peso pode influenciar a ovulação e alerta para os cuidados com as medicações antes da concepção e de tratamentos de reprodução assistida
As
chamadas canetas emagrecedoras ganharam espaço na rotina de milhões de pessoas
e, com a popularização desses medicamentos, uma nova questão passou a chamar a
atenção de mulheres em idade reprodutiva: como conciliar a perda de peso com o
desejo de engravidar?
Segundo
o Dr. Bruno Ramalho, membro da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida
(SBRA), a discussão sobre fertilidade não ficou em segundo plano. Ao contrário,
ganhou relevância diante dos indícios de que a perda de peso promovida por
esses medicamentos pode melhorar a função reprodutiva em algumas mulheres.
No
Brasil, as principais canetas emagrecedoras utilizadas para o controle do peso
são liraglutida, semaglutida e tirzepatida. Em mulheres com obesidade, a
redução de peso pode contribuir para melhorar alterações metabólicas e
hormonais associadas à dificuldade para ovular.
“A
obesidade pode estar associada a distúrbios da fertilidade por vários
mecanismos, entre os quais o estado inflamatório, a resistência à insulina, o
aumento da fração livre da testosterona circulante e alterações no padrão de
secreção do hormônio luteinizante (LH), responsável pelo amadurecimento dos
folículos”, explica Bruno. Segundo ele, essas alterações podem levar a mulher a
um estado em que a ovulação não acontece regularmente.
Com a
perda de peso, esse cenário pode mudar. A melhora dos padrões metabólicos e
hormonais tende a favorecer a retomada dos ciclos ovulatórios e,
potencialmente, aumentar as chances de gravidez, tanto espontânea quanto por
reprodução assistida.
A
ciência também começa a investigar se as incretinas podem ter efeitos sobre os órgãos
e células diretamente relacionados à reprodução. “O receptor de GLP-1 está
presente em células dos ovários, nos óvulos e no endométrio, o que sugere que
as incretinas podem ter efeitos positivos sobre o funcionamento desses tecidos
e ajudar a reduzir processos de inflamação e estresse celular que podem afetar,
por exemplo, a qualidade dos óvulos”, afirma o especialista.
O
cuidado começa antes da gravidez
Se a
perda de peso pode favorecer a fertilidade, o uso das medicações precisa ser
planejado quando existe intenção de engravidar. As canetas são contraindicadas
durante a gestação e devem ser interrompidas antes da concepção planejada.
A
orientação é que a suspensão ocorra de um a dois meses antes de tentar
engravidar. Em caso de gravidez acidental durante o uso, a medicação deve ser
suspensa imediatamente e a paciente deve buscar orientação médica.
A
recomendação está relacionada principalmente à falta de evidências que
comprovem a segurança dessas substâncias durante a gestação. Embora estudos sobre
exposições acidentais no primeiro trimestre não tenham identificado, até o
momento, aumento do risco de grandes malformações, o número de casos ainda é
pequeno. Além disso, estudos em animais apontaram efeitos adversos sobre o
desenvolvimento embrionário e fetal.
Para
quem vai fazer fertilização in vitro, atenção redobrada
O
planejamento também é importante para mulheres que pretendem realizar
fertilização in vitro (FIV). Nesse caso, existe uma preocupação específica com
a sedação utilizada durante a coleta dos óvulos.
As
canetas emagrecedoras retardam o esvaziamento do estômago e, por isso, podem
aumentar o risco de aspiração do conteúdo gástrico durante a sedação. Por essa
razão, o uso deve ser interrompido com antecedência antes da aspiração dos
folículos, geralmente de duas a quatro semanas, conforme avaliação da equipe
médica e do medicamento utilizado.
Para
Bruno, a decisão de usar uma incretina antes de um tratamento de fertilidade
deve levar em conta não apenas o peso, mas também a idade da mulher e o tempo
disponível para o planejamento reprodutivo.
“Quando
há obesidade e tempo para perder peso, o ideal é trabalhar o uso de uma
incretina associado a um método contraceptivo não oral, acompanhando a perda
ponderal e estabelecendo, de forma interdisciplinar, um ponto ótimo de
interrupção para então dar andamento ao tratamento de reprodução assistida”,
orienta.
Já
para mulheres em idade reprodutiva mais avançada, o cuidado é para que a busca
pela perda de peso não acabe adiando um tratamento de fertilidade. “A mulher
obesa pode se beneficiar da estratégia, mas com a cautela de não se adiar muito
o início do tratamento de fertilidade, diante do possível impacto da idade
sobre a quantidade e a qualidade dos gametas”, conclui.
Associação
Brasileira de Reprodução Assistida - SBRA
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