Pesquisa brasileira com células humanas revela alterações químicas associadas à Síndrome de Dravet; estudo foi publicado na revista ACS Chemical Neuroscience
Um estudo brasileiro aponta que desequilíbrios na concentração intracelular de
minerais essenciais podem estar diretamente relacionados à Síndrome de Dravet,
uma forma rara e grave de epilepsia que se manifesta ainda no primeiro ano de
vida. A pesquisa, publicada na revista científica ACS Chemical Neuroscience,
contou com a participação do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), do
Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (IFRJ).
O
trabalho foi liderado pelos pesquisadores Stevens Rehen, neurocientista e
pesquisador do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR), Mariana Stelling
(IFRJ) e Simone Cardoso (UFRJ), que investigaram como alterações químicas no
ambiente cerebral podem contribuir para a gravidade da doença, um aspecto ainda
pouco explorado pela ciência.
A
Síndrome de Dravet é uma condição neurológica genética caracterizada por crises
epilépticas frequentes e de difícil controle, além de atrasos no
desenvolvimento cognitivo e motor. A doença também está associada a um risco
elevado de morte precoce durante a infância ou adolescência.
Atualmente,
não há cura, e os tratamentos disponíveis buscam apenas reduzir a frequência e
a intensidade das crises, com o uso de anticonvulsivantes e, em alguns países,
canabidiol.
Na
maioria dos casos, a síndrome está ligada a mutações no gene SCN1A, responsável
pela produção de um canal de sódio chamado Nav1.1, fundamental para a
comunicação entre os neurônios. Quando esse canal não funciona corretamente, o
cérebro entra em um estado de hiperexcitabilidade, no qual os neurônios disparam
sinais elétricos em excesso, favorecendo as convulsões.
Para
compreender melhor os mecanismos da doença, os pesquisadores utilizaram uma
abordagem inovadora e não invasiva. Células obtidas a partir da urina de
pacientes com Síndrome de Dravet e de indivíduos sem a condição foram
reprogramadas em laboratório para se tornarem células-tronco pluripotentes
induzidas (iPS), células capazes de se transformar em diferentes tipos
celulares, incluindo neurônios.
A
partir dessas células, os cientistas criaram neuroesferas, pequenos aglomerados
tridimensionais de células nervosas que reproduzem aspectos do desenvolvimento
do cérebro humano. Esses modelos permitiram estudar a doença sem risco aos
pacientes e sem a interferência de medicamentos anticonvulsivantes.
Uma
das etapas centrais do estudo foi à análise da concentração de elementos
químicos nas neuroesferas. Para isso, a equipe utilizou uma técnica de alta
precisão chamada microfluorescência de raios-X por radiação síncrotron, capaz
de detectar quantidades mínimas de minerais dentro das células. As análises
foram realizadas no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM),
em Campinas (SP).
Os
resultados mostraram que as células derivadas de pacientes com Síndrome de
Dravet apresentavam níveis significativamente mais elevados de potássio, cobre
e zinco em comparação com células de indivíduos sem a doença. Já outros
elementos importantes para o funcionamento cerebral, como cálcio e ferro, não
apresentaram diferenças relevantes.
Segundo
os pesquisadores, o excesso de potássio pode estar associado a uma menor
atividade da bomba Na⁺/K⁺ ATPase, mecanismo essencial para manter o
equilíbrio elétrico dos neurônios. Esse desequilíbrio pode tornar as células
ainda mais excitáveis, favorecendo as crises epilépticas.
O
aumento do zinco pode estar relacionado ao seu acúmulo em estruturas chamadas
vesículas pré-sinápticas, envolvidas na transmissão de sinais entre neurônios.
Já os níveis elevados de cobre podem refletir uma resposta do cérebro ao
estresse oxidativo, um tipo de dano celular causado pelas crises convulsivas
repetidas.
"Esse
estudo reforça a importância de abordagens integradas para estudar epilepsias
raras. Ao combinar modelos celulares humanos com técnicas avançadas de análise
química, conseguimos revelar aspectos da fisiopatologia da Síndrome de Dravet
que podem, no futuro, orientar o desenvolvimento de terapias mais
direcionadas." afirma Stevens Rehen, neurocientista e pesquisador do
Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR).
O
trabalho reforça o potencial das células-tronco iPS como ferramenta para
estudar doenças neurológicas complexas. Mais do que identificar um gene
defeituoso, a pesquisa revela como o ambiente químico do cérebro pode
influenciar a gravidade da Síndrome de Dravet.
Esse
tipo de conhecimento pode abrir caminho para o desenvolvimento de novas
estratégias terapêuticas, que não se limitem apenas ao controle das crises, mas
atuem diretamente nos mecanismos celulares da doença.
Para uma condição tão rara e
desafiadora quanto a Síndrome de Dravet, cada avanço científico representa
esperança para pacientes e familiar.
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