Entre 10% e 20% dos casos ocorrem em pessoas sem histórico de tabagismo;
especialista explica os sinais de alerta e os avanços da medicina de precisão
Quando se fala em câncer de pulmão, o cigarro costuma ser apontado
como o principal responsável pela doença. Embora o tabagismo permaneça como o
maior fator de risco, essa associação pode fazer com que um alerta importante
passe despercebido: pessoas que nunca fumaram também podem desenvolver esse
tipo de câncer. No Dia Mundial do Câncer de Pulmão (1º de agosto),
especialistas reforçam a importância de reconhecer os sintomas e buscar
avaliação médica diante de sinais persistentes, independentemente do histórico
de tabagismo.
Segundo o coordenador médico do Centro de Oncologia e Hematologia
do Hospital Santa Catarina - Paulista, Dr. Antônio Cavaleiro, entre 10% e 20%
dos casos de câncer de pulmão ocorrem em pessoas que nunca fumaram. “Não fumar
reduz muito o risco, mas infelizmente não elimina completamente a possibilidade
de desenvolver a doença. Em muitos desses pacientes, o câncer está relacionado
a alterações genéticas adquiridas pelas células do pulmão ao longo da vida,
além da influência de fatores ambientais e, em alguns casos, da predisposição
individual. Na maioria das vezes, essas alterações não são herdadas da família,
mas adquiridas pelas próprias células do pulmão”, explica.
Além do cigarro, há outros fatores que podem contribuir para o
surgimento da doença, como a exposição ao gás radônio, à poluição do ar, ao
amianto, ao tabagismo passivo e a agentes presentes em determinados ambientes
de trabalho. Em parte dos casos, entretanto, essas alterações surgem sem que
seja possível identificar um fator desencadeante específico.
Principais
sintomas
A crença de que apenas fumantes desenvolvem câncer de pulmão
também pode atrasar a investigação da doença. Tanto pacientes quanto profissionais
de saúde tendem a atribuir sintomas persistentes a problemas mais comuns, como
alergias, infecções respiratórias ou asma. Essa percepção pode retardar o
diagnóstico, especialmente quando a possibilidade de um tumor é considerada
improvável em pessoas sem histórico de tabagismo.
Os sintomas são os mesmos para fumantes e não fumantes:
· Tosse persistente por várias semanas
· Falta de ar
· Dor no peito
· Rouquidão
· Escarro com sangue
· Perda de peso sem causa aparente
· Cansaço excessivo
Embora essas manifestações possam estar relacionadas a diferentes doenças,
quando persistem por várias semanas ou apresentam piora progressiva devem
motivar uma investigação médica.
Perfil
biológico determina tratamento
Outra característica importante do câncer de pulmão em não
fumantes é o perfil biológico da doença. Nesses pacientes, é mais frequente o
adenocarcinoma, tipo de tumor que pode apresentar alterações genéticas
específicas identificadas por exames realizados no próprio tecido tumoral.
Essas informações permitem um tratamento cada vez mais personalizado.
“A análise genética do tumor faz parte do tratamento moderno do
câncer de pulmão. Quando identificamos alterações específicas, conseguimos
indicar medicamentos desenvolvidos para agir exatamente naquele alvo, tornando
o tratamento mais personalizado e, muitas vezes, mais eficaz”, destaca o
médico.
Uma das alterações mais frequentes em pacientes que nunca fumaram
é a mutação do gene EGFR, que pode modificar completamente a estratégia
terapêutica. Em vez da quimioterapia convencional, muitos pacientes passam a
receber terapias-alvo, medicamentos que atuam diretamente sobre a alteração
genética responsável pelo crescimento do tumor.
“Embora não sejam indicadas para todos os pacientes, as
terapias-alvo representam um dos maiores avanços da oncologia nas últimas
décadas. Em pacientes com determinadas alterações genéticas, esses medicamentos
conseguem controlar o câncer por períodos prolongados, permitindo que muitos
mantenham suas atividades habituais e tenham melhor qualidade de vida”, afirma
o Dr. Antônio Cavaleiro.
Diagnóstico
precoce faz diferença
Apesar dos avanços no tratamento, o diagnóstico precoce continua
sendo um dos fatores mais importantes para aumentar as chances de cura. Por
isso, sintomas respiratórios persistentes nunca devem ser ignorados, mesmo por
quem nunca fumou e não tem histórico de problemas pulmonares.
Não fumar continua sendo a medida mais eficaz para reduzir o risco
de câncer de pulmão. A mensagem não é que todos correm o mesmo risco, mas que
sintomas persistentes merecem investigação, independentemente do histórico de
tabagismo. Quando identificado nas fases iniciais, o câncer de pulmão pode ser
tratado com intenção curativa em um número muito maior de pacientes.
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