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| Resultados do estudo reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida desde cedo, ressalta Maria do Carmo Pinho Franco, da Unifesp Jcomp/Freepik |
Investigação realizada com 130 participantes entre 6 e 11 anos mostrou que inflamação associada a obesidade e sobrepeso afeta o funcionamento do endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos –, abrindo caminho para doenças como aterosclerose, infarto e AVC
Um estudo
conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) com
130 crianças entre 6 e 11 anos identificou que a obesidade pode causar, por si
só, danos imediatos à saúde cardiovascular infantil, aumentando o risco de
doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC) já na
infância.
O trabalho, apoiado pela FAPESP
(processos 21/14313-7 e 22/09352-6), identificou sinais precoces de inflamação e
disfunção no endotélio – camada que reveste os vasos sanguíneos – em crianças
com sobrepeso e obesidade.
“Os resultados do estudo
reforçam a gravidade da obesidade infantil, mostrando que ela precisa ser revertida
desde cedo. Alertamos também sobre a necessidade de políticas públicas para a
redução da obesidade na infância, sobretudo em populações em vulnerabilidade
socioeconômica”, afirma Maria do Carmo Pinho Franco, professora da Unifesp e
autora do estudo publicado no International
Journal of Obesity.
A pesquisadora explica que a
obesidade promove – em adultos e crianças – uma inflamação crônica e de baixo
grau que deixa o sistema de defesa do organismo em constante alerta,
gerando uma sucessão de falsos alarmes e, por consequência, o envelhecimento
prematuro das células imunes. No endotélio, o foco do estudo, os pesquisadores
identificaram que esse processo inflamatório provoca dano celular, mesmo em
crianças, o que aumenta a gravidade da obesidade infantil.
“Já era sabido que crianças com
sobrepeso ou obesidade tendem a se tornar adolescentes e adultos com o mesmo
problema, o que aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e
cardiometabólicas no futuro. Mas esse efeito não é apenas cumulativo. O estudo
identificou que as crianças com sobrepeso ou obesidade já apresentam sinais de
inflamação e disfunção endotelial, indicando que o processo de adoecimento
cardiovascular começa já na infância, mesmo antes de outros fatores de risco
aparecerem”, diz Franco.
“Essas crianças não fumam, não
bebem e não têm décadas de maus hábitos considerados fatores de risco para
doenças cardiovasculares. Trata-se também de uma população pré-púbere, ou seja,
sem a influência de hormônios sexuais. O único fator presente é o excesso de
peso. Portanto, a análise mostrou que a obesidade, por si só, é suficiente para
iniciar um processo inflamatório crônico de baixo grau, com impacto direto na
saúde vascular”, completa.
No trabalho, os pesquisadores
encontraram elevação na expressão gênica da citocina inflamatória TNF-alfa em
amostras de sangue das crianças com sobrepeso ou obesidade, além de um aumento
dos níveis circulantes de micropartículas endoteliais (EMPs, na sigla em
inglês) apoptóticas – os dois marcadores inflamatórios podem indicar dano à
célula endotelial, contribuindo para um quadro de disfunção no tecido. Franco
explica que, como o endotélio é considerado o orquestrador da saúde vascular, a
lesão precoce nos vasos sanguíneos detectada no exame das crianças pode levar a
doenças como aterosclerose, infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
A pesquisa também mediu
indicadores como índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura,
pressão arterial e função endotelial da microvasculatura. Crianças com
sobrepeso e obesidade apresentaram pior desempenho no Índice de Hiperemia
Reativa (RHI, na sigla em inglês), que avalia a saúde dos microvasos, além de
maior expressão do gene TNF-alfa, fator que se correlacionou com os níveis
elevados de EMPs e a piora da função endotelial.
Outro aspecto importante do
estudo é que ele foi conduzido com crianças atendidas em um Centro da Juventude
na capital paulista. A avaliação do IMC, circunferência da cintura, pressão
arterial e tonometria arterial periférica foi realizada no próprio local, com
apoio de nutricionistas, médicos e enfermeiros voluntários.
As análises laboratoriais,
incluindo extração de RNA e quantificação de marcadores inflamatórios por PCR
(qRT-PCR), foram feitas no Departamento de Biofísica da Escola Paulista de
Medicina (EPM-Unifesp).
Também foi feito um trabalho de
conscientização e treinamento com merendeiras e responsáveis em que foram
ensinadas receitas que substituíssem o uso de ultraprocessados no cardápio de
crianças, priorizando alimentos saudáveis.
Os pesquisadores defendem a
necessidade urgente de ampliar e fortalecer políticas públicas para prevenir a
obesidade infantil, especialmente em comunidades com vulnerabilidade
socioeconômica. “Além de todo o problema de cunho individual, sem a intervenção
precoce essas crianças tendem a se tornar adultos com doenças cardiovasculares
e metabólicas, o que representa um impacto preocupante para a saúde pública e
para a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro”, alerta Franco.
O artigo Whole blood
TNF-α expression and apoptotic endothelial microparticles reveal early vascular
injury in pediatric obesity pode ser lido em: nature.com/articles/s41366-025-01954-8.
Maria Fernanda Ziegler
Agência FAPESP
https://agencia.fapesp.br/obesidade-infantil-causa-danos-vasculares-precoces-indica-estudo-com-criancas-paulistas/57087

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