Cobranças
públicas, ironias e exposição de colaboradores ainda são confundidas com gestão
de desempenho; psicóloga explica como esses comportamentos comprometem o clima
organizacional e os resultados da empresa.
O feedback é uma das ferramentas mais importantes para o
desenvolvimento profissional, mas quando utilizado de forma inadequada pode
produzir o efeito oposto ao esperado. Cobranças diante da equipe, ironias,
constrangimentos e críticas que expõem o colaborador ainda fazem parte da
rotina de muitas organizações e, embora frequentemente sejam justificadas como
uma forma de "corrigir" ou "estimular resultados",
especialistas alertam que esses comportamentos podem comprometer a saúde
psicológica dos trabalhadores e o desempenho das equipes.
A preocupação acompanha um cenário em que os riscos
psicossociais ganharam ainda mais atenção dentro das empresas. A atualização da
Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir que as organizações
identifiquem, avaliem e gerenciem fatores relacionados ao ambiente de trabalho
que possam afetar a saúde mental dos colaboradores, incluindo aspectos ligados
à organização do trabalho, à comunicação e aos modelos de liderança.
Nesse contexto, a forma como líderes conduzem conversas de
desempenho deixa de ser apenas uma questão de estilo de gestão e passa a
influenciar diretamente o clima organizacional. Quando o feedback é utilizado
para constranger, intimidar ou expor profissionais, cria-se um ambiente de
insegurança psicológica, reduzindo a confiança, o engajamento e a disposição
das equipes para colaborar e inovar.
Para a psicóloga, doutora em Administração e especialista em
Gestão de Saúde Corporativa, Renata Livramento, existe uma diferença importante
entre um feedback firme e uma postura tóxica. "Feedback é uma conversa
orientada para o desenvolvimento. Humilhação é quando a intenção ou a forma
utilizada coloca o colaborador em uma posição de constrangimento, medo ou
inferioridade. O resultado deixa de ser aprendizado e passa a ser
sofrimento."
Segundo a especialista, comportamentos como repreender
funcionários diante de colegas, utilizar sarcasmo, fazer comparações entre
membros da equipe ou transformar erros em motivo de exposição pública costumam
gerar consequências que vão muito além do desconforto momentâneo. "Quando
as pessoas trabalham com medo de errar ou de serem expostas, elas passam a
evitar iniciativas, escondem dificuldades e reduzem sua participação. A empresa
perde criatividade, confiança e capacidade de inovação."
Os reflexos também aparecem nos indicadores organizacionais.
Equipes submetidas a ambientes marcados por lideranças tóxicas tendem a
apresentar maior rotatividade, aumento do absenteísmo, queda no engajamento e
maior incidência de afastamentos relacionados à saúde mental, fatores que
impactam diretamente a produtividade e os resultados do negócio.
Renata destaca que uma liderança eficaz não significa evitar
conversas difíceis, mas saber conduzi-las com respeito, clareza e foco na
solução. "O colaborador precisa compreender onde pode melhorar sem sentir
que sua dignidade está sendo colocada em julgamento. O feedback deve fortalecer
competências e direcionar o desenvolvimento, nunca provocar medo ou
vergonha."
Para isso, a especialista defende que as empresas invistam
na preparação de suas lideranças, desenvolvendo habilidades como inteligência
emocional, comunicação assertiva, escuta ativa e gestão de conflitos. Segundo
ela, esses fatores são fundamentais para construir ambientes psicologicamente
seguros e favorecer relações de trabalho mais saudáveis.
Em um momento em que saúde mental e desempenho caminham lado a lado, a forma como os líderes se comunicam tornou-se um diferencial estratégico. Organizações que conseguem transformar o feedback em uma ferramenta de desenvolvimento fortalecem suas equipes, reduzem conflitos e constroem uma cultura baseada na confiança, no respeito e em resultados sustentáveis.
Fonte: Renata Livramento — Psicóloga | Doutora em Administração | Especialista em Gestão de Saúde Corporativa.
renatalivramento.com.br | @renata.livramento
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