Técnica de preservação da fertilidade pode ampliar as possibilidades de planejamento reprodutivo, mas não garante uma gravidez no futuro; especialista em fertilidade explica quem pode se beneficiar e por que a idade é determinante
Adiar a
maternidade deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da realidade de
muitas mulheres. Carreira, estabilidade financeira, projetos pessoais,
relacionamentos e o desejo de esperar o momento considerado ideal para ter
filhos estão entre os motivos que levam mulheres a postergar a gravidez. Nesse
cenário, o congelamento de óvulos ganhou espaço como uma alternativa para
preservar, dentro de determinados limites, o potencial reprodutivo. Mas,
afinal, quem realmente pode se beneficiar da técnica e qual é o melhor momento
para considerar o procedimento?
Segundo Dra.
Andrea Greico, especialista em Fertilidade do Grupo Santa Joana, o congelamento
de óvulos deve ser entendido como uma ferramenta de planejamento reprodutivo, e
não como uma garantia de maternidade no futuro.
“O
congelamento de óvulos é uma possibilidade importante para mulheres que desejam
preservar uma opção reprodutiva para o futuro, mas é fundamental entender que
ele não garante uma gravidez. O principal fator que influencia a qualidade dos
óvulos é a idade em que eles são congelados, por isso a decisão deve ser individualizada
e discutida com um especialista”, explica.
A idade é um
dos principais fatores relacionados à fertilidade feminina. A mulher já nasce
com uma quantidade determinada de óvulos e, ao longo da vida, essa reserva
diminui. Além da quantidade, a qualidade dos óvulos também sofre alterações com
o passar dos anos. Com o envelhecimento, aumenta a probabilidade de alterações
cromossômicas, o que pode dificultar a obtenção de uma gestação e elevar o
risco de aborto espontâneo.
É por isso
que o congelamento tende a apresentar melhores perspectivas quando realizado em
uma idade mais jovem, antes de uma redução mais acentuada da qualidade
ovocitária. Isso não significa, porém, que exista uma idade única que determine
se o procedimento deve ou não ser realizado. A decisão precisa considerar
idade, reserva ovariana, histórico médico, planos reprodutivos e expectativas
da paciente.
“Não existe
um momento universal que seja ideal para todas. Uma mulher de 30 anos que
pretende adiar a maternidade por vários anos está em uma situação diferente de
uma mulher de 38 que já sabe que não pretende engravidar agora. O que
conseguimos fazer é avaliar o cenário reprodutivo atual e discutir quais
estratégias podem fazer sentido para aquela paciente”, afirma Dra.
Andrea.
Uma das
principais situações em que o congelamento pode ser considerado é justamente
quando a mulher deseja adiar a maternidade. A técnica também pode ser indicada
para pacientes que passarão por tratamentos que podem comprometer a função
ovariana, como determinados tratamentos oncológicos, ou para mulheres com
condições que possam afetar a reserva ovariana. Em alguns casos, também pode
ser discutida antes de determinadas cirurgias ovarianas ou diante de histórico
familiar de insuficiência ovariana precoce.
O chamado
congelamento eletivo também ganhou espaço. Nesse caso, a mulher não pretende
engravidar naquele momento, mas deseja preservar uma possibilidade reprodutiva
para o futuro. O procedimento, entretanto, não deve ser encarado como um
“seguro” contra a infertilidade.
“É
importante não criar uma falsa sensação de segurança. O congelamento preserva
os óvulos naquele momento da vida, mas não garante que eles vão gerar um bebê
no futuro. Por isso, precisamos conversar sobre expectativas reais e explicar
todas as etapas do tratamento antes de tomar a decisão”, ressalta a
especialista.
O processo
começa com uma avaliação da saúde reprodutiva da paciente. Exames como a
contagem de folículos antrais e a dosagem do hormônio antimülleriano podem
contribuir para a avaliação da reserva ovariana e ajudar a estimar como os
ovários podem responder à estimulação. Esses exames, no entanto, não devem ser
interpretados isoladamente como um teste capaz de determinar se uma mulher
conseguirá ou não engravidar.
A partir da
avaliação, pode ser indicada uma estimulação ovariana com medicamentos
hormonais para estimular o desenvolvimento de múltiplos folículos. Durante esse
período, a paciente é acompanhada por ultrassonografias e exames laboratoriais.
Quando os folículos atingem o estágio adequado, os óvulos são coletados e os
que apresentam maturidade adequada podem ser submetidos à vitrificação, técnica
de congelamento ultrarrápido que permite sua preservação.
No futuro,
caso a mulher decida utilizar os óvulos, eles são descongelados e fertilizados
em laboratório. Os embriões formados podem posteriormente ser transferidos para
o útero, conforme avaliação da equipe médica.
E se a
mulher já tiver mais de 35 ou 40 anos? O avanço da idade não significa que o
congelamento seja automaticamente contraindicado, mas pode reduzir a quantidade
e a qualidade dos óvulos obtidos e, consequentemente, as possibilidades
futuras. Por isso, a avaliação individual é ainda mais importante.
“Quando uma
mulher chega aos 38, 39 ou 40 anos perguntando sobre congelamento, não devemos
simplesmente responder que é tarde demais. É preciso avaliar a reserva
ovariana, entender o objetivo daquela paciente e discutir de forma transparente
quais são as possibilidades e limitações. Informação individualizada é muito
mais importante do que uma idade isolada”, afirma Dra. Andrea.
Outro ponto
importante é entender que não existe um número mágico de óvulos congelados
capaz de garantir uma gravidez. A quantidade obtida varia de acordo com a reserva
ovariana e a resposta individual ao tratamento. Além disso, a idade no momento
do congelamento influencia a probabilidade de os óvulos apresentarem alterações
cromossômicas. Por isso, mais importante do que perseguir um número específico
é avaliar o contexto de cada paciente e estabelecer expectativas
realistas.
Para a
especialista, a discussão sobre congelamento de óvulos também representa uma
oportunidade de ampliar o conhecimento das mulheres sobre a própria
fertilidade. Nem toda mulher precisa ou deve congelar seus óvulos, mas entender
como idade, reserva ovariana e qualidade dos óvulos se relacionam pode ajudar
na tomada de decisões.
“Mais
importante do que dizer para uma mulher que ela deve congelar os óvulos é
oferecer informação para que ela possa tomar uma decisão consciente. Algumas
mulheres vão optar pelo procedimento, outras não. O nosso papel é mostrar as
possibilidades, os benefícios e também os limites da técnica”, conclui Dra.
Andrea Greico.
Com a evolução das técnicas de reprodução assistida, o congelamento de óvulos se consolidou como uma ferramenta relevante de planejamento reprodutivo. Mas seu principal benefício está em preservar uma possibilidade e não em oferecer uma promessa. Para mulheres que pensam em adiar a maternidade, conversar sobre fertilidade antes de tomar essa decisão pode ser tão importante quanto decidir se irá ou não congelar os óvulos.
Hospital e Maternidade Santa Joana
www.santajoana.com.br
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