Avanços científicos ampliam as chances de cura, mas desigualdade na jornada assistencial ainda define o prognóstico de crianças e adolescentes
A oncologia pediátrica vive um momento de maturidade científica. Nas últimas
décadas, o avanço no entendimento da biologia dos tumores, aliado ao
desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, transformou o prognóstico de
muitas doenças. Hoje, quando diagnosticado precocemente e tratado de forma
adequada, o câncer infantil apresenta chances significativamente maiores de
cura, mas, ainda assim, no Brasil milhares de novos casos continuam sendo
diagnosticados todos os anos.
No entanto, na
prática, o desfecho ainda é condicionado por um fator menos visível e mais determinante:
a capacidade de transformar o diagnóstico em uma linha de cuidado estruturada,
contínua e tecnicamente qualificada.
“O diagnóstico
precoce é essencial, mas ele só produz impacto real quando está inserido em um
sistema que consegue responder com precisão e rapidez”, afirma o oncologista
pediátrico, coordenador do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina e
fundador da TUCCA, Sidnei Epelman. “Não basta identificar a doença. É preciso
garantir que, a partir desse momento, todas as etapas (investigação, definição
terapêutica e tratamento) aconteçam no tempo certo e com o nível de
complexidade que o caso exige.”
Segundo
estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar
cerca de 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano entre 2026 e 2028.
Apesar dos avanços na capacidade diagnóstica e terapêutica, esses números ainda
refletem um cenário em que o acesso ao tratamento especializado não ocorre de
forma homogênea, especialmente fora dos grandes centros.
O tratamento do
câncer infantil deixou de ser orientado apenas pela classificação do tumor e
passou a depender de uma análise aprofundada de suas características
biológicas. Exames de imagem, estudos histopatológicos e testes moleculares
permitem identificar subtipos tumorais e direcionar terapias mais específicas.
“Hoje, a decisão clínica é cada vez mais guiada pela biologia do tumor. Isso
exige não só tecnologia, mas capacidade de interpretar essas informações de
forma integrada”, explica Epelman.
Esse nível de
precisão, no entanto, depende de estrutura assistencial organizada e
continuidade do cuidado. A capacidade de conectar diagnóstico, investigação e
tratamento sem interrupções é um dos fatores que mais influenciam o resultado.
A parceria entre a TUCCA e o Santa Marcelina Saúde, na Zona Leste de São Paulo,
foi estruturada justamente para garantir essa linha contínua de atendimento
dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), concentrando recursos e expertise em um
único serviço.
Para o Diretor
Técnico do Santa Marcelina Saúde, Dr. Leonardo Mauri, a iniciativa representa
um avanço significativo no cuidado oncológico infantil. “Quando uma criança
adoece com câncer, não é apenas ela que enfrenta a doença - toda a família é
impactada. Por isso, nosso compromisso vai além do tratamento: buscamos
oferecer um cuidado integral e humanizado, pautado no acolhimento, no apoio e
na esperança. Seguimos em constante evolução, conectados ao que há de mais
avançado na oncologia pediátrica mundial, para garantir melhores desfechos e
mais qualidade de vida aos nossos pacientes”, finaliza o especialista.
A integração ao
programa global de câncer pediátrico do Memorial Sloan Kettering Cancer Center
(MSK) amplia esse modelo ao incorporar uma camada adicional de especialização.
A colaboração permite que casos complexos sejam discutidos com especialistas
internacionais, além de viabilizar acesso a exames avançados de diagnóstico
molecular e a protocolos atualizados.
“Em situações mais
desafiadoras, como tumores raros ou casos que não respondem ao tratamento
convencional, essa troca pode redefinir completamente a condução do caso. É uma
discussão técnica baseada em evidência e experiência acumulada em escala
global”, afirma Epelman.
Além da discussão
clínica, a parceria inclui formação continuada das equipes e participação em
tumor boards internacionais, o que permite incorporar de forma consistente o
conhecimento produzido nos principais centros oncológicos do mundo. Na prática,
isso amplia a capacidade de decisão e reduz incertezas, especialmente em
cenários de maior complexidade.
O impacto desse
modelo se reflete diretamente nos desfechos. Enquanto centros estruturados
conseguem alcançar resultados significativamente melhores, regiões com menor
acesso a diagnóstico qualificado e tratamento especializado ainda enfrentam
índices de cura inferiores, evidenciando o peso da desigualdade na oncologia
pediátrica.
“Hoje, a gente já dispõe de ferramentas extremamente eficazes. O desafio não está apenas em desenvolver novas terapias, mas em garantir que elas cheguem a todos”, observa o médico.
Nesse contexto, iniciativas que conectam conhecimento global a sistemas públicos de saúde não apenas ampliam o acesso, mas contribuem para redefinir o padrão de cuidado possível. “Nosso objetivo é encurtar essa distância entre o que a ciência já permite e o que o paciente efetivamente recebe. É isso que, no fim, muda a história”, conclui Sidnei Epelman.
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