O franchising brasileiro ultrapassou um marco
histórico: em 2025, o setor registrou crescimento de 10,5% e atingiu
faturamento de R$ 301,2 bilhões, superando pela primeira vez a barreira dos R$
300 bilhões. Em 2024, o desempenho também havia surpreendido: o setor cresceu
13,5%, chegando a R$ 273 bilhões, bem acima da projeção inicial de 10%. São
números que animam qualquer investidor. E é exatamente aí que mora o perigo. Em
um mercado em expansão, é fácil confundir o crescimento do setor com
competência própria. Mas franquia boa não garante franqueado bom.
O modelo de franchising oferece algo raro no
empreendedorismo: um sistema testado, uma marca com reputação e um manual de
operações construído com anos de experiência. Mas quem opera é o franqueado. E
é justamente na operação que a maioria dos negócios vai bem ou vai ao chão. Os
dados de 2025 revelam uma mudança estrutural importante: o crescimento do setor
está sendo sustentado menos pela abertura de novas marcas e mais pela
capacidade de execução e escala das redes já existentes. Traduzindo: o mercado
está premiando quem sabe gerir, não apenas quem sabe abrir.
O financeiro é onde a maioria
afunda
Posso dizer, com base em anos acompanhando redes de
franquias, que o calcanhar de Aquiles da maioria dos franqueados é o controle
financeiro. Faturar bem ilude. Um caixa cheio hoje pode esconder uma margem de
lucro corroída por custos que nunca foram devidamente mapeados. Monitorar fluxo
de caixa, rentabilidade e margem de lucro é obrigação do próprio franqueado.
Quem terceiriza completamente essa leitura perde o comando do próprio negócio.
A boa notícia é que a tecnologia resolveu boa parte
desse problema. Softwares de gestão financeira automatizam conciliações,
integram notas fiscais e entregam relatórios que antes exigiam horas de
planilha. Não à toa, a própria ABF já sinalizou que investir em tecnologia, uso
de dados e capacitação empreendedora serão fatores cada vez mais fundamentais
para o desenvolvimento sustentável dos negócios no setor. O franqueado que
ainda opera no improviso está nadando contra a corrente e a corrente está
ficando mais forte.
Dado não é luxo, é bússola
Outro ponto que me chama atenção é a resistência de
muitos franqueados a tomar decisões baseadas em dados. Existe uma cultura de
gestão pelo "feeling" que é muito comum no varejo brasileiro e que
precisa ser superada. Analisar o comportamento de compra dos clientes, o
desempenho da equipe de vendas e os indicadores operacionais não é sofisticação
de empresa grande. É o mínimo para quem quer crescer com consistência. Uma
unidade que vende bem hoje, mas não entende porquê, também não saberá o que
fazer quando as vendas caírem.
O relacionamento com a franqueadora também é mais
estratégico do que parece. Franqueados que constroem uma relação próxima com a
matriz têm acesso antecipado a atualizações, participam de programas de
treinamento e, em redes mais maduras, são premiados por performance. Isso é vantagem
competitiva dentro da própria rede. Especialistas do setor alertam que quando a
evolução ocorre de forma desalinhada e sem governança, as marcas tendem a se
perder e não encontram o caminho de volta, o que impede o próprio progresso e,
como consequência, a prosperidade do setor. O mesmo vale para o franqueado
individualmente.
Gestão é o produto que você
vende todos os dias
Crescimento sustentável depende de governança e
eficiência operacional e expandir de forma impulsiva tende a comprometer
consistência e rentabilidade. Essa lição vale tanto para as redes quanto para
cada unidade individualmente. Não basta ter um ponto bem localizado, uma marca
reconhecida e uma equipe simpática. É preciso monitorar processos, garantir que
os padrões da marca sejam cumpridos, treinar continuamente e ajustar a rota com
agilidade quando os números desviam. O franchising oferece um modelo testado,
mas quem opera é você.
Se há uma mensagem que quero deixar para quem está
entrando ou crescendo no franchising, é: invista tanto em aprender a gerir
quanto investiu em pagar a taxa de franquia. O mercado está em expansão, os R$
300 bilhões estão aí para provar, mas só colhe quem planta com método.
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