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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Feedback ou humilhação? A linha tênue que separa uma liderança forte de uma liderança tóxica

 

Cobranças públicas, ironias e exposição de colaboradores ainda são confundidas com gestão de desempenho; psicóloga explica como esses comportamentos comprometem o clima organizacional e os resultados da empresa.

 

O feedback é uma das ferramentas mais importantes para o desenvolvimento profissional, mas quando utilizado de forma inadequada pode produzir o efeito oposto ao esperado. Cobranças diante da equipe, ironias, constrangimentos e críticas que expõem o colaborador ainda fazem parte da rotina de muitas organizações e, embora frequentemente sejam justificadas como uma forma de "corrigir" ou "estimular resultados", especialistas alertam que esses comportamentos podem comprometer a saúde psicológica dos trabalhadores e o desempenho das equipes.

A preocupação acompanha um cenário em que os riscos psicossociais ganharam ainda mais atenção dentro das empresas. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir que as organizações identifiquem, avaliem e gerenciem fatores relacionados ao ambiente de trabalho que possam afetar a saúde mental dos colaboradores, incluindo aspectos ligados à organização do trabalho, à comunicação e aos modelos de liderança.

Nesse contexto, a forma como líderes conduzem conversas de desempenho deixa de ser apenas uma questão de estilo de gestão e passa a influenciar diretamente o clima organizacional. Quando o feedback é utilizado para constranger, intimidar ou expor profissionais, cria-se um ambiente de insegurança psicológica, reduzindo a confiança, o engajamento e a disposição das equipes para colaborar e inovar.

Para a psicóloga, doutora em Administração e especialista em Gestão de Saúde Corporativa, Renata Livramento, existe uma diferença importante entre um feedback firme e uma postura tóxica. "Feedback é uma conversa orientada para o desenvolvimento. Humilhação é quando a intenção ou a forma utilizada coloca o colaborador em uma posição de constrangimento, medo ou inferioridade. O resultado deixa de ser aprendizado e passa a ser sofrimento."

Segundo a especialista, comportamentos como repreender funcionários diante de colegas, utilizar sarcasmo, fazer comparações entre membros da equipe ou transformar erros em motivo de exposição pública costumam gerar consequências que vão muito além do desconforto momentâneo. "Quando as pessoas trabalham com medo de errar ou de serem expostas, elas passam a evitar iniciativas, escondem dificuldades e reduzem sua participação. A empresa perde criatividade, confiança e capacidade de inovação."

Os reflexos também aparecem nos indicadores organizacionais. Equipes submetidas a ambientes marcados por lideranças tóxicas tendem a apresentar maior rotatividade, aumento do absenteísmo, queda no engajamento e maior incidência de afastamentos relacionados à saúde mental, fatores que impactam diretamente a produtividade e os resultados do negócio.

Renata destaca que uma liderança eficaz não significa evitar conversas difíceis, mas saber conduzi-las com respeito, clareza e foco na solução. "O colaborador precisa compreender onde pode melhorar sem sentir que sua dignidade está sendo colocada em julgamento. O feedback deve fortalecer competências e direcionar o desenvolvimento, nunca provocar medo ou vergonha."

Para isso, a especialista defende que as empresas invistam na preparação de suas lideranças, desenvolvendo habilidades como inteligência emocional, comunicação assertiva, escuta ativa e gestão de conflitos. Segundo ela, esses fatores são fundamentais para construir ambientes psicologicamente seguros e favorecer relações de trabalho mais saudáveis.

Em um momento em que saúde mental e desempenho caminham lado a lado, a forma como os líderes se comunicam tornou-se um diferencial estratégico. Organizações que conseguem transformar o feedback em uma ferramenta de desenvolvimento fortalecem suas equipes, reduzem conflitos e constroem uma cultura baseada na confiança, no respeito e em resultados sustentáveis. 



Fonte: Renata Livramento — Psicóloga | Doutora em Administração | Especialista em Gestão de Saúde Corporativa.
renatalivramento.com.br | @renata.livramento

 

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