A Copa do Mundo acabou, mas as lições dela não. O
comportamento dos jogadores argentinos na cerimônia de premiação (de costas
para os espanhóis, entre o protesto e o agradecimento à torcida) gerou uma
discussão que é legítima, mas esconde a lição mais útil do campeonato,
sobretudo para os mais de cinco milhões de jovens brasileiros que farão o Exame
Nacional do Ensino Médio (Enem) em novembro: a Argentina não perdeu por falta
de base. Tem bons jogadores, foi bem treinada, venceu batalhas difíceis antes.
Perdeu por falta de finalização. E prova, como final de Copa, também se decide
assim. Vamos pensar na partida, na prova e na vida. É nos detalhes que as
vitórias acontecem.
Comecemos pelo que se fez e o que se deve fazer durante o
jogo. Na final, os detalhes foram lances (ou a falta deles): a pouca iniciativa
dos hermanos deixou os espanhóis mais à vontade; o erro evitável de Enzo
Fernández, que gerou seu primeiro cartão amarelo, fez sua entrada mais forte em
Cubarsí ser mais duramente punida. E a administração do jogo feita pelos
espanhóis, que atacaram mais e acertaram tanto os passes difíceis como os
fáceis, rendeu-lhes a taça.
Tudo isso representa bem o que a TRI faz com enemzeiros:
erros evitáveis fazem acertos difíceis serem menos valorizados, e a gestão do
tempo na prova (sobretudo o hábito de driblar as questões trabalhosas,
deixando-as por último) pode ser decisiva para evitar perder o jogo por causa
das questões fáceis.
Na prova, os detalhes são de natureza distinta dos do
futebol, mas igualmente decisivos para o resultado. O ENEM não soma pontos como
um placar comum: sua metodologia, a TRI, estima a proficiência do candidato
pelo conjunto das respostas. Nenhum acerto é descartado; contudo, um padrão
coerente, em que o estudante garante primeiro as questões fáceis e medianas
para, só depois disso, enfrentar as difíceis, traz notas maiores do que as de
quem apresenta um padrão errático com o mesmo número de acertos. Traduzindo
para o gramado: pouco adianta a genialidade de alguns lances e passes de Messi
se o time tem pouca estratégia para manter o controle da bola e se Giuliano
Simeone, no último lance, erra por centímetros o chute que levaria a decisão
aos pênaltis. Durante a prova, portanto, postura é método: garantir o simples
com consistência e buscar condições propícias para acertar no extraordinário.
Agora, o depois da partida, que é também o antes da
próxima. A Argentina errou de novo, ao virar as costas. Depois de qualquer
derrota, o gesto mais produtivo não é o protesto: é olhar para quem venceu e
perguntar o que, exatamente, o campeão fez de decisivo. Vale tanto para
seleções quanto para quem já fez o ENEM e quer melhorar. Vamos aprender com os
enemzeiros que foram os campeões do exame em anos anteriores: depois de
analisar os resultados deles a partir dos microdados do Enem, constatei que é
em Linguagens e em Redação que suas notas se destacam das dos que ficaram na
fase de grupos, nas oitavas ou nas quartas; suas notas de Matemática, Ciências
Humanas e Ciências da Natureza são muito parecidas com as de seus rivais. É
ali, nas duas provas que cobram as habilidades de ler e escrever, que se marca
o gol da prorrogação.
Faz sentido. Essas habilidades são, ao mesmo tempo, o
alicerce e o acabamento de qualquer formação. Alicerce porque tudo depende
delas: quem tem dificuldade para entender o que lê e para expressar o que pensa
só ganha jogo fácil. E acabamento porque são elas que distinguem os melhores
entre os bons: os grandes campeões da vida são as pessoas com refinada
capacidade de compreender textos complexos e de se expressar conforme cada
situação exige. A Matriz de Referência do ENEM dedica a essa área 30
habilidades, que vão da análise de estratégias persuasivas à leitura da arte e
do próprio corpo como formas de comunicação.
Para a tristeza do Brasil, no campo da educação (e não
mais no do futebol), o treino de Linguagens, essa área decisiva, é justamente o
que vejo, há duas décadas trabalhando em escolas tradicionais, ser feito da
forma menos estratégica. A escola ensina por matéria; o Enem cobra por
habilidade; e em nenhuma parte da prova esse desencontro custa tão caro quanto
na que decide quem será o campeão.
A Argentina perdeu com uma excelente base; faltou a
finalização de campeã. Quem vai jogar a final de novembro ainda tem tempo de
aprender com o choro dos hermanos: reforçar a base e caprichar nas
finalizações. E isso se constrói em um campo essencial para todas as vitórias
da vida — o das linguagens.
Nenhum comentário:
Postar um comentário