Doença celíaca vai além dos sintomas intestinais
e pode atrasar diagnóstico em adultos
Para cada caso diagnosticado, até
outros sete podem permanecer sem identificação, segundo o PCDT da Doença
Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital Alemão
Oswaldo Cruz
Um estudo publicado em 2025 na revista Clinical
Gastroenterology and Hepatology, da Associação Americana de
Gastroenterologia1, acendeu um alerta sobre a importância do
diagnóstico e do acompanhamento adequados da doença celíaca. A pesquisa,
realizada na França, analisou dados de mais de 27 mil pacientes hospitalizados
com a condição ao longo de nove anos e observou maior risco de alguns cânceres
digestivos e doenças inflamatórias intestinais em comparação com pessoas sem o
diagnóstico, incluindo câncer de intestino delgado e linfoma não Hodgkin. Os
achados não significam que todo paciente celíaco terá essas complicações, mas
reforçam que a doença não deve ser tratada como uma simples intolerância
alimentar.
O Dia Mundial de Conscientização sobre a Doença Celíaca, lembrado
no próximo dia 16 de maio, chama atenção para um ponto central: em adultos, a
doença pode passar anos sem diagnóstico, especialmente quando não se manifesta
apenas por sintomas digestivos clássicos, como diarreia, dor abdominal,
distensão e perda de peso. Em muitos casos, o quadro aparece por sinais menos
evidentes, como anemia persistente, fadiga, alterações ósseas, aftas
recorrentes, infertilidade, alterações de pele ou sintomas neurológicos.
Segundo o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) da
Doença Celíaca, atualizado pelo Ministério da Saúde em parceria com o Hospital
Alemão Oswaldo Cruz2 por meio do Programa de Apoio ao
Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (PROADI-SUS), para cada
pessoa que descobre ter doença celíaca por causa dos sintomas, outras três a
sete podem conviver com a doença sem saber. O documento também aponta que, no
Brasil, a prevalência estimada varia de 1 a cada 214 a 1 a cada 681 pessoas, a
depender da região.
A doença celíaca é uma condição crônica do intestino delgado
causada por uma reação imunomediada ao glúten, proteína presente no trigo,
centeio e cevada, em pessoas com predisposição genética. Apesar de ser
frequentemente confundida com intolerância alimentar, trata-se de uma doença
autoimune, que pode ter repercussões sistêmicas quando não diagnosticada e
tratada corretamente.
“Existe uma ideia muito difundida de que a doença celíaca sempre
causa diarreia intensa ou perda de peso importante, mas isso não acontece em
todos os casos. Em adultos, muitas vezes o quadro é mais silencioso ou aparece
de forma indireta. Uma anemia que não melhora, uma osteoporose precoce ou
sintomas digestivos persistentes, por exemplo, podem ser pistas importantes
para investigação”, explica Dra. Karoline Garcia, gastroenterologista do Centro
Especializado em Aparelho Digestivo do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.
Quando a doença não parece intestinal
A dificuldade no diagnóstico está relacionada justamente à
variedade de manifestações possíveis. Além dos sintomas gastrointestinais, a
doença celíaca pode estar associada a deficiências nutricionais, queda de
cabelo, alterações no esmalte dentário, dores articulares, alterações
hepáticas, cefaleia, neuropatias e manifestações dermatológicas, como a
dermatite herpetiforme (bolhas com coceira e ardência), comumente presentes nos
cotovelos, joelhos, nádegas e couro cabeludo).
Essa apresentação mais ampla faz com que muitos pacientes passem
por diferentes especialistas antes de chegar ao diagnóstico correto. Em alguns
casos, os sintomas são atribuídos a quadros como síndrome do intestino
irritável, intolerância à lactose, ansiedade, má alimentação ou deficiências
nutricionais isoladas.
“É comum que o paciente normalize sintomas por anos ou receba
tratamentos pontuais para cada manifestação, sem que a causa principal seja
investigada. O alerta deve acender quando há sintomas persistentes, histórico
familiar de doença celíaca ou presença de doenças autoimunes associadas”,
afirma a especialista.
Biópsia, exames e diagnóstico preciso
O diagnóstico da doença celíaca não deve se basear apenas nos
sintomas ou na melhora após a retirada do glúten. A investigação costuma
começar pela avaliação clínica e por exames sorológicos, feitos por meio de
coleta de sangue, que pesquisam anticorpos relacionados à doença e ajudam a
definir os próximos passos.
Entre eles está a dosagem de Imunoglobulina A (IgA), um tipo de
anticorpo importante para interpretar corretamente os resultados dos testes
usados na investigação da condição. Em casos indicados, a confirmação pode
envolver endoscopia digestiva alta com biópsia do duodeno, região inicial do
intestino delgado.
A biópsia permite avaliar alterações características na mucosa
intestinal, como inflamação e atrofia das vilosidades, estruturas responsáveis
pela absorção de nutrientes. A precisão desse processo depende não apenas da
realização do exame, mas também da indicação correta, da coleta adequada de
amostras e da análise anatomopatológica integrada ao quadro clínico e aos
exames laboratoriais.
“Em casos atípicos ou de maior dificuldade diagnóstica, a biópsia
bem indicada e bem interpretada ajuda a evitar dois problemas: deixar de
diagnosticar quem tem a doença e, ao mesmo tempo, rotular como celíaco um
paciente que pode ter outra condição. Isso é importante porque o tratamento
exige uma mudança alimentar permanente e rigorosa”, explica.
Um ponto importante é que a investigação deve ser feita antes da
retirada do glúten da dieta. A exclusão por conta própria pode alterar
resultados de exames e dificultar a confirmação diagnóstica.
“Retirar o glúten sem orientação médica pode até aliviar sintomas
em algumas pessoas, mas também pode mascarar o quadro. Quando há suspeita, o
ideal é procurar avaliação especializada para conduzir a investigação de forma
adequada”, reforça a gastroenterologista.
Alta complexidade na investigação de casos difíceis
Embora muitos pacientes tenham boa evolução após o diagnóstico e a
retirada rigorosa do glúten, alguns casos exigem avaliação mais especializada,
principalmente quando há sintomas persistentes, manifestações fora do
intestino, dúvida diagnóstica ou suspeita de complicações. É nesse contexto que
a doença celíaca deixa de ser apenas uma questão alimentar e passa a envolver
uma linha de cuidado multidisciplinar.
Em instituições de alta complexidade, a abordagem de casos
gastrointestinais mais desafiadores pode integrar gastroenterologia,
endoscopia, anatomia patológica, nutrição e, quando necessário, outras
especialidades. Essa articulação contribui para diferenciar a doença celíaca de
outras condições digestivas, confirmar o diagnóstico com maior precisão,
orientar o tratamento e acompanhar a resposta clínica ao longo do tempo.
“Essas complicações são menos frequentes, mas mostram por que a
doença celíaca não deve ser tratada como uma simples intolerância alimentar. Em
alguns pacientes, especialmente aqueles com diagnóstico tardio, sintomas
persistentes ou sinais de má absorção, é necessário um acompanhamento mais
próximo e uma avaliação integrada”, afirma.
Tratamento exige dieta rigorosa e acompanhamento
O tratamento da doença celíaca é baseado na exclusão permanente do
glúten da alimentação. Isso inclui evitar alimentos que contenham trigo,
centeio e cevada, além de atenção ao risco de contaminação cruzada no preparo
dos alimentos. Mesmo pequenas quantidades podem desencadear inflamação
intestinal em pessoas com a doença.
O acompanhamento médico e nutricional é essencial para monitorar a
resposta ao tratamento, corrigir deficiências nutricionais e orientar uma dieta
segura e equilibrada. Quando tratada corretamente, a doença tende a ter boa
evolução, com melhora dos sintomas e recuperação progressiva da mucosa
intestinal.
Por outro lado, a ausência de diagnóstico ou a manutenção do
consumo de glúten pode aumentar o risco de complicações, como desnutrição,
osteoporose, infertilidade, alterações hepáticas e, em situações menos frequentes,
doenças digestivas mais graves.
“Não se trata de uma escolha alimentar ou de uma dieta da moda.
Para quem tem doença celíaca, a retirada do glúten é um tratamento. Por isso, o
diagnóstico correto é tão importante: ele evita restrições desnecessárias em
quem não tem a doença e garante cuidado adequado para quem realmente precisa”,
conclui a gastroenterologista.
Hospital Alemão Oswaldo Cruz
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