sábado, 8 de agosto de 2026

Levantamento do IBGE mostra que mais de um em cada quatro adolescentes brasileiros sente que ninguém se preocupa com ele; para o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, da plataforma Doctoralia, os efeitos da ausência paterna aparecem anos depois, no consultório de pacientes adultos

 

Mais de um em cada quatro adolescentes brasileiros (26,1%) diz sentir que ninguém se preocupa com ele. Um terço (33,3%) acha que os pais ou responsáveis não entendem suas aflições. Os números são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSe), levantamento do IBGE em parceria com o Ministério da Saúde divulgado em março deste ano, com quase 118 mil estudantes de 13 a 17 anos ouvidos em mais de 4 mil escolas do país. É o retrato mais recente e mais representativo que existe sobre saúde mental na adolescência brasileira. 

Neste domingo, dia 9, o Brasil celebra o Dia dos Pais. Para o psiquiatra Oswaldo Petermann Neto, disponível na plataforma Doctoralia e com atuação em terapia familiar sistêmica, os números escancaram um padrão que ele reconhece na prática clínica: histórias de infância marcadas por um pai fisicamente presente, mas emocionalmente ausente. 

“No consultório, quem chega com ansiedade crônica ou dificuldade de regular emoção quase sempre tem uma história parecida: um pai que nunca fez nada de errado, mas também nunca esteve realmente por perto. A criança não precisa de um pai sem falhas, precisa de um pai que preste atenção quando ela fala, e que repita isso todos os dias”, afirma Petermann Neto. 

Ele também chama atenção para o que descreve como o mito do pai perfeito, reforçado por campanhas publicitárias na época do Dia dos Pais. “Perfeição é um padrão impossível e, pior, irrelevante para o desenvolvimento emocional de uma criança. O vínculo não se constrói em grandes gestos, se constrói em minutos repetidos: ouvir o dia dela, atender quando ela chama, largar o celular por alguns minutos. É isso que o cérebro em formação registra como segurança”, explica. 

A observação clínica do médico dialoga com dados nacionais sobre paternidade. O Índice de Desenvolvimento das Paternidades, do Instituto Promundo (relatório de 2026), associa presença paterna mais ativa a índices menores de violência contra crianças e adolescentes: Santa Catarina, estado com melhor desempenho no índice, registra menos de 5 mortes de crianças e adolescentes por 100 mil habitantes, contra 25 por 100 mil na Bahia, um dos piores colocados. O mesmo levantamento mostra que mulheres brasileiras ainda dedicam mais do que o dobro do tempo dos homens ao cuidado com os filhos. 

Em março, o Brasil deu um passo formal nessa direção. A Lei 15.371/2026 ampliou a licença-paternidade de 5 para 20 dias, com implementação gradual até 2029, e criou o salário-paternidade para autônomos, trabalhadores informais e MEIs. É a primeira vez que a legislação trata a presença do pai nos primeiros dias como parte do desenvolvimento da criança, e não como um gesto simbólico. 

“A lei chega tarde, mas reconhece algo que a clínica mostra há anos: presença na infância não é sobre fazer tudo certo, é sobre estar acessível. É essa disponibilidade, e não a ausência de erros, que aparece 20 ou 30 anos depois como diferença entre um adulto que regula bem a própria ansiedade e outro que não”, conclui Oswaldo Petermann Neto.

 

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