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quarta-feira, 29 de julho de 2026

Férias escolares: como aproveitar esse período sem desorganizar a rotina de crianças neurodivergentes

 Especialista explica por que as férias podem ser um período de grandes descobertas para a família, desde que haja equilíbrio entre descanso, lazer e previsibilidade.

 

As férias escolares costumam trazer uma mistura de sentimentos para quem convive com crianças neurodivergentes. Se, de um lado, o fim da correria da escola representa mais tempo para a família, do outro surgem dúvidas sobre como lidar com a quebra da rotina, os passeios, as viagens e todas as mudanças que esse período naturalmente provoca.

A preocupação faz sentido. Muitas crianças com transtornos do neurodesenvolvimento encontram na previsibilidade uma forma de organizar o dia e compreender melhor o ambiente ao seu redor. Quando os horários mudam de uma hora para outra, os compromissos desaparecem e os dias deixam de seguir um padrão, é comum que alguns comportamentos também mudem. Isso, no entanto, não significa que as férias precisem ser encaradas como um problema.

Para Marcela Oliveira, diretora da Clínica Follow Kids e fundadora do NEPEN-RJ (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurodesenvolvimento), existe uma diferença importante entre romper completamente a rotina e permitir que a criança viva novas experiências.

"Os pais costumam chegar muito preocupados nessa época do ano porque acreditam que qualquer mudança vai fazer mal. Mas a criança também precisa viver as férias. Ela pode viajar, passear, dormir um pouco mais tarde em alguns dias e fazer programas diferentes. O que faz diferença é que essas mudanças aconteçam de forma previsível e respeitando o tempo de adaptação de cada uma."

Segundo a especialista, um erro comum é tentar ocupar todos os dias com atividades para evitar que a criança fique entediada. Na prática, esse excesso de compromissos pode provocar justamente o efeito contrário.

"Nem toda criança gosta de passar horas em um shopping, enfrentar filas ou ficar em ambientes muito cheios. Às vezes a família monta uma programação intensa porque quer aproveitar as férias, mas esquece que aquela criança pode precisar de intervalos para descansar e processar tudo o que viveu. Respeitar esse tempo não significa deixar de passear. Significa encontrar um equilíbrio."

Esse equilíbrio também passa por pequenas atitudes que ajudam a criança a entender o que vai acontecer. Contar com antecedência sobre um passeio, mostrar fotos do local que será visitado, explicar quem estará presente e conversar sobre possíveis mudanças ao longo do dia costuma reduzir a ansiedade e tornar a experiência mais tranquila.

Marcela explica que esse planejamento não deve ser encarado como uma regra rígida, mas como uma forma de oferecer segurança.

"Quando a criança sabe minimamente o que vai encontrar, ela consegue organizar melhor as expectativas. É diferente de simplesmente colocá-la no carro e dizer que vão sair. Muitas vezes, cinco minutos de conversa antes de sair de casa fazem mais diferença do que qualquer outra estratégia."

As férias também podem abrir espaço para aprendizados que, durante o ano letivo, acabam ficando em segundo plano. Sem a pressão da escola e dos horários, a família costuma encontrar mais oportunidades para estimular a autonomia dentro de casa e em situações do cotidiano.

"É um momento muito rico para incentivar pequenas conquistas. A criança pode ajudar a organizar a mochila antes de um passeio, escolher a roupa que vai vestir, participar do preparo de um lanche ou assumir pequenas responsabilidades. São experiências simples, mas que fortalecem a confiança e a independência."

Outra preocupação frequente está relacionada ao uso de telas. Com mais tempo livre, muitos pais acabam flexibilizando esse limite e, dias depois, enfrentam dificuldade para retomar a rotina.

Marcela acredita que o problema não está no uso eventual da tecnologia, mas quando ela passa a ocupar o espaço das experiências.

"O celular e o tablet podem fazer parte das férias, mas eles não podem substituir o brincar, a convivência com a família e as oportunidades de explorar o mundo. O desenvolvimento acontece justamente nessas experiências do dia a dia, quando a criança interage, experimenta, erra, cria e descobre coisas novas."

Ela também lembra que nem toda viagem ou passeio precisa ser pensado para gerar um grande aprendizado. Em muitos casos, o que fica na memória da criança são justamente os momentos mais simples.

"Existe uma cobrança muito grande para que as férias sejam perfeitas, cheias de atividades e fotos bonitas. Mas, para uma criança, passar uma tarde brincando com os pais, fazer um piquenique em um parque ou ajudar a preparar um bolo pode ser tão significativo quanto uma viagem. O mais importante é que ela se sinta acolhida e participe desses momentos do jeito que consegue."

Para a especialista, as férias são um bom lembrete de que desenvolvimento infantil não acontece apenas dentro do consultório ou da escola.

"É na convivência, nas pequenas experiências e nas relações construídas dentro da família que muitas habilidades também se desenvolvem. Quando os pais conseguem olhar para esse período com menos cobrança e mais disponibilidade, as férias deixam de ser um desafio e passam a ser uma oportunidade."


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