Nessas últimas semanas fomos sacudidos por manchetes policiais envolvendo adolescentes: um cachorro de praia, amado pela comunidade, chamado Orelha, foi espancado por um grupo de adolescentes e sacrificado dado seu estado após o ataque. Um outro rapaz, chamado Pedro Turra, espancou um adolescente que, ao chegar em casa, passou mal e foi levado às pressas para o hospital, e, apesar de todos os esforços, entrou em coma profundo e irreversível, vindo a falecer duas semanas depois.
Uma psiquiatra muito importante na mídia se juntou à onda de revolta que sacudiu nosso país: levantou a possibilidade de que os envolvidos apresentam traços de Psicopatia: comportamento violento, falta de empatia ou arrependimento, minimização dos fatos e transferência de responsabilidades. Pedro Turra, por exemplo, estava combinando a versão que o menor espancado portava uma arma branca e que aquilo tinha sido uma briga sem importância. Vou me deter no caso desse rapaz, onde temos mais dados para analisar. Mas já adianto que não é possível discutir diagnósticos em um caso que não foi avaliado diretamente. Podemos, sim, levantar questões que nos afetam a todos.
O diagnóstico de Transtorno de Personalidade
Antissocial, como hoje é chamada a Psicopatia, não pode ser realizado em um
Cérebro em formação. Eu sei que essa afirmação deixa muita gente frustrada, mas
o especialista não deve levantar hipóteses em público sobre um caso que tomamos
conhecimento pela mídia. Eu acho que o ex piloto Pedro Turra é um garoto de
ótima índole, que apenas se mete em confusões por ser explosivo? Não acho não.
Acho que esse rapaz é sintoma de algo muito maior que ele e esse episódio
horrível.
Nossa sociedade está doente e não só estimula como
premia a Psicopatia. Pedro Turra vem se envolvendo em episódios violentos desde
a metade do ano passado: deu um mata leão em outro rapaz, deu choques e coagiu
uma menor a tomar vodca, bateu em um homem em briga de trânsito. Divulgava seus
“feitos”, filmados e divididos em redes sociais. Pedro construiu, entre seus
puxa-sacos, a persona do “Sou Foda”. Seu caso não é isolado. É uma epidemia de pessoas
que consomem conteúdos de grupos de ódio e criam um culto ao domínio e a
submeter o Outro pelo uso da violência. A dinâmica do Sádico é entender que “o
corpo da outra pessoa me pertence e posso fazer com ele o que eu quiser”. Eu
posso bater, ameaçar ou abusar de quem não pode me dizer não.
Temos então a corrosão do senso de valor da vida e da existência humana, ou de bichos indefesos. Os grupos de ódio incentivam esse comportamento violento em que a existência, a vida, não são mais um valor a ser defendido e cuidado. A mentalidade do “Sou Foda” permitem que pessoas públicas humilhem e ridicularizem pessoas mais fracas, doentes ou deficientes. Abolindo a empatia, fortalecem a sensação de que “eu posso tudo”.
Nas últimas décadas, muitos avanços em nossa
consciência coletiva como direitos de minorias ou de pessoas sempre
marginalizadas por orientação sexual, cor da pele ou origem familiar. Isso é um
avanço, e gerou uma reação de gente que defendem, na solidão das Redes Sociais,
a opressão, a violência e o domínio sobre quem é mais fraco.
Desde os Neandertais que a raça humana se
caracteriza pelo cuidado com os idosos, os doentes, os mais fracos. No universo
virtual, onde passamos cada vez mais tempo, assistimos à perda de nossa
capacidade de humanização e de cuidado com o Outro. Veja o leitor que o fato de
ser importante evitar o linchamento virtual e o pré julgamento das Redes
Sociais, a reação coletiva de raiva e nojo diante desses comportamentos
repugnantes traz à tona a necessidade de uma Educação Digital que comece muito
cedo e que não se restrinja ao controle de uso e de tempo online, mas uma
educação profunda contra a violência digital e a banalização do mal que a raça
humana enfrenta desde o Nazismo. O Nazismo agora é virtual, e o entorpecimento
de nossa resposta lembra a sociedade alemã indiferente à perseguição de pessoas
por sua raça e origem.
O silêncio dos bons é a permissão do mal e do
abuso. Está na hora de se gritar, nos lares e nas escolas, que os grupos de
ódio estão prontos a sequestrar nossas crianças para sua seita. E quando elas
entram, é bem difícil trazê-las de volta. Ou, às vezes, é tarde demais.
Marco Antonio Spinelli - médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiano e autor do livro “Stress o coelho de Alice tem sempre muita pressa”
Nenhum comentário:
Postar um comentário