Empresas vendem mais, operam mais e lucram menos; especialistas alertam para o avanço de um crescimento desestruturado no e-commerce brasileiro
Durante anos, crescer foi tratado como o principal
indicador de sucesso no comércio eletrônico. Mais pedidos, mais anúncios, mais
canais de venda e mais faturamento passaram a representar a imagem de operações
saudáveis e em expansão. Mas uma realidade menos visível começa a preocupar
empresas do setor: negócios digitais que aumentam vendas enquanto perdem
margem, controle operacional e capacidade de gestão.
O fenômeno ganha força em meio à expansão acelerada dos
marketplaces no Brasil. Com a disputa cada vez mais intensa por preço, prazo de
entrega e relevância nos algoritmos das plataformas, parte dos vendedores
passou a operar no limite da rentabilidade sem perceber.
“O faturamento cresce, mas junto dele crescem também
custos invisíveis, retrabalho, pressão logística, erros de precificação e perda
de margem. Muitas empresas descobrem tarde demais que estavam escalando
prejuízo”, afirma Thiago Trincas, CEO da Seconds, empresa brasileira
especializada em gestão e lucratividade para operações em marketplaces.
Segundo ele, o problema está diretamente ligado à falta
de estrutura operacional para acompanhar o ritmo da expansão digital.
“Muitos empreendedores ainda medem saúde financeira
apenas pelo volume vendido. Só que marketplace é um ambiente extremamente
complexo. Quando a operação cresce sem controle, o negócio pode parecer forte
por fora e estar fragilizado internamente”, explica.
A pressão operacional aumentou nos últimos anos com a
multiplicação de canais de venda, campanhas promocionais permanentes, mudanças frequentes
nos algoritmos e aumento dos custos logísticos. Na prática, isso significa que
produtos campeões de venda nem sempre são os mais lucrativos e, em alguns
casos, podem até gerar prejuízo.
Entre os principais gargalos enfrentados pelas operações
digitais estão:
- dificuldade
em acompanhar margens reais;
- custos
pulverizados entre frete, comissão e mídia;
- ruptura
e excesso de estoque;
- decisões
tomadas sem leitura precisa de dados;
- crescimento
acelerado sem previsibilidade financeira.
Para especialistas do setor, o e-commerce brasileiro vive
uma mudança de maturidade. Se antes o desafio era aprender a vender online,
agora passa a ser operar com eficiência.
Dados da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico
(ABComm) apontam que o setor deve movimentar cerca de R$ 259 bilhões até o
final de 2026. O crescimento, porém, também amplia a complexidade das operações
e reduz a margem para improvisos.
“O mercado entrou em uma fase em que crescer deixou de
ser suficiente. O desafio agora é crescer preservando margem, organização e
capacidade de decisão. Escala sem controle cobra uma conta muito alta”, diz
Trincas.
A avaliação é que o setor vive uma espécie de “crise
silenciosa de eficiência”, em que empresas aparentemente saudáveis enfrentam
dificuldades de caixa, perda de competitividade e desgaste operacional mesmo em
períodos de aumento nas vendas.
Outro fator que passou a ganhar relevância é a segurança
das operações digitais. Com empresas cada vez mais dependentes de tecnologia,
integrações e gestão de dados, falhas operacionais e vulnerabilidades também
passaram a representar riscos financeiros.
“Hoje, controle operacional não é apenas acompanhar
venda. É entender margem, fluxo financeiro, comportamento da concorrência,
logística, segurança da informação e capacidade de reação rápida. O crescimento
saudável depende disso”, afirma o CEO.
Na avaliação do executivo, a lógica do “crescer a
qualquer custo” começa a perder espaço no e-commerce brasileiro. “A próxima
fase do mercado não será vencida necessariamente por quem vende mais, mas por
quem consegue transformar crescimento em lucro sustentável”, conclui.
https://www.seconds.com.br

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