Documento final do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil pede a proibição definitiva do abate e alerta para riscos ambientais, sanitários e sociais ligados ao comércio
Após decretarem o estado de emergência para o jumento nordestino diante
do iminente processo de extinção da espécie, pesquisadores brasileiros e
internacionais alertam agora para os riscos de disseminação de zoonoses no
Brasil e em países que compram sua pele. A falta de rastreabilidade dos animais
e as fragilidades sanitárias associadas ao comércio internacional foram os
destaques da nova carta pública, a “Declaração de Salvador”, oficializada ao
final do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável,
realizado entre os dias 6 e 7 de maio, na Assembleia Legislativa da Bahia
(ALBA).
O documento traz a preocupação sobre as falhas de biossegurança
relacionadas à circulação de doenças infectocontagiosas de caráter zoonótico
quando o controle sobre a origem e as condições desses animais não são
realizados antes do abate. Além disso, a declaração menciona a bioacumulação de
metais pesados, adquiridos pelos jumentos no período entre o abandono de seu
proprietário até a captura pelos abatedouros.
Segundo os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade
Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade
Federal do Alagoas (UFAL), e outras instituições, as lacunas institucionais
sobre a atividade extrativista persistem, como os registros de trabalho
infantil e de condições análogas à escravidão vinculadas ao abate, além do
ponto central para o pedido urgente do fim do abate: a redução drástica da
população de jumentos nordestinos. A partir do cruzamento de dados do MAPA, do
IBGE e do sistema Agrostat, os pesquisadores afirmam que o país perdeu 94% de
sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Em outras palavras, de cada 100
animais existentes na década de 1990, apenas 6 permanecem atualmente, cenário
atribuído, principalmente, ao abate para retirada da pele destinada à
exportação para a China.
Além de reforçar a importância ecológica desses animais para os
ecossistemas do semiárido brasileiro, os especialistas lembraram que o modelo
econômico baseado no comércio de pele de jumentos para produção de ejiao,
produto utilizado na medicina tradicional chinesa, é economicamente
insustentável. Isso porque as características biológicas dos jumentos são
incompatíveis com sistemas intensivos de produção.
Metais pesados nas peles de equídeos - Segundo José Roberto Lima, médico
veterinário e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia
(UFBA), diferentes pesquisas já relacionaram equídeos à contaminação por metais
pesados e outras substâncias químicas potencialmente nocivas à saúde, a
depender das condições ambientais às quais esses animais são expostos.
Estudos publicados em bibliotecas científicas internacionais, como
Elsevier e MDPI, identificam a presença desses contaminantes em tecidos e
produtos derivados. Eles reforçam a necessidade de maior vigilância sanitária
e, principalmente, do fim do abate de jumentos no país, por meio do Projeto
de Lei 2387/2022, que prevê a proibição
definitiva da atividade em território nacional, e que ainda tramita no
Congresso Nacional.
“Peles e músculos de equídeos apresentam evidências de altas
concentrações de metais pesados, o que reforça a possibilidade desse risco
químico para quem consome carne de jumentos e ejiao produzido com peles
de animais abatidos na Bahia, sem qualquer informação de origem. Ou seja, são
animais com grande probabilidade de bioacumular contaminação ambiental”, pontua
Lima.
Fragilidades regulatórias - A nova declaração também relacionou o
comércio global de pele de jumentos ao aumento de crimes ambientais em
diferentes países dada as fragilidades regulatórias. E citou, como exemplo de
combate à ilegalidade, a decisão dos 55 países da União Africana ao aprovar a
moratória continental contra o abate desses animais.
Durante a leitura do documento final, os especialistas
manifestaram apoio integral à decisão proferida em abril de 2026 pela juíza
federal Arali Maciel Duarte, que determinou a proibição do abate de jumentos na
Bahia, além da interrupção da captura, transporte e comercialização de animais
destinados a essa finalidade.
Para a PhD em Ciências pela USP e coordenadora de campanhas da The
Donkey Sanctuary nas Américas, Patricia Tatemoto, proteger o jumento nordestino
é uma medida essencial não apenas para o bem-estar animal, mas também para a
preservação socioambiental do país. “A proteção do jumento nordestino é
estratégica para garantir a biodiversidade, fortalecer a Saúde Única, preservar
o patrimônio genético nacional e proteger a integridade socioambiental
brasileira”, afirma.
Os pesquisadores também pontuaram sobre
o avanço de soluções biotecnológicas desenvolvidas no Brasil como alternativas
éticas e sustentáveis ao uso da pele de jumentos na produção de ejiao.
Entre elas está a criação de colágeno por fermentação de precisão desenvolvida
pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob coordenação da Dra. Carla
Molento.
Além da proibição definitiva do abate,
defendem a implementação de políticas públicas voltadas à conservação do
jumento nordestino, reconhecido no documento como patrimônio histórico,
cultural, genético e sociobiológico do semiárido brasileiro.
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