Durante décadas, o papel do CEO foi associado a estratégia e resultado. Mas, em um ambiente de transformação constante, cada vez mais acelerado pela inteligência artificial, essa definição começa a se mostrar insuficiente.
Para Taiza Krueder, CEO do Clara Resorts, o líder
ocupa um papel ainda mais central e orgânico: o de pulmão da empresa. “É o CEO
que oxigena a organização. Que traz repertório, provoca novas perguntas, amplia
a visão. Se ele para, a empresa para junto.”
A metáfora ajuda a explicar por que a busca por
bons CEOs é tão acirrada e porque eles são, na prática, escassos.
A dificuldade não está apenas na formação técnica
ou na experiência acumulada. Está na capacidade de sustentar, ao mesmo tempo,
decisão, criatividade, responsabilidade e liderança, quatro dimensões que
precisam coexistir em equilíbrio.
Na visão de Taiza, a pirâmide se estreita
justamente nesse ponto. “Tem muita gente competente para executar, mas poucas
pessoas capazes de ampliar o olhar da empresa. O CEO precisa enxergar onde
ninguém está olhando e isso exige repertório, não só velocidade.”
Esse repertório não se constrói de forma passiva.
Pelo contrário: exige uma postura ativa e, muitas vezes, contraintuitiva.
Enquanto parte do mercado consome as mesmas referências,
frequenta os mesmos eventos e replica os mesmos discursos, líderes que se
mantêm relevantes buscam caminhos menos óbvios. “Se todo mundo está indo para
os mesmos lugares ouvir as mesmas coisas, onde está o diferencial?”, questiona
Taiza.
Atualização como disciplina
Taiza afirma que para manter-se relevante é preciso
criar um sistema próprio de aprendizado contínuo. Isso passa por estudar
constantemente, frequentar ambientes fora do circuito tradicional de negócios
e, principalmente, se expor ao novo antes que ele se torne consenso.
“É ir para onde ainda não é confortável, onde
ninguém está olhando.” Essa lógica define o ritmo da organização. Para Taiza, o
CEO tem o papel de provocar a empresa, inclusive assumindo o risco de errar. Ao
testar, ele autoriza o time a testar também. “O time é reflexo direto da
liderança. Quando você se movimenta, você leva oxigênio para todos os lados,
incentivando o time a fazer o mesmo.”
Essa busca por repertório também se traduz em
decisões práticas. Ao longo de sua trajetória, Taiza passou a buscar
referências fora do eixo tradicional de negócios, explorando contextos
diversos, de feiras internacionais, como em Milão, a imersões em mercados como
Ásia e Oriente Médio, nos quais as dinâmicas culturais e econômicas operam sob
outras lógicas. É nesse deslocamento que surgem os principais insights.
“Atualização não é consumir mais do mesmo. É conectar pontos que, à primeira
vista, não estão ligados”, acredita.
Essa visão se reflete na forma como ela lidera o
Clara Resorts, grupo que, sob sua gestão, estruturou programas internos de
formação de liderança e mantém uma cultura baseada em aprendizado contínuo e
inovação.
Na era da IA, vence quem sabe
perguntar
Se a atualização constante sempre foi importante, a
chegada da inteligência artificial elevou esse requisito a outro nível.
Para Taiza, o diferencial competitivo não está mais
apenas no acesso à informação, mas na capacidade de fazer as perguntas certas.
“Em um mundo de IA, a inteligência mais valiosa é a de quem sabe fazer as
perguntas certas. E para fazer isso você precisa de repertório, capacidade
analítica e visão comparativa.”
Essa visão dialoga com o conceito desenvolvido por
Chip Conley, autor e fundador da Modern Elder Academy, que diferencia
inteligência fluida (ligada à velocidade de raciocínio e aprendizado) da
inteligência cristalizada, construída ao longo dos anos a partir de
experiência, repertório e capacidade de síntese. Enquanto a primeira tende a
diminuir com o tempo, a segunda se fortalece e se torna um ativo estratégico,
especialmente em posições de liderança.
É justamente nessa inteligência cristalizada que
Taiza identifica o diferencial dos CEOs mais preparados. “Não é só sobre
acessar informação, mas sobre saber o que perguntar e como conectar as respostas.
Isso vem do repertório.”
Essa leitura também ajuda a explicar a dinâmica
entre gerações dentro das empresas. Profissionais mais jovens tendem a dominar
a velocidade e a tecnologia, enquanto líderes mais experientes têm a capacidade
de direcionar, contextualizar e transformar informação em decisão. “Existe uma
diferença grande entre empreender e dirigir uma empresa. O Brasil tem muitos
empreendedores, mas poucos gestores preparados para sustentar crescimento no
longo prazo.”
Liderança moderna em
hotelaria: empatia e antecipação de transformações
Outro desafio crescente para CEOs é manter
relevância diante de equipes cada vez mais críticas e menos hierárquicas,
movimento que exige maturidade emocional e capacidade de escuta. "Se você
não evolui, você é questionado. E rápido. Liderança hoje exige consistência,
não só posição", diz Taiza.
No Clara Resorts, essa convicção se traduziu numa
escolha deliberada de estrutura: a hierarquia achatada. Taiza foi além do
discurso e construiu uma cultura na qual o conhecimento circula livremente,
independentemente do cargo. "Como líder, frequentemente sou voto vencido
nas reuniões. E sabe o que faço? Celebro. Para mim, isso é sinal de uma
democracia organizacional saudável. Ninguém aqui é dono da verdade. E isso inclui
a CEO”, afirma.
Essa abertura à escuta é estratégica. Em setores
como a hotelaria, a construção de relevância passa por uma habilidade central:
a capacidade de se colocar no lugar do outro. Essa lógica, orientada ao cliente
externo, se estende naturalmente ao cliente interno. Uma equipe que se sente
ouvida responde com responsabilidade. "Quando os colaboradores sabem que
serão ouvidos, o empoderamento e a responsabilidade geram evolução e
amadurecimento, tanto profissional quanto pessoal", preconiza Taiza.
Esse modelo ganhou ainda mais complexidade com a
chegada de novas gerações ao mercado de trabalho. Em vez de resistir, Taiza
optou pelo que ela chama de age blending: a integração consciente
entre jovens e profissionais experientes. "Em vez de ficar criticando a
Geração Z, escolhemos acolhê-la. E aprender com ela. Esses jovens têm uma
capacidade impressionante de otimizar processos e uma proximidade real com o
mercado consumidor que seria um desperdício ignorar", defende.
Ao mesmo tempo, o próprio conceito de planejamento
estratégico mudou. O que antes era estruturado para os próximos anos hoje
precisa ser revisto em ciclos muito mais curtos, muitas vezes semestrais. E,
segundo Taiza, para isso, é necessário consistência para sustentar o negócio e
inquietude para questioná-lo continuamente.
Mas questionamento sem preparo é ruído. Por isso, o
investimento em capacitação no Clara não é item de orçamento: é, conforme
salienta a CEO, pilar de cultura. O programa de auxílio-faculdade, por exemplo,
já viabilizou a formação superior de dezenas de profissionais que atuam nas
unidades. "A gente opera em regiões onde a escolaridade é um desafio real.
Mas em vez de lamentar isso, decidimos fazer parte da solução. Educação é uma
das minhas maiores convicções. Decididamente, é a ponte para o futuro, para o
indivíduo e para o negócio", pontua.
Para Taiza, em um cenário em que a informação é
abundante e acessível, o verdadeiro diferencial está na curadoria, na conexão
e, sobretudo, na qualidade das perguntas: "mais do que acompanhar
transformações, o CEO precisa antecipá-las e, muitas vezes, provocá-las,
aprendendo de forma contínua”.
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