Especialista explica por que as férias podem ser um período de grandes descobertas para a família, desde que haja equilíbrio entre descanso, lazer e previsibilidade.
As férias escolares costumam trazer uma mistura de sentimentos
para quem convive com crianças neurodivergentes. Se, de um lado, o fim da
correria da escola representa mais tempo para a família, do outro surgem
dúvidas sobre como lidar com a quebra da rotina, os passeios, as viagens e
todas as mudanças que esse período naturalmente provoca.
A preocupação faz sentido. Muitas crianças com transtornos do neurodesenvolvimento
encontram na previsibilidade uma forma de organizar o dia e compreender melhor
o ambiente ao seu redor. Quando os horários mudam de uma hora para outra, os
compromissos desaparecem e os dias deixam de seguir um padrão, é comum que
alguns comportamentos também mudem. Isso, no entanto, não significa que as
férias precisem ser encaradas como um problema.
Para Marcela Oliveira, diretora da Clínica Follow Kids e fundadora
do NEPEN-RJ (Núcleo de Estudos e Pesquisas em Neurodesenvolvimento), existe uma
diferença importante entre romper completamente a rotina e permitir que a
criança viva novas experiências.
"Os pais costumam chegar muito preocupados nessa época do ano
porque acreditam que qualquer mudança vai fazer mal. Mas a criança também precisa
viver as férias. Ela pode viajar, passear, dormir um pouco mais tarde em alguns
dias e fazer programas diferentes. O que faz diferença é que essas mudanças
aconteçam de forma previsível e respeitando o tempo de adaptação de cada
uma."
Segundo a especialista, um erro comum é tentar ocupar todos os
dias com atividades para evitar que a criança fique entediada. Na prática, esse
excesso de compromissos pode provocar justamente o efeito contrário.
"Nem toda criança gosta de passar horas em um shopping, enfrentar
filas ou ficar em ambientes muito cheios. Às vezes a família monta uma
programação intensa porque quer aproveitar as férias, mas esquece que aquela
criança pode precisar de intervalos para descansar e processar tudo o que
viveu. Respeitar esse tempo não significa deixar de passear. Significa
encontrar um equilíbrio."
Esse equilíbrio também passa por pequenas atitudes que ajudam a
criança a entender o que vai acontecer. Contar com antecedência sobre um
passeio, mostrar fotos do local que será visitado, explicar quem estará
presente e conversar sobre possíveis mudanças ao longo do dia costuma reduzir a
ansiedade e tornar a experiência mais tranquila.
Marcela explica que esse planejamento não deve ser encarado como
uma regra rígida, mas como uma forma de oferecer segurança.
"Quando a criança sabe minimamente o que vai encontrar, ela
consegue organizar melhor as expectativas. É diferente de simplesmente
colocá-la no carro e dizer que vão sair. Muitas vezes, cinco minutos de
conversa antes de sair de casa fazem mais diferença do que qualquer outra
estratégia."
As férias também podem abrir espaço para aprendizados que, durante
o ano letivo, acabam ficando em segundo plano. Sem a pressão da escola e dos
horários, a família costuma encontrar mais oportunidades para estimular a
autonomia dentro de casa e em situações do cotidiano.
"É um momento muito rico para incentivar pequenas conquistas.
A criança pode ajudar a organizar a mochila antes de um passeio, escolher a
roupa que vai vestir, participar do preparo de um lanche ou assumir pequenas
responsabilidades. São experiências simples, mas que fortalecem a confiança e a
independência."
Outra preocupação frequente está relacionada ao uso de telas. Com
mais tempo livre, muitos pais acabam flexibilizando esse limite e, dias depois,
enfrentam dificuldade para retomar a rotina.
Marcela acredita que o problema não está no uso eventual da
tecnologia, mas quando ela passa a ocupar o espaço das experiências.
"O celular e o tablet podem fazer parte das férias, mas eles
não podem substituir o brincar, a convivência com a família e as oportunidades
de explorar o mundo. O desenvolvimento acontece justamente nessas experiências
do dia a dia, quando a criança interage, experimenta, erra, cria e descobre
coisas novas."
Ela também lembra que nem toda viagem ou passeio precisa ser
pensado para gerar um grande aprendizado. Em muitos casos, o que fica na
memória da criança são justamente os momentos mais simples.
"Existe uma cobrança muito grande para que as férias sejam
perfeitas, cheias de atividades e fotos bonitas. Mas, para uma criança, passar
uma tarde brincando com os pais, fazer um piquenique em um parque ou ajudar a
preparar um bolo pode ser tão significativo quanto uma viagem. O mais
importante é que ela se sinta acolhida e participe desses momentos do jeito que
consegue."
Para a especialista, as férias são um bom lembrete de que
desenvolvimento infantil não acontece apenas dentro do consultório ou da
escola.
"É na convivência, nas pequenas experiências e nas relações
construídas dentro da família que muitas habilidades também se desenvolvem.
Quando os pais conseguem olhar para esse período com menos cobrança e mais
disponibilidade, as férias deixam de ser um desafio e passam a ser uma
oportunidade."
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