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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Pesquisadores alertam para riscos sanitários somados à iminente extinção do jumento nordestino em carta aberta ao público

Documento final do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil pede a proibição definitiva do abate e alerta para riscos ambientais, sanitários e sociais ligados ao comércio

 

Após decretarem o estado de emergência para o jumento nordestino diante do iminente processo de extinção da espécie, pesquisadores brasileiros e internacionais alertam agora para os riscos de disseminação de zoonoses no Brasil e em países que compram sua pele. A falta de rastreabilidade dos animais e as fragilidades sanitárias associadas ao comércio internacional foram os destaques da nova carta pública, a “Declaração de Salvador”, oficializada ao final do IV Workshop Internacional Jumentos do Brasil: Futuro Sustentável, realizado entre os dias 6 e 7 de maio, na Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA). 

O documento traz a preocupação sobre as falhas de biossegurança relacionadas à circulação de doenças infectocontagiosas de caráter zoonótico quando o controle sobre a origem e as condições desses animais não são realizados antes do abate. Além disso, a declaração menciona a bioacumulação de metais pesados, adquiridos pelos jumentos no período entre o abandono de seu proprietário até a captura pelos abatedouros. 

Segundo os pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Paraná (UFPR), Universidade Federal do Alagoas (UFAL), e outras instituições, as lacunas institucionais sobre a atividade extrativista persistem, como os registros de trabalho infantil e de condições análogas à escravidão vinculadas ao abate, além do ponto central para o pedido urgente do fim do abate: a redução drástica da população de jumentos nordestinos. A partir do cruzamento de dados do MAPA, do IBGE e do sistema Agrostat, os pesquisadores afirmam que o país perdeu 94% de sua população de jumentos entre 1996 e 2025. Em outras palavras, de cada 100 animais existentes na década de 1990, apenas 6 permanecem atualmente, cenário atribuído, principalmente, ao abate para retirada da pele destinada à exportação para a China. 

Além de reforçar a importância ecológica desses animais para os ecossistemas do semiárido brasileiro, os especialistas lembraram que o modelo econômico baseado no comércio de pele de jumentos para produção de ejiao, produto utilizado na medicina tradicional chinesa, é economicamente insustentável. Isso porque as características biológicas dos jumentos são incompatíveis com sistemas intensivos de produção.
 

Metais pesados nas peles de equídeos - Segundo José Roberto Lima, médico veterinário e doutor em Saúde Coletiva pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), diferentes pesquisas já relacionaram equídeos à contaminação por metais pesados e outras substâncias químicas potencialmente nocivas à saúde, a depender das condições ambientais às quais esses animais são expostos. 

Estudos publicados em bibliotecas científicas internacionais, como Elsevier e MDPI, identificam a presença desses contaminantes em tecidos e produtos derivados. Eles reforçam a necessidade de maior vigilância sanitária e, principalmente, do fim do abate de jumentos no país, por meio do Projeto de Lei 2387/2022, que prevê a proibição definitiva da atividade em território nacional, e que ainda tramita no Congresso Nacional. 

“Peles e músculos de equídeos apresentam evidências de altas concentrações de metais pesados, o que reforça a possibilidade desse risco químico para quem consome carne de jumentos e ejiao produzido com peles de animais abatidos na Bahia, sem qualquer informação de origem. Ou seja, são animais com grande probabilidade de bioacumular contaminação ambiental”, pontua Lima.
 

Fragilidades regulatórias - A nova declaração também relacionou o comércio global de pele de jumentos ao aumento de crimes ambientais em diferentes países dada as fragilidades regulatórias. E citou, como exemplo de combate à ilegalidade, a decisão dos 55 países da União Africana ao aprovar a moratória continental contra o abate desses animais.

Durante a leitura do documento final, os especialistas manifestaram apoio integral à decisão proferida em abril de 2026 pela juíza federal Arali Maciel Duarte, que determinou a proibição do abate de jumentos na Bahia, além da interrupção da captura, transporte e comercialização de animais destinados a essa finalidade. 

Para a PhD em Ciências pela USP e coordenadora de campanhas da The Donkey Sanctuary nas Américas, Patricia Tatemoto, proteger o jumento nordestino é uma medida essencial não apenas para o bem-estar animal, mas também para a preservação socioambiental do país. “A proteção do jumento nordestino é estratégica para garantir a biodiversidade, fortalecer a Saúde Única, preservar o patrimônio genético nacional e proteger a integridade socioambiental brasileira”, afirma.  

Os pesquisadores também pontuaram sobre o avanço de soluções biotecnológicas desenvolvidas no Brasil como alternativas éticas e sustentáveis ao uso da pele de jumentos na produção de ejiao. Entre elas está a criação de colágeno por fermentação de precisão desenvolvida pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), sob coordenação da Dra. Carla Molento. 

Além da proibição definitiva do abate, defendem a implementação de políticas públicas voltadas à conservação do jumento nordestino, reconhecido no documento como patrimônio histórico, cultural, genético e sociobiológico do semiárido brasileiro.


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